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Colunas — --

Onde estão eles?

Onde estão aqueles santos homens de Deus que, por suas palavras e suas vidas, apontam para Cristo?

 

Essas coisas começaram a perambular pelo meu coração quando me deparei com a exortação de Eugene Peterson, em seu imprescindível texto “À Sombra da Planta Imprevisível”. Ele diz que “os pastores estão abandonando seus postos, desviando-se para a direita e para a esquerda, com frequência alarmante. Isso não significa que estejam deixando a Igreja e sendo contratados por alguma empresa. As congregações ainda pagam seus salários, os nomes deles ainda constam do boletim dominical e continuam a subir ao púlpito domingo após domingo. O que estão abandonando é o posto, o chamado. Prostituíram-se após outros deuses. Aquilo que fazem e alegam ser ministério pastoral não tem a menor relação com as atitudes dos pastores que fizeram história nos últimos vinte séculos”.

 

Peterson vai mais longe, pois compara pastores com gerentes de vendas e as igrejas com lojas de departamentos: “Os pastores se transformaram em um grupo de gerentes de lojas, sendo que os estabelecimentos comerciais que dirigem são as igrejas. As preocupações são as mesmas dos gerentes: como manter os clientes felizes, como atraí-los para que não corram para a loja concorrente, como embalar os produtos de forma que os consumidores gastem mais dinheiro com eles. Alguns pastores são ótimos gerentes, atraindo muitos consumidores, levantando grandes somas em dinheiro e desenvolvendo uma excelente reputação. Ainda assim, o que fazem é gerenciar uma loja. Religiosa, mas, de toda forma, uma loja. Esses empreendedores têm sua mente ocupada por estratégias semelhantes às de franquias de fast-food e, quando dormem, sonham com o sucesso que atrai a atenção da mídia”.

 

A advertência de Peterson aponta para o fato de que “a verdade bíblica é que não existem igrejas cheias de sucesso. Pelo contrário, o que há são comunidades de pecadores, reunidos semana após semana perante Deus em cidades e vilarejos por todo o mundo. O Espírito Santo os reúne e trabalha neles. Nessas comunidades de pecadores, um é chamado pastor e se torna responsável por manter todos atentos a Deus. É essa responsabilidade que tem sido completamente abandonada”. O atual cenário do evangelicalismo brasileiro sugere outras dimensões do abandono do “posto pastoral”. Além de gerentes de lojas, muitos pastores mais se parecem com ativistas políticos, filósofos, livres pensadores, cientistas sociais, narcisistas empenhados na construção de impérios eclesiásticos, gurus espiritualistas, feiticeiros do gospel, artistas religiosos, gente de todo tipo em busca desesperada dos quinze minutos de fama a que julgam ter direito, conforme profetizado por Andy Warhol.

 

A visão de Keith Anderson e Randy Reese, em sua obra “Spiritual Mentoring: A Guide for Seeking and Giving Direction” (Mentoria espiritual: um guia para buscar e dar direção), sugere que os pastores são discipuladores que ajudam a conhecer e a seguir a Jesus; guias espirituais que orientam a prática das disciplinas espirituais devocionais; conselheiros que oferecem sabedoria e discernimento; mestres que compartilham seus conhecimentos das Escrituras; e também modelos que clarificam o caráter de Cristo.

 

O retorno ao sagrado encargo do ofício pastoral passa necessariamente pelo resgate da mentoria espiritual. James Houston, hoje com 92 anos de idade, fundador do Regent College no Canadá, diz que “os mentores provavelmente surgiram com a própria raça humana. Xamãs e feiticeiros, profetas e filósofos, líderes e mestres estão presentes desde o início da história. Moisés e Josué, Confúcio e Mêncio, Sócrates e Platão, Hilel e os fariseus, todos transmitiram suas visões de vida de mestre para aluno, de mentor para discípulo. E assim os pensamentos de grandes homens foram sendo passados de geração em geração”.

 

Em sua obra, igualmente imperdível, “Mentoria Espiritual”, sublinha que a grande distinção dos mentores espirituais é que “sua eficácia como mestres reside também no fato de que eles se colocam como modelos, pregando uma forma de vida que pode ser imitada tanto em pensamento quanto em ações”. Pastorear é ensinar a viver como Cristo. Responsabilidade infinitamente mais complexa do que macaquear no palco de um templo e, talvez por isso, muito menos desejada e ambicionada pelos líderes religiosos contemporâneos.

 

Thomas Merton, monge trapista, disse que “o propósito da mentoria espiritual é penetrar abaixo da superfície da vida de um homem, para chegar atrás da fachada dos seus gestos convencionais e atitudes que ele apresenta ao mundo, e trazer à tona sua liberdade espiritual interior, sua verdade íntima, que é o que chamamos de semelhança com Cristo em sua alma”.

 

Todas essas imagens e definições da atividade e das funções pastorais, de maneira especial a de mentor espiritual, apontam na direção da santidade. Fazem lembrar a impressão que o profeta Eliseu causava nas pessoas, por exemplo naquela mulher de Suném: “Tenho observado que este que sempre passa por nós é um santo homem de Deus”. Raramente encontro um homem assim. E ao mirar o espelho, geralmente coro de vergonha.

 

• Ed René Kivitz é pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo, SP. É mestre em ciências da religião e autor de, entre outros, O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia. facebook.com/edrenekivitz

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