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Colunas — História

A fraqueza do cristianismo

Alderi Souza de Matos

Toda época tem seus grandes ícones, seus heróis. Na atualidade, alguns personagens são tidos como especialmente influentes no âmbito do pensamento, da cultura e da sociedade. São eles o ideólogo Karl Marx, o cientista Charles Darwin e o psicanalista Sigmund Freud. Outra figura exponencial é o filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900). Esse pensador marcou o final do chamado “século de ouro da filosofia alemã”, iniciado por Immanuel Kant. Apesar de ser filho e neto de pastores luteranos, Nietzsche se tornou um implacável adversário da fé cristã. Influenciado por seu antecessor Arthur Schopenhauer, compartilhou o seu materialismo ateu, mas rejeitou sua postura pessimista diante da vida. Apesar da falta de sentido no mundo, achava que ainda assim era possível viver plenamente e realizar-se. É tal proposta que o torna tão atraente para muitos nos dias atuais.

Nietzsche se rebelou contra duas tradições que estão na base da formação cultural do Ocidente: a grega e a judaico-cristã. Especialmente, voltou-se contra a moral e os valores derivados dessas tradições, nas quais -- dizia ele -- a maioria das pessoas já não acredita (“Deus está morto”). Classificou os indivíduos em duas categorias: os líderes naturais, que são corajosos, ousados, confiantes e inovadores, e a massa medíocre, possuidora de uma mentalidade de escravos, que abraça valores como humildade, serviço altruísta, abnegação e autossacrifício. Para Nietzsche, os seres humanos deveriam substituir esses valores supostamente transcendentes por outros criados por eles mesmos -- os valores que fizeram a humanidade sair da barbárie e criar a civilização.

O filósofo alemão chamava esse ímpeto de vida e realização dos líderes naturais uma “vontade de poder”, o que incluía atuação política, conquistas e atividades culturais. Um ser humano que desenvolve ao máximo o seu potencial torna-se um “super-homem”, a exemplo de Sócrates, Lutero, Napoleão e Goethe -- indivíduos que concretizaram seu projeto de vida com grande força e bravura pessoal. Assim, os valores centrais que se deve abraçar são os de afirmação da vida, dizer sim à existência, viver intensamente. Confrontado com as realidades incontornáveis da morte e do esquecimento, ele se consolou com a ideia do “eterno retorno”: toda a realidade, longe de cair na aniquilação, fica retornando eternamente em vastos ciclos cósmicos.

O historiador da filosofia Bryan Magee observa que o aspecto mais sedutor do pensamento nietzscheano é o seu “heroísmo estoico”, a capacidade de encarar a vida como ela é. Ironicamente, os últimos anos desse personagem foram uma completa negação do ideal que ele tanto defendeu. Afligido pela doença mental, quase certamente causada por sífilis terciária, permaneceu seriamente enfermo até morrer em 1900, sem ter tomado conhecimento de sua crescente reputação como pensador. Suas ideias, frequentemente expressas em perspicazes aforismos e metáforas, estão contidas em obras como “O Nascimento da Tragédia” (1872), “Humano, Demasiado