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Especiais — Entrevista

Pesquisador católico reconhece que a reforma é uma permanente necessidade da igreja

Elias Wolff

 

O que hoje é mais urgente e sério na Igreja Cristã (católicos, ortodoxos, evangélicos, pentecostais e neopentecostais): um avivamento ou reforma? A igreja visível necessita apenas de mais calor, mais piedade, mais santidade e mais consciência missionária? Certamente ela precisa disso tudo e muito mais. A reforma é mais abrangente, mais profunda e perdura por mais tempo. O problema é a resistência histórica de alguns setores da igreja à reforma, tanto da parte de católicos como de protestantes. No caso da Igreja Católica, “as iniciativas de reforma propostas pelo papa Francisco recebem três tipos de oposições: a oposição institucional -- de quem quer manter o “status quo” eclesiástico, sobretudo membros da Cúria; a oposição teológica -- de quem se opõe ao Vaticano II; e a oposição política -- de quem defende um catolicismo conservador”. Quem vai declarar isso na presente entrevista é Elias Wolff, professor da Faculdade Católica e do Instituto Teológico de Santa Catarina e coordenador da Comissão Teológica do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC). Ele acaba de participar de um congresso sobre ecumenismo em Milão, Itália.

 

 

Como o senhor define uma reforma religiosa no âmbito da cristandade?

 

 

Por “reforma religiosa” compreendo um processo de busca de permanente fidelidade ao projeto original da tradição religiosa à qual pertencemos. Ao longo da sua história, o cristianismo viveu várias tentativas de reformas, com diferentes motivações, metodologias e objetivos. Algumas fracassaram em seu intento de mudanças na igreja, outras obtiveram êxitos parciais. Duas dessas reformas se destacam: de Lutero, no século 16, e do Vaticano II, no século 20. Ambas se expressaram como um “retorno às fontes”, sobretudo bíblica e patrística, uma mais acentuada no mundo evangélico e a outra, no mundo católico. Esse “retorno às fontes” não é para reviver anacronicamente elementos do passado, mas para trazer para o tempo atual o tesouro da fé cristã, numa tentativa de atualização da fé da Igreja. Como afirmou o Concílio Vaticano II, a reforma é uma “permanente necessidade da Igreja” (“Unitatis Redintegratio”, n. 6), sem a qual ela corre o risco de enclausurar-se em doutrinas e estruturas que a engessam, em elementos externos que a fazem perder a essência do ser cristão: o testemunho do evangelho de Jesus Cristo.

 

 

Embora tenha provocado uma divisão no cristianismo, a Reforma Protestante do século 16 foi um desastre na história da igreja ou uma grande bênção para ela?

 

 

 

 

 

Nem desastre, nem apenas bênção. Pelos fatores de divisão que porventura possa significar, nem tudo na Reforma do século 16 pode ser considerado uma bênção; pelos valores que ela apresenta, não pode ser considerada como um desastre na história da Igreja. O fato é que há fatores humanos na Reforma do século 16, e, em tudo o que há de humano, a graça e o pecado se manifestam concomitantemente. O fundamental hoje é não culpar um ou outro lado que participou dos eventos originários da Reforma. O importante é identificar os elementos da Reforma do século 16 que podem ser úteis para todos os cristãos de hoje. Na medida em que esses elementos contribuem para a comunhão na fé de todos os cristãos, eles são hoje uma bênção.

 

 

Bem antes da Reforma do século 16, já havia na Europa movimentos populares, como os cátaros, valdenses, albigenses, franciscanos etc., em favor de uma reforma na igreja. Estaria acontecendo o mesmo hoje?

 

 

 

Certamente não o mesmo, pois os tempos e os contextos sociorreligiosos são outros, e a história nunca se repete. Entre grupos há uma grande diferença, e maior é a diferença entre eles e as propostas de reforma nas Igrejas do século 20. O que há de comum é a intuição por reforma na Igreja, mas não suas motivações, métodos e objetivos. Para o papa Francisco, a reforma na Igreja significa abrir o centro para a periferia, incluir nela a realidade e a voz dos pobres, a atuação dos leigos -- sobretudo jovens e mulheres --, a desclericalização e a dessacralização da autoridade.  

 

 

Em seu texto “As possibilidades de reformas na Igreja no contexto do pontificado do papa Francisco”, publicado na revista Horizonte, da PUC de Belo Horizonte, o senhor diz que as propostas de mudança no Concílio de Trento (1545 - 1563), que deu origem à Reforma Católica, “não passaram do âmbito moral e da restauração disciplinar, com um ensinamento doutrinal de continuidade em relação ao passado”. Se tivesse sido mais abrangente, a Igreja de Cristo teria lucrado mais naquele século e nos séculos até a realização do Vaticano II, quatrocentos anos depois?

 

 

O Concílio de Trento se propôs, inicialmente, realizar um processo de reforma na Igreja que implicaria em mudanças mais profundas na doutrina e na organização estrutural. A eclesiologia teria uma perspectiva mais espiritual, mistérica, bíblica e patrística; a prática sacramental seria menos ritualista; a organização eclesial seria mais teológica e menos jurídica. Isso ajudaria a mostrar que Lutero não tinha razão ao criticar a Igreja de supervalorizar a dimensão institucional, jurídica, ritualista. Se tal tivesse acontecido, então católicos e luteranos poderiam ter vivido uma história comum, em muitos aspectos, ao longo desses quatrocentos anos. Mas, na ânsia por refutar Lutero, Trento acabou mantendo a prática de sempre: salvar a instituição. E a reforma foi mais moral e disciplinar do que teológica. Contudo, Trento teve proximidade com Lutero em alguns ensinamentos, como a valorização da pregação, da formação religiosa e a doutrina da graça na perspectiva de Agostinho. Tais fatores podem ser agora aprofundados conjuntamente. E no ensino do Vaticano II temos outros elementos doutrinais que favorecem hoje o diálogo com as Igrejas oriundas das Reformas do século 16 e 18, como a Bíblia enquanto primeira fonte da fé, a concepção da Igreja Povo de Deus, o sacerdócio comum dos fiéis, entre outros.

