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Colunas — História

Raimundo Lúlio: intelectual, literato, missionário transcultural

Alderi Souza de Matos

 

O século 13 ficou conhecido como um período de importantes realizações no contexto da cristandade europeia. Lamentavelmente, também se destacou pelas Cruzadas, nas quais a igreja ocidental foi ao encontro do islã não com o evangelho, mas com a espada. Ao mesmo tempo, nesse século surgiram os primeiros esforços de uma abordagem pacífica e construtiva em relação ao mundo muçulmano. O pioneiro desse enfoque foi Francisco de Assis, que pregou ao sultão do Egito em 1219. Porém, um nome ainda mais destacado veio a ser o do catalão Ramon Lull, ou Raimundo Lúlio.

 

Lúlio foi não somente um missionário entre os seguidores de Maomé, mas também um intelectual de primeira ordem, utilizando a lógica e a filosofia a serviço do diálogo inter-religioso e da evangelização. Ele também se notabilizou como o mais famoso “terciário” franciscano. As ordens mendicantes criadas nessa época (franciscanos e dominicanos) exerceram grande influência sobre os leigos, levando ao surgimento das ordens terceiras, que permitiam a homens e mulheres envolvidos com ocupações comuns viverem uma vida semimonástica de jejum, oração e benevolência.

 

Raimundo Lúlio nasceu em Palma de Majorca, nas ilhas Baleares, em 1232. Esse arquipélago do mar Mediterrâneo havia sido retomado dos muçulmanos pouco antes do seu nascimento.  Casou-se em 1257 e teve dois filhos. Passou algum tempo na corte do rei de Aragão, vivendo de modo dissoluto. Com cerca de 30 anos, retornou a Majorca e teve uma profunda experiência religiosa de natureza mística, marcada por diversas visões (1263). Decidiu então deixar a família e os bens para seguir uma vida de serviço a Deus. Sentiu-se chamado a levar a mensagem de Cristo a outros povos, em especial os sarracenos, os mais temidos inimigos da cristandade.

 

Tendo se tornado um terciário franciscano, por nove anos dedicou-se ao estudo tanto da língua árabe como do pensamento teológico e filosófico cristão e islâmico. Escreveu seus primeiros livros: um compêndio sobre o pensador muçulmano Al-Ghazali e o “Livro Sobre a Contemplação de Deus”. Já passava dos 40 anos quando deu início ao seu trabalho missionário, para o qual, segundo a autora Ruth Tucker, desenvolveu uma tríplice abordagem: apologética, educacional e evangelística.

 

Sua contribuição como apologista cristão junto aos muçulmanos foi vasta. Em 1274, concebeu a estrutura de sua obra mais importante (Arte Magna), que seria objeto da maior parte de seus esforços até o final da vida. Pretendia ser uma ferramenta de debate para ganhar muçulmanos para a fé cristã por meio da lógica e da razão. Essa obra influenciou pensadores posteriores como Giordano Bruno e Gottfried Leibniz. Nesse e em muitos outros livros teológicos, ele deu ênfase especial à concepção cristã de Deus, abordando temas como a encarnação e a Trindade.

 

No campo da educação, Lúlio insistiu no estudo do árabe e de outros idiomas com o fim de converter muçulmanos e judeus. Viajou incansavelmente pela Europa para encontrar-se com reis e papas, tentando criar escolas especiais para preparar missionários.

Finalmente alcançou o seu objetivo educacional em 1311, quando o Concílio de Vienne, na França, determinou a criação de cadeiras de grego, hebraico, caldaico (aramaico) e árabe nas universidades de Paris, Salamanca, Bolonha e Oxford, bem como na corte papal em Avinhão.

 

Em 1293, partiu em sua primeira missão ao norte da África, seguindo para a Tunísia. Embora a região fosse um importante centro islâmico, conseguiu reunir-se com os líderes religiosos e expor os seus argumentos. Porém, como era de se esperar, foi preso, apedrejado por uma turba e teve de deixar o país. Em 1307, aos 75 anos, retornou ao norte da África, desta vez à cidade de Bugia, no litoral da Argélia. Procurando um lugar público, desafiou os muçulmanos a compararem sua religião com o cristianismo. Mais uma vez foi preso e banido, retornando à Europa.

 

Em 1314, com mais de 80 anos, voltou a Túnis e, gozando de relativa liberdade, ganhou alguns convertidos. Após muitos meses de reclusão, foi ao mercado público e se identificou como o mesmo que haviam expulsado anteriormente. Diante de sua corajosa pregação, uma multidão irada o apedrejou. Mercadores genoveses o levaram de volta para Palma de Majorca, onde ele morreu no ano seguinte. A data tradicional de sua morte é 29 de junho de 1315. Foi beatificado pelo papa Pio IX em 1857.

 

Ao todo, Raimundo Lúlio escreveu mais de 250 obras. Sua novela romântica “Blanquerna” é considerada a primeira grande obra de literatura escrita no idioma catalão. Alguns cientistas afirmaram que o seu sistema de lógica foi o início da ciência da computação. Sua abordagem evangelística muitas vezes foi excessivamente confrontativa. No entanto, ele abriu novos caminhos ao propor a difusão da fé cristã mediante argumentos, e não por meio da violência. No transcurso do 700º aniversário de sua morte, é compensador meditar sobre o seu legado.

 

Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e professor no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. É autor de Erasmo Braga, o Protestantismo e a Sociedade Brasileira, A Caminhada Cristã na História e Fundamentos da Teologia Histórica. Artigos de sua autoria estão disponíveis em http://www.mackenzie.com.br/historia_igreja.html.

 

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