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Especiais — Especial

Viçosa tridentina

Elben M. Lenz César

As dificuldades de ser evangélico em uma das cidades mais antiprotestantes na década de 1960

Embora todos saibam que Viçosa é onde fica a sede da Editora Ultimato, quase ninguém conhece a história da difícil implantação da Igreja Evangélica na cidade, oito anos antes da fundação da revista Ultimato. Viçosa é conhecida por ser a terra natal do presidente Artur da Silva Bernardes e a sede da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Ela precisa ser conhecida como Viçosa tridentina.

 

Não temos falado muito sobre o que aconteceu no início da década de 1960. Com o pedido de perdão público do papa Francisco, achamos por bem explicar ao leitor por que chamávamos Viçosa de “Viçosa tridentina”. Essa reportagem não tem de forma alguma a intenção de tomar carona no papa e remoer o que ficou meio século atrás.

 

Concílio de Trento

O que significa a palavra “tridentina” quando adjetivo de Viçosa? Ela indica que Viçosa era uma cidade extremamente católica e intolerante com qualquer grupo cristão proveniente da Reforma Protestante do Século 16. Dizia-se, então -- lembra Dionísio Ladeira, ex-professor da UFV --, que “a Igreja de Cristo é a Igreja Católica” e pronto. Já em 1960, o sociólogo Edgard de Vasconcelos Barros, professor da mesma universidade, em seu livro “O Problema de Liderança” (p. 118), explicava a situação de Viçosa: “O serviço da religião está inteiramente a cargo da Igreja Católica, única denominação existente na área. Os poucos protestantes domiciliados na sede e na zona rural não chegam nem mesmo a ter consciência de grupo, pois jamais se reúnem para qualquer atividade ou culto”.

 

As coisas eram assim por causa do Concílio de Trento, realizado 28 anos depois do início da Reforma Protestante (outubro de 1517). Entre a sessão de abertura (13 de dezembro de 1545) e a sessão de encerramento (4 de dezembro de 1563), transcorreram-se 18 anos. Os bispos presentes eram, em sua maioria, mediterrâneos, o que vale dizer portugueses, espanhóis e italianos. Embora Trento tenha aberto caminho para uma reforma católica quanto à moralidade do clero e dos papas e para um novo ardor missionário, o que se tornou evidente com Inácio de Loyola, o concílio foi uma tremenda reação à Reforma Luterana com objetivo de fechar as brechas feitas pelo protestantismo, reconquistar as zonas sublevadas e tentar deter o avanço da “heresia” luterana, calvinista ou anglicana. Trento reavivou e fortaleceu a Inquisição, criou o “index librorum prohibitorum” (índice dos livros proibidos) e proibiu a tradução da Bíblia, tornando oficial a Vulgata Latina.

 

Por não haver igrejas protestantes estabelecidas no Brasil até a metade do século 19, quando começariam a chegar missionários não católicos, o clero brasileiro não deu muita importância ao Concílio de Trento. Frei Henrique Matos, da Diocese de Divinópolis, diz que as determinações de Trento foram aplicadas no Brasil 300 anos depois do Concílio, “dando base para uma autêntica reforma do catolicismo no país!”.

 

Um dos bispos que mais abraçaram a reforma tridentina foi exatamente Dom Antônio Ferreira Viçoso, um lazarista nascido em Portugal, nomeado bispo de Mariana em 1844. (Viçosa chama-se Viçosa em homenagem a ele.) Foi a partir de Mariana, a 116 quilômetros de Viçosa, e de Dom Viçoso que o movimento tridentino nasceu e se espalhou por outras dioceses. Os padres formados no Seminário de Mariana (fundado em dezembro de 1750) e no Colégio Pio Latino-Americano, em Roma (fundado em 1851), receberam uma rigorosa formação tridentina e por esta razão eram todos antiprotestantes e transmitiam aos seus paroquianos os mesmos preconceitos.

 

O historiador católico Daniel Lima confirma que na década de 1960 o Seminário de Mariana ainda era tridentino, mas “quando foi promulgado o Concílio Vaticano II [em 1962], ele o abraçou de imediato e suas orientações têm sido uma referência para a função sacerdotal de Mariana”.

 

Com as mãos no arado

Em 1960, quando chegamos aqui, enviados pelo Presbitério de Campos dos Goytacazes, RJ, Viçosa tinha 10 mil habitantes e integrava uma das regiões com menor renda do país. O comércio dependia dos salários quase sempre atrasados dos professores da UFV. A universidade oferecia apenas três cursos (Agronomia, Veterinária e Ciências Domésticas) e dispunha de dois prédios e uma casa. Além de não haver igrejas evangélicas, centros espíritas nem terreiros, também não havia clubes de serviço que costumam arejar a sociedade, como Rotary e Lions. O partido político dominante era o Republicano, fundado 15 anos antes por Artur Bernardes. Dizia-se que quem não fosse católico e do PR teria dificuldade de conseguir emprego, até mesmo na universidade. Nas celebrações da Semana Santa, a Igreja dava uma ênfase enorme ao aspecto tristonho da morte de Jesus em detrimento do aspecto vitorioso de sua ressurreição.

 

Não começamos o trabalho na cidade exatamente da estaca zero. Já havia um grupo de aproximadamente quinze estudantes da então Universidade Rural do Estado de Minas Gerais (UREMG) e meia dúzia de presbiterianos não nativos, liderado por um rapaz formando em agronomia, da Igreja Metodista Ortodoxa. Um pastor da denominação vinha do Rio de Janeiro a Viçosa para celebrar a Santa Ceia de vez em quando. Juntamo-nos a esse perseverante e pequeno grupo e pusemos as mãos no arado.

