Apoie com um cafezinho
Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Colunas — Reflexão

A floresta e seus leões

Ed René Kivitz

 

Dois amigos caminhavam pela floresta quando ouviram o rugido de um leão. O primeiro começa a pensar em lugares para se esconderem. O segundo lentamente abre a mochila e começa a calçar seus tênis de corrida. O primeiro pergunta: “Você pensa que consegue correr mais rápido do que o leão?”. O outro responde: “Não preciso correr mais rápido do que o leão. Apenas preciso correr mais rápido do que você”.

 

O rabino Jonathan Sacks comenta essa velha história dizendo que o primeiro buscou uma solução coletiva, pensando em como salvar a si mesmo e o amigo. O segundo optou pela seleção natural, escolhendo salvar sua vida e sacrificando o amigo. Este é um dos grandes dilemas humanos: altruísmo ou sobrevivência? O que deve ter primazia, o bem comum ou os interesses pessoais? Convivemos todos com essa ambiguidade de bem e mal guerreando dentro de nós.

 

De acordo com Darwin, e seu princípio da seleção natural, que afirma a sobrevivência do mais forte ou mais apto ou adaptado, aqueles que escolhem o caminho do altruísmo arriscam a vida em favor dos outros e na média morrem mais cedo e falham em passar seus genes adiante. Os egoístas sobrevivem. A conclusão científica de Darwin é corroborada pela narrativa teológica do Gênesis, que descreve o ser humano viciado em escolher a si mesmo sempre que precisa decidir quem deve ser privilegiado em suas relações. O dilema, então, aprofunda-se. Como construir sociedades solidárias e colaborativas quando a tendência natural da espécie sugere o caminho da autopreservação e do egocentrismo?

Esse é um dos temas tratados pelo rabino Jonathan Sacks em sua mais recente obra, “Not In God’s Name”, em que aborda a questão da relação violência e religião e tenta encontrar explicações e soluções para o fenômeno “matar em nome de Deus”. Sacks mantém seu foco na teoria darwinista. Cita “A Descendência do Homem”, escrito em 1871, em que Darwin afirma que uma tribo com espírito coletivo tem mais probabilidade de sobrevivência do que uma outra caracterizada pelo egoísmo. A conclusão é: transferimos nossos genes como indivíduos, mas sobrevivemos apenas em grupo. Num aparente paradoxo, criamos grupos cooperativos para garantir nossa sobrevivência na corrida da competição. Precisamos viver em grupos para nos protegermos e prevalecermos sobre outros grupos. Perpetuamos a tensão entre os instintos de sobrevivência e altruísmo por necessidade de perpetuação da raça.

 

Sigmund Freud também discute o desconforto dessa condição em seu texto “O Mal-estar da Civilização”, que consiste na necessidade de abrir mão da liberdade para possibilitar a convivência coletiva imprescindível à sobrevivência. Sozinhos não conseguimos superar a hostilidade do mundo. Entretanto, abrir espaço para que outros habitem o mesmo mundo exige sacrifícios advindos dos limites que precisam ser impostos aos nossos desejos e vontades, em suma, à nossa liberdade.

 

O curso natural da disposição à cooperação e à solidariedade segue um caminho previsível. Compartilhamos 50% dos genes dos nossos irmãos e apenas 8% dos nossos primos. Edmund Burke diz que “iniciamos nossos afetos públicos na família”. Estamos dispostos ao sacrifício pelos nossos. Porém, hoje não somos mais organizados em clãs e não vivemos mais em sociedades tribais. Habitamos cidades e megalópoles. Compartilhamos o espaço coletivo com multidões, estamos todos os dias frente a frente com o estrangeiro. Somos chamados a viver a busca do bem comum cooperando com estranhos, fazer sacrifícios em favor de desconhecidos. A arena pública é aberta a um mosaico cuja diversidade é do tamanho de 7 bilhões de pessoas, pois o mundo ficou pequeno e já sabemos que o sol que nasce em Bagdá brilha no céu de Ipanema e a camiseta do nosso netinho foi costurada no Vietnã.

 

As ruas clamam por justiça e paz. Mas os genes egoístas e as associações de sangue e as sociedades de classe não serão capazes de servir a mesa inclusiva em que ninguém fique de fora, partilhando o pão que é nosso, tendo dado graças ao Pai nosso. As ideologias e os sistemas políticos, os avanços científicos e tecnológicos, a educação e o desenvolvimento não se mostram suficientes para atender ao clamor de bilhões de pessoas que vivem à margem dos benefícios das sociedades organizadas ao redor da riqueza partilhada entre poucos. Um mundo que deixa seus filhos mais fracos e fragilizados à mercê dos leões carece de outro caminho e outro fundamento solidário.

 

O tempo da oportunidade é também o da responsabilidade. A grita humana por mais compaixão, solidariedade e generosidade deve encontrar nos cristãos, e em todos os homens e mulheres de boa vontade e que cultivam o temor de Deus, as primeiras respostas. Independentemente dos cenários dos mundos que nos antecederam, uma verdade é incontestável: hoje é urgente que as palavras de Jesus encontrem lugar para que sejam encarnadas.

 

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso! E se vocês saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês” (Mt 5.43-48).

 

Ed René Kivitz é pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo, SP. É mestre em ciências da religião e autor de, entre outros, “O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia”.

 

LEIA MAIS

A reconciliação e o mistério do perdão triangular

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI.

Ultimato quer falar com você.

A cada dia, mais de dez mil usuários navegam pelo Portal Ultimato. Leem e compartilham gratuitamente dezenas de blogs e hotsites, além do acervo digital da revista Ultimato, centenas de estudos bíblicos, devocionais diárias de autores como John Stott, Eugene Peterson, C. S. Lewis, entre outros, além de artigos, notícias e serviços que são atualizados diariamente nas diferentes plataformas e redes sociais.

PARA CONTINUAR, precisamos do seu apoio. Compartilhe conosco um cafezinho.


Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.