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Colunas — Reflexão

Os ateus amigos de Deus

Ed René Kivitz

 

 “Ateus de verdade” podem prestar um serviço à honra de Deus?

 

O que mais gosto nos ateus é sua capacidade de limpar a barra de Deus. Acredito, inclusive, que no quesito defesa da imagem pública de Deus a maioria deles é quase imbatível e deveria ser premiada na categoria “Deus não pode ser isso aí que vocês religiosos querem nos fazer crer”. Refiro-me, evidentemente, aos ateus de verdade, aqueles que não caem na esparrela dos argumentos contra a religião ou na desonestidade intelectual e aqueles que foram aos limites das angústias da alma com a coragem necessária para optar conscientemente pela negação do divino. Esses que chamo de ateus de verdade me passam a impressão de possuírem uma sensibilidade tão elegante de Deus que justifica sua recusa em abraçar as caricaturas divinas apresentadas pela religião dos clichês. Toda vez que rejeitam uma face distorcida ou mal-acabada do que ou como deveria ser esse Deus, fazem a sintonia fina para todos aqueles em busca da experiência da fé.

 

Um dos ateus de verdade que admiro e reverencio é Saramago, Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Alguns textos são praticamente definitivos. Nessa prateleira coloco “O Fator Deus”, publicado em setembro de 2011, em resposta aos atendados que destruíram as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e mataram mais de 3 mil pessoas.

 

Sendo ateu, Saramago evidentemente não pode culpar Deus pelas mortes, tampouco pode julgar Deus um assassino. Deus não existe, diz Saramago, para matar ou mandar matar. O que existe é o “fator Deus”, esse sim, letal. Abre aspas.

 

“E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gêmeas de Nova York, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela ação dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o "fator Deus", esse, está presente na vida como se efetivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o "fator Deus" o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra...) a bênção divina. E foi o "fator Deus" em que o deus islâmico se transformou, que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o "fator Deus", esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.”

 

Fecha aspas.

 

O parágrafo de Saramago poderia ser a legenda da charge de capa da edição especial do Charlie Hebdo um ano após o atentado terrorista que sofreu em janeiro de 2015. Caricaturando Deus como um terrorista , com olhar furioso, vestes manchadas de sangue e portando uma metralhadora, sugere em sua legenda que “o assassino continua solto”.

 

Os cartunistas e jornalistas do Charlie Hebdo que sofreram o atentado em janeiro de 2015 foram mortos por homens que acreditavam estar defendendo a honra do profeta Maomé e o deus que lhe corresponde, pois atiravam aos gritos de Allahu Akbar (Deus é grande), e também a própria civilização muçulmana. Não puderam suportar o ridículo que lhes foi imposto pelo Charlie Hebdo e resolveram apagar os crayons com as balas de AK-47.

 

Mataram em nome do “fator Deus”. O mesmo “fator Deus” que estampa a capa do Charlie Hebdo de janeiro de 2016. Esses ateus são bons demais. Debocham do Deus em quem não acreditam e cuja existência vivem a negar. E justamente ao fazê-lo oferecem o argumento que expõe ao ridículo aqueles que matam em nome do Deus em quem acreditam e a quem devotam sua existência suicida.

 

O conceito “fator Deus”, original de Saramago, é um argumento quase definitivo para desmascarar a barbaridade e a inconsistência dos atos tresloucados daqueles que pensam estar fazendo a obra de deus, qualquer que seja esse deus. O “fator Deus” inocenta Deus e sublinha a responsabilidade de quem tem a pretensão de agir em seu nome.

 

O Charlie Hebdo, com sua capa indigesta, contribui também para um debate mais profundo, que exige coragem para quem nele se aventura. No imaginário sanguinolento do Ocidente, Yahweh e Allah se equivalem. Mas Jesus é a face divina em vítima inocente. Jesus é Deus com índice de rejeição zero. Está na hora de alguém colocar o pé na lama desse debate e afirmar que, diante do “fator Deus” homicida, temos apenas duas opções: o deboche, e nesse caso “je suis charlie”, ou a contemplação da imagem de Yahweh pela lente de Jesus Cristo. Mais do que afirmar que Jesus é igual a Deus, é urgente que se afirme contundentemente que Deus é igual a Jesus.

 

Ed René Kivitz é pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo, SP. É mestre em ciências da religião e autor de, entre outros, O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia. facebook.com/edrenekivitz

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