 

 

Como a Igreja Católica Romana compreende hoje o conceito de justificação pela fé de Lutero?

 

 

 

Católicos e luteranos têm hoje a mesma compreensão da justificação por graça e fé, unicamente. É o que expressa a Declaração Comum da Justificação por Graça e Fé, assinada em 1999, sobretudo no n. 15. A doutrina da justificação é afirmada conjuntamente na negação de que a salvação depende das obras ou méritos humanos, pois as obras é que são dependentes do dom gratuito da salvação. Há desdobramentos específicos disso em cada Igreja, mas que não prejudicam essa fé comum.

 

 

De acordo com Vitor Galdino Feller, doutor e pós-doutor em teologia sistemática e diretor da Faculdade Católica de Santa Catarina e do Instituto Teológico de Santa Catarina, publicado na mesma revista, o atual papa “Não perde a oportunidade para criticar atitudes humanas que dispensam a graça divina”. Isso tem alguma coisa a ver com o “sola gratia” da reforma luterana?

 

 

Na verdade, a postura do papa Francisco não é uma afirmação do princípio “sola gratia” de Lutero. É, antes, uma coerência com a própria doutrina católica. Muito antes de Lutero, a Igreja Católica condenou heresias que confundiam a graça e a natureza humana e tendiam a afirmar a possibilidade da salvação pelo esforço humano. O caso mais conhecido é o de Pelágio, no século 5º. Se por vezes na prática pastoral houve excessos, sobretudo na religiosidade popular que valoriza as obras de piedade e o ritualismo sacramental, dando a impressão de colocar a graça num segundo plano no caminho da salvação, isso nunca foi doutrina da Igreja. Tratava-se, antes, de desvios pastorais. E foi isso, sobretudo, que Lutero percebeu e combateu. Quando o papa Francisco afirma a prioridade da graça na salvação humana, está afirmando a doutrina de sempre da Igreja Católica.

 

 

Para que aconteça uma reforma não superficial, mas profunda no catolicismo seria necessário diminuir a relevância da tradição e do dogma e aumentar a relevância das Escrituras Sagradas?

 

 

Sagradas Escrituras e tradição não se contrapõem. O Vaticano II ensina que ambas caracterizam-se como fonte da fé cristã. E afirma-se hoje no diálogo entre católicos e muitas igrejas evangélicas o consenso da primazia das Escrituras sobre a tradição, sendo esta um elemento de caráter explicativo das Escrituras. A reforma na Igreja acontece pelo “retorno às fontes” -- Escrituras e tradição -- o que faz com que a Igreja de hoje seja fiel à Igreja primitiva.

 

 

Há setores da Igreja Católica opondo-se hoje a uma possível reforma em seu seio?

 

 

 

 Há diferentes formas de compreender a Igreja, sua identidade e sua missão. Também as necessidades da Igreja são percebidas diversamente pelos seus membros. E o conceito “reforma” não tem a mesma compreensão em todos os ambientes eclesiásticos. As iniciativas de reforma propostas pelo papa Francisco na Igreja Católica recebem três tipos de oposições: a) “institucional” -- de quem quer manter o “status quo” eclesiástico, sobretudo membros da Cúria; b) “teológica” -- de quem se opõe ao Vaticano II; c) “política”, de quem defende um catolicismo conservador.  

 

 

O papa tem insistido que Roma precisa de “uma renovação eclesial inadiável”. Se essa necessidade for plenamente suprida, Francisco poderá ocupar um lugar na galeria dos reformadores eclesiásticos?

 

 

Certamente. Com as peculiaridades próprias da reforma que ele faz, no tempo, contexto e tradição.

 

 

A renovação carismática católica pretende uma reforma na igreja? Como?

 

 

 

A renovação carismática é um movimento de caráter mais espiritual do que teológico-pastoral. Acaba, certamente, influenciando na teologia e na pastoral devido à sua grande penetração nas comunidades católicas. Mas a sua influência é na linha conservadora de estruturas eclesiais e de concepções teológico-espirituais-pastorais que se distanciam de uma busca por reformas que atualizem a Igreja aos tempos de hoje.

 

 

No pensamento católico, fala-se em “Igreja reformada, sempre se reformando” (Ecclesia reformata semper reformanda est)?

 

 

Claro. A Igreja como realidade histórica, situada às condições de tempo e espaço, sempre tem a necessidade de reforma. O n. 8 da “Lumen Gentium” fala que a Igreja é “sempre necessitada de purificação, sem descanso dedica-se à penitência e à renovação”. Sem isso ela não é fiel ao seu fundador, Cristo. Ele mesmo de “condição divina, esvaziou-se a si mesmo e assumiu a condição de servo” (Fl 2,.6-7). Igualmente, o n. 6 de “Unitatis Redintegratio” fala da “renovação da Igreja”, admite “deficiências, quer nos costumes, quer na disciplina eclesiástica, quer também no modo de enunciar a doutrina [...] tudo seja reta e devidamente reformado no momento oportuno”. Nesta direção vai a encíclica “Evangelii Gaudium” do papa Francisco, dentro de um amplo projeto de reforma na Igreja. Trata-se de uma reformulação do conteúdo da fé da Igreja e um redimensionamento estrutural dentro de um processo de “conversão pastoral”, condição para a Igreja tornar plausível a aceitação da sua mensagem ao mundo de hoje.

 

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