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Colunas — História

O império da barbárie

Alderi Souza de Matos

 

7 de maio de 2009 -- dirigindo um veículo Passat em altíssima velocidade, no bairro do Mossunguê, em Curitiba, Luiz Fernando Ribas Carli Filho atingiu um Honda Fit, matando instantaneamente Gilmar Rafael Souza Yared, de 26 anos, e Carlos Murilo de Almeida, de 20 anos. Detalhe: Carli, na época com 26 anos, era deputado estadual, pertencendo a uma família de políticos do interior do estado.

 

23 de julho de 2011 -- dirigindo de madrugada o Land Rover do namorado, que estava ao seu lado, a nutricionista Gabriella Guerreiro atropelou e matou o administrador Vitor Gurman, de 24 anos, que caminhava na calçada da rua Natingui, na Vila Madalena, em São Paulo. Vitor era um jovem que se destacava pela alegria, simpatia e cordialidade, conforme o testemunho dos que conviveram com ele.

 

18 de outubro de 2015 -- na madrugada desse domingo, a assistente jurídica Juliana Cristina da Silva, de 28 anos, atropelou e matou dois operários e pais de família, José Hairton de Andrade, de 53 anos, e Raimundo Barbosa dos Santos, de 38 anos, naturais do Piauí, que pintavam uma ciclofaixa na avenida Luiz Dumont Villares, no bairro Santana, zona norte de São Paulo. Depois do atropelamento, Juliana dirigiu por mais três quilômetros até ser detida.

 

Esses exemplos são ilustrativos da imensa tragédia que se desenrola diariamente nas ruas e estradas do Brasil, resultando em cerca de 50 mil mortos e 200 mil feridos por ano. Levando em conta os familiares e amigos dessas vítimas, conclui-se que milhões de pessoas são traumatizadas a cada ano por essa amarga realidade. Cabe fazer uma distinção entre acidentes de trânsito e crimes de trânsito. No primeiro caso, ocorre um evento fatal por fatores alheios à vontade do condutor (defeito mecânico, pista irregular, problemas climáticos). No segundo, como nos casos acima, o condutor assume o risco de causar dano a si e a outrem em razão de imprudência ou irresponsabilidade grave.

 

Grande parte desses episódios tem dois elementos em comum, um anterior e outro posterior ao evento: consumo de bebidas alcoólicas e clamorosa impunidade. Transcorridos sete anos, o ex-deputado ainda não foi sentenciado por seu crime. Na época, o seu prontuário tinha trinta multas de trânsito, 23 delas por excesso de velocidade, e ele estava proibido de dirigir. No início deste ano (2016) o júri popular que iria julgá-lo foi suspenso pelo Supremo Tribunal Federal, porque falta apreciar mais um recurso da defesa, que discute se o crime foi doloso ou culposo, se houve ou não a intenção de matar.

 

A mãe de uma das vítimas, Christiane Yared, que recebeu o corpo do filho em um caixão lacrado, é empresária e pastora evangélica. Em 2014 elegeu-se deputada federal com cerca de 200 mil votos, a mais votada do Paraná. Desde o acidente, trabalha pela humanização do trânsito e pelo fim da impunidade. No Brasil atual, ocorrem manifestações em defesa de todo tipo de agendas. Porém, por uma estranha paralisia da consciência nacional, não se verifica uma revolta ampla, profunda e contundente em prol da transformação dessa realidade vergonhosa, da qual o Brasil é recordista mundial.

 

O primeiro problema é cultural: a glamourização da velocidade, incentivada pelas competições automobilísticas, e o prazer imaturo em transgredir as normas da civilidade. O segundo problema é jurídico: as tremendas falhas da legislação penal e processual. Existem duas leis que regulam o assunto: o Código Brasileiro de Trânsito e o Código Penal. O primeiro, com sua lamentável leniência em relação aos delitos de trânsito, considerando-os como culposos, não intencionais, é aplicado com frequência pelas autoridades, levando a punições que são um escárnio para vítimas e familiares: prestação de serviços comunitários, doação de cestas básicas e assim por diante.

 

Quando se aplica o Código Penal, mais rigoroso, porque admite a possibilidade do homicídio intencional no trânsito, surge o problema processual: a infinidade de recursos que permite a réus com bons advogados o adiamento eterno de uma sentença condenatória, perpetuando-se a injustiça. Muitas vezes, a única coisa que resta para as famílias são as condenações civis para pagamento de indenizações, geralmente muito baixas, por causa da interpretação de juízes e tribunais de que, de outro modo, se estaria chancelando o “enriquecimento sem causa” dos sobreviventes.

 

Esse é um assunto que deveria interessar não só à sociedade em geral, mas aos cristãos em particular. Desde o seu início, o cristianismo foi um grande defensor da vida na cruel sociedade pagã. Assim, os seguidores de Cristo se opuseram ao aborto, ao infanticídio, às lutas de gladiadores e outras formas de violência contra o bem mais precioso de todos. Em sua obra “Súplica pelos Cristãos”, Atenágoras de Atenas, um apologista do 2º século, diz a certa altura que ver morrer, ou seja, assistir à morte de alguém, como acontecia nos espetáculos públicos, é quase equivalente a matar.

 

É função dos governantes, legisladores e magistrados criar condições para que o trânsito de veículos seja responsável e seguro, mediante contínua educação, legislação atualizada e fiscalização rigorosa. Se eles não se sensibilizam com esse flagelo nacional, cumpre a nós, cidadãos, pressioná-los para que o façam, por amor à decência, por amor à justiça, por amor à vida. Que os cristãos brasileiros e todos os cidadãos conscienciosos se mobilizem por uma mudança radical em nossa cultura e em nossas leis, para que a barbárie não continue a imperar em nossas ruas.

 

Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e professor no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. É autor deErasmo Braga, o Protestantismo e a Sociedade Brasileira”, A Caminhada Cristã na História e “Fundamentos da Teologia Histórica”. Artigos de sua autoria estão disponíveis aqui.

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