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Literatura e cultura

Gladir Cabral

 

A cegueira iluminada de Quintana

 

 

O sol se põe na linha do horizonte. A escuridão pouco a pouco invade a terra. No risco distante do poente vê-se apenas um clarão. Olhando para trás, o escuro da noite parece encobrir a cidade, menos os prédios mais altos, ainda tocados pela claridade do sol. Tenho para mim que nossos poetas, nossos grandes escritores são como prédios iluminados ao cair da tarde. Num mundo rodeado por sombras cada vez maiores, eles refletem certos raios da luz do sol. Assim é que vejo a poesia de Mário Quintana.

 

O poeta tem os olhos abertos para a beleza, e nada escapa ao seu foco preciso. No seu livro “Baú de Espantos”, ele vai mostrando a cada poema a extraordinária beleza das coisas corriqueiras, a sacralidade e o mistério das coisas banais e cotidianas. Nas entrelinhas de seus versos é possível perceber sinais da presença do divino, não uma presença pesada ou indiscutível como um livro de doutrina, mas movente como as águas de um rio.

 

Na poética quintaneira, a palavra “espanto” expressa a capacidade humana de maravilhar-se diante da vida e do mundo. O poeta é alguém que não cansa de surpreender-se. E sua grande tarefa consiste em nos ensinar a lição do maravilhar-se perante as pessoas, perante as palavras e perante as coisas. Esse maravilhar-se inclui um tanto de estranhamento em relação ao mundo moderno e seus aparatos tecnológicos e produtos de massa, como música pop ou novelas de TV. Inclui também um tanto de contemplação e percepção da singularidade das pessoas e do mundo natural, como a leveza das nuvens, a força dos ventos, a sinuosidade dos rios ou o “frescor agradecido de capim molhado como alguém que chorou e depois sentiu uma grande, uma quase envergonhada alegria por ter a vida continuado”.

 

Alguns poemas de Quintana mostram como é tênue e tenso o limite entre o tempo e a eternidade, a morte e a vida. No poema “O Olhar”, Quintana mostra quanto “o olhar do poeta é como o olhar de um condenado... como o olhar de Deus...”. É que “o último olhar do condenado é nítido como uma fotografia: vê até a pequenina formiga que sobe acaso pelo rude braço do verdugo, vê o frêmito da última folha no alto daquela árvore, além...”. O olhar da finitude nos permite ver as coisas como são, em sua temporalidade, em sua fugacidade. A consciência da mortalidade nos faz abrir os olhos para a realidade do mundo em seu mais duro e claro contorno.

 

É também muito nítido o olhar que Deus tem das coisas criadas, ele que as vê a partir da sua eternidade e pleno conhecimento. Mas esse saber divino tem a delicadeza de um olhar e ao mesmo tempo de um postergar sempre o fim. É assim que, de maneira irreverente, o poeta vai mostrando o quanto a eternidade de Deus está ligada à sua capacidade para “deixar tudo para depois”, adiar o fim das coisas. E ele completa: “Só é verdadeiramente vida a que tem um inquieto depois!”.

 

QUINTANA, Mário. Baú de espantos. 2. ed. São Paulo: Globo, 2006.

QUINTANA, Mário. O olhar. Disponível em: umdiadepoesia.com.br/o-olhar/. Acessado em 30 de novembro de 2015.

 

Gladir Cabral é pastor, músico e professor de letras na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc). Acompanhe o seu

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