 

Uma Viçosa de fato tridentina

Foi muito difícil alugar um local de culto para darmos início ao trabalho. O padre intervinha para que isso não acontecesse. Uma das pessoas que nos prometeram alugar um imóvel voltou atrás ao receber uma carta da mãe: “Durante a missa o padre falou sobre o aluguel de casas para os protestantes. Logo lembrei-me de lhe pedir para não alugar o seu salão para esse fim. Este é um pedido de sua mãe. Conto certo que serei atendida. Atenda-me, sim, meu filho”. O dono da casa onde morávamos, poucos meses depois de alugada, pediu que a desocupássemos porque precisaria dela (o motivo não era exatamente este).

 

Diante deste cerco, tomamos a decisão de enfrentar a situação com o temor do Senhor, valendo-nos do recurso da oração. Adotamos como regra esta palavra do Senhor a Zorobabel: “Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito” (Zc 4.6, NVI). Renovamos a nossa confiança na promessa de que Deus faz com que “todas as coisas” concorram para o bem daqueles que o amam (Rm 8.28).

 

Foi o que aconteceu. A oposição dura e sistemática uniu o pequeno grupo de pessoas de diferentes denominações. Estávamos todos no mesmo barco e éramos açoitados pelas ondas. Logo começamos a orar uma semana por mês, às 6 horas da manhã, num lugar agradável da universidade, junto a árvores e a uma pequena represa. Até hoje, a Igreja Presbiteriana promove reuniões de oração ali.

 

No dia 10 de março de 1961, fomos de bicicleta a um dos bairros da cidade onde pretendíamos projetar um filme do Centro Audiovisual Evangélico. Previamente havíamos conseguido permissão de um comerciante para projetar na parede externa de seu bar. Havia lama por causa da chuva do dia anterior. Um bom grupo de pessoas se reuniu. De repente uma mulher alertou o povo de que éramos protestantes. Todos começaram a rasgar os folhetos distribuídos por nós, a nos vaiar e a jogar lama em nós. Nesse ínterim, alguém esvaziou os pneus de nossas bicicletas. Tivemos de interromper a reunião e ir embora empurrando as bicicletas. Na volta, passamos na casa do delegado, contamos o ocorrido e nos mostramos sujos de lama. Perto do local, temos hoje a Igreja Presbiteriana do Vale do Sol.

 

Em abril realizamos uma série de reuniões evangelísticas no antigo Cine Odeon, na praça principal, com a presença da Equipe Palavra da Vida (Ari, Haroldo e Walter Kaschell), de Atibaia, SP. Conseguimos alugar o local porque os proprietários não moravam em Viçosa. Foi um sucesso quanto à qualidade do evento, ao número de pessoas presentes e ao testemunho dado.

 

O primeiro templo protestante

A impossibilidade de alugar um espaço para os cultos nos levou a uma saída inusitada. Compramos um pequeno terreno numa das mais importantes ruas da cidade e, em três meses e uma semana, construímos um templo com capacidade para pelo menos 120 pessoas. Agimos contra o razoável, pois tínhamos em caixa apenas dez mil cruzeiros e o trabalho não tinha patrocínio de nenhuma missão ou igreja. Foi uma experiência de fé para todos nós. O fato de termos recebido três ofertas de diferentes pessoas, cada uma delas no valor de dez mil cruzeiros, nos dias 2, 3 e 4 de julho (duas delas não solicitadas), revigorou a nossa confiança em Deus e o nosso entusiasmo. Além disso, alguns estudantes abriram mão de suas férias do meio do ano e ofereceram-se para trabalhar como serventes de pedreiro oito horas por dia.

 

Mas a Viçosa tridentina nos deu muito trabalho. A prefeitura forneceu o necessário alvará, ainda que ficássemos devendo a assinatura do engenheiro. Contratamos um construtor responsável pela obra e conseguimos que um professor da universidade fizesse os cálculos de uma pequena laje. Poucos dias depois, recebemos uma carta da prefeitura, informando que o construtor havia cancelado a sua responsabilidade técnica, e outra carta do engenheiro com a informação de que, pensando melhor, como católico, ele não deveria colaborar com outra religião. (O vigário instruía a todos a não prestar serviço algum aos protestantes.) Conseguimos outro construtor (evangélico) e outro engenheiro (casado com uma evangélica), de outras cidades.

 

No dia 9 de outubro daquele mesmo ano, inauguramos o templo. No alto do púlpito estava escrito: “Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito”.

Surpresas incríveis aconteceram no final do primeiro ano da história da Igreja Presbiteriana de Viçosa. Apesar da minoria protestante na cidade e na universidade, as formandas do curso de economia doméstica elegeram como paraninfa uma professora evangélica e os formandos em agronomia elegeram como orador da turma outro evangélico.

 

Na fachada do templo, a placa dizia “Templo Evangélico”, e não “Templo Presbiteriano” – embora fosse uma igreja presbiteriana.

 

Depois do culto de vigília, na virada de 1960 para 1961, colocamos debaixo da porta de quase todas as casas de Viçosa o pequeno folheto “Quatro sugestões no alvorecer de 1961” (põe-te em ordem perante Deus, procure falar com Deus pela oração, não desprezes a leitura da Bíblia e pense mais em Jesus Cristo).

 

Os problemas com a formação tridentina do clero não acabaram em 1960. Tivemos outras sérias dificuldades em Viçosa e nas cidades vizinhas. Mas o ano de 1960 foi mesmo um ano surpreendente!

 

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