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Colunas — Contraponto

Intolerância ou intolerantes?

Ariovaldo Ramos

 

Certo dia, alguém me procurou para perguntar sobre intolerância religiosa no Brasil, principalmente, por parte de evangélicos. Citaram um grupo de crianças que atiraram uma pedra contra uma menina que vestia branco e dava sinal de que saíra de reunião de religião de matriz africana. Recusei-me a tratar do tema, uma vez que um incidente entre crianças, por mais grave que o seja, em si, não tipifica um estado de perseguição ou a revelação de um estado de intolerância.

 

Fui, então, lembrado de que outros evangélicos entenderam que esse era um tema relevante, que até mesmo provocou um debate acalorado entre um pastor evangélico e um jornalista, que ainda não acabou, porque o jornalista treplicou ao pastor usando palavras de baixo calão, que parecem ter concedido ao pastor o direito de resposta. Ratifiquei minha posição dizendo que esse tipo de equívoco apenas alimenta a mídia que espera ganhar com a caricatura dos evangélicos.

 

O que é lastimável é a aparente campanha, por parte de elementos da mídia, de tentar classificar os evangélicos como um povo belicoso e intolerante. Mais lamentável ainda é perceber um grupo de evangélicos que, consciente ou não, alimenta essa movimentação dando a impressão de que estão a dar o troco.

 

Para começo de conversa, não somos essas pessoas. Pelo contrário, no começo de nossa chegada fomos vítimas de perseguição, sequer podíamos casar ou ser enterrados, por não pertencermos à religião oficial, sem contar os inúmeros crentes que foram perseguidos e os locais de reunião que foram destruídos. Portanto, de ser perseguidos, entendemos.

 

Assusta a fragilidade do movimento evangélico moderno, ou seja, como somos arrastados por discussões fabricadas, como de modo rápido somos atraídos por cristãos histriônicos, cuja dependência do palco os faz reagir de forma atrapalhada, que mais alimenta do que apaga a fogueira. Assusta também o número de membros do movimento evangélico que, rapidamente, colocam a carapuça admitindo que devemos estar incorrendo em erro, porque os maus líderes acabaram com a Igreja.

 

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra! Não há intolerância religiosa. Há aqui e ali desentendimentos e incidentes, o que é mais do que natural num contingente enorme de pessoas, como é o movimento evangélico. Em cada família brasileira há pelo menos um evangélico, assim como membros de outras confissões religiosas. Embora tenhamos, em maior e menor grau, pregadores e líderes inflamados, os evangélicos sempre serão instados ao amor ao próximo.

 

O que causa espanto é ver profissionais de comunicação tratando líderes evangélicos com demonstrada indelicadeza, para dizer o mínimo. Esse fenômeno desperta a questão sobre o motivo de tal má vontade: estamos diante de profissionais mal qualificados, ou de uma gritante ausência de ética, ou há na abordagem de evangélicos tão grande má postura, que cause no interlocutor a sensação de estar diante de alguém que não merece a mínima consideração, por se tratar de uma farsa escancarada?

 

Quem é idôneo para tal resposta? Uma coisa é certa: temos de ser mais coerentes com a nossa fé diante da provocação ostensiva ou aparente. Somos admoestados ao perdão e à compreensão. Nosso Senhor, diante de seus algozes, pediu o perdão do Pai sustentando que eles não sabiam o que estavam fazendo. Temos de ser menos reativos. De fato, temos de buscar mais protagonismo, por meio da feitura do bem para, a exemplo da igreja em Jerusalém, cairmos na graça do povo por dar testemunho de amor, tolerância e serviço.

 

Precisamos, também, ser mais criteriosos ao elegermos líderes, uma vez que não travamos batalhas morais, mas nos esforçamos em busca do bem da humanidade. Queremos a salvação da humanidade, não estamos à caça de pecadores para denunciar, ao invés disso oferecemos o perdão e o amor do Pai aos seres humanos. Não estamos lutando para conquistar o Estado, buscamos ser a consciência do Estado para fomentar a justiça. Esse será sempre o desafio, lembrando que justiça, para nós, não é o mero cumprimento da lei que, a rigor, pode ser apenas a expressão do estado de injustiça. Justiça é, na fé cristã, um estado de vida em que todos, de modo igual, desfrutam de tudo o que Deus é e de tudo o que Deus doa. É, portanto, na história, a busca por conversão e por equidade.

 

• Ariovaldo Ramos é escritor, conferencista e presbítero na Comunidade Cristã Reformada, em São Paulo, SP. Foi, por quatro anos, membro do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e é presidente da Visão Mundial no Brasil. É autor de Pare de Conjugar o Verbo Sofrer.

 

 

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