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Poesia

Edson Munck Jr.

 

A eterna escritura

 

 

 

A relação entre fé cristã e palavra é de mútua dependência. O “Verbo” que se torna carne e faz morada entre os homens atesta que o significado de vivê-lo perpassa as estruturas de nossa linguagem. Em termos estéticos e culturais, uma das marcas da modernidade é a fratura existente entre a palavra e a experiência. O sujeito moderno tornou-se desconfiado do potencial da palavra dizer a verdade, dado que este conceito pluralizou-se. Um poeta brasileiro contemporâneo resumiu bem essa crise: “Toda palavra já foi dita. Isso é / sabido. E há que ser dita outra vez. / E outra. E cada vez é outra. E a mesma.”[1]

 

Esse sintoma atingiu fortemente os poetas durante a primeira metade do século 20. T. S. Eliot, em “A Função Social da Poesia”, sugere que a diminuição da sensibilidade religiosa da sociedade europeia resultava da “incapacidade de sentir Deus e o homem como [os antepassados] o fizeram”.[2] O autor alertava que o eclipse do sentimento religioso era um risco, pois “as palavras com as quais os homens lutaram para expressá-lo perdem o sentido”.

 

Ressoando essa reflexão no contexto brasileiro, Murilo Mendes escreveu, em 1936, “O Eterno nas Letras Brasileiras”. No texto, apresenta-se o cenário modernista nacional como resistente à expressão dos valores cristãos nas produções literárias e se contesta a noção de que abrir mão dos valores eternos seria o caminho mais adequado de se promover e executar a poesia moderna. A argumentação muriliana quer validar a “necessidade das coisas permanentes”.[3] Segundo o autor, o espírito religioso encontrava-se caricaturado, prefigurando um “Jesus incolor, individualista, burguês”.

 

 

Com esses procedimentos, as produções literárias cometeram, aos olhos do poeta, “pecados litúrgicos, pecados teológicos e pecados poéticos”.[4]

 

“Eu sou da raça do Eterno. / Fui criado no princípio / E desdobrado em muitas gerações / Através do espaço e do tempo.”

“O Ser dos seres envia seu Filho para mim, para os outros que o pedem e para os que o esquecem.”

 

“Um vento impetuoso que ninguém sabe de onde vem / Penetra na sala rústica onde estão os apóstolos, / Sopra sobre todos, entra neles de alto abaixo; / (...) / Atravessa os tempos, continua soprando circular, / Move minha alma que move meu corpo que move minha pena”.[5]

 

Os versos transcritos são de “Tempo e Eternidade” (1935). Nessa obra muriliana, os poemas marcam o encontro da linguagem modernista com a tradição cristã, exercitam a presença do eterno na literatura brasileira, tornam fé em arte e restabelecem o vínculo do “Verbo” com a humanidade. Talvez, o gesto mais moderno seja o de sabermos que somos da “raça do Eterno”: daí começa sempre muita poesia.

 

• Edson Munck Jr., 28 anos, Juiz de Fora, MG, professor e jornalista, é mestrando em estudos literários.



[1] BRITTO, Paulo Henriques. Tarde.

[2] ELIOT, T. S. A função social da poesia.

[3] MENDES, Murilo. O eterno nas letras brasileiras, p. 47.

[4] Ibid., p. 45.

[5] MENDES, Murilo. Tempo e eternidade.

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