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Seções — Arte e Cultura

Literatura e cultura

 Gladir Cabral

A busca pelo transcendente na terceira margem do rio

Nenhum texto de Guimarães Rosa é de fácil digestão, mas “A terceira margem do rio” parece sobrepujar a todos os demais em profundidade. Em contraste com a complexidade da linguagem utilizada por Rosa, o enredo do conto é simples. Ele traz a história de um homem pobre e de poucas palavras, “cumpridor, ordeiro, positivo”, casado, pai de três filhos e que em determinado momento resolve encomendar para si uma canoa, afastar-se de sua vida doméstica e viver no meio do rio, em completo isolamento. O narrador da história é seu filho mais moço, que era ainda menino quando o pai decidiu morar no meio do rio.

 

Embora muitos entendam que a loucura foi a causa de tal decisão ou alguma doença, foi o desejo de transcendência que fez o pai abandonar as coisas do cotidiano e mover-se em direção ao coração do rio. A referência à “terceira margem” aparece apenas no título, não no conto. O pai não deseja simplesmente atravessar o rio em direção à outra margem, a segunda. Se assim o fizesse, continuaria na dimensão do mundo concreto, lógico, prosaico. Ele deseja a terceira margem, a inatingível, a que vai além do racional, do conhecido. Ao mesmo tempo, ele permanece próximo à sua casa.

 

Na tradição literária ocidental, o rio usualmente simboliza o transitório, o fluxo da temporalidade, a existência, até mesmo a morte. Na “Divina Comédia”, Dante faz surgir o barco de Caronte, da mitologia grega, o mesmo que aparece no “Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente, e que conduz os mortos ao outro mundo. Curiosamente, no conto “A terceira margem” essa metáfora é invertida na medida em que o velho pai não se deixa levar pela correnteza do rio e passar para o mundo dos mortos, mas habilidosamente se mantém no meio das águas, nem numa margem nem noutra, nem rio acima nem rio abaixo. Ele “[s]ó executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio”.

 

Por outro lado, toda a família que morava à beira do rio vai se desfazendo, os filhos casam, mudam-se, a esposa vai morar em outro lugar. O filho mais moço fica para cuidar do pai, provendo comida, roupa, a partir da margem. O barco que o pai utiliza para ir ao rio é feito de um madeiro só, comprido, mas na justa medida de um homem. É nesse madeiro que o velho aposta sua vida.

 

O velho pai é caracterizado desde o início pelo silêncio, assim como o rio, que “se estendendo grande, fundo, calado que sempre”. O pai segue em direção ao rio à procura desse silêncio em meio às águas às vezes calmas às vezes turbulentas. Ele decide habitar o inefável, e essa experiência o isola. O velho pai mergulha no silêncio de si mesmo, envolto em neblina, em um mistério que o filho tenta compreender ao longo da história inteira, mas que confessa inalcançável. Assim como os antigos eremitas buscavam o transcendente nos desertos do Egito ou nas encostas do monte Atos, ele busca o silêncio do rio e sua insólita terceira margem.

 

ROSA, João Guimarães. A terceira margem do rio. In: ______. Ficção completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 409-413. v. 2.

 

• Gladir Cabral é pastor, músico e professor de letras na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc). Acompanhe o seu blog pessoal.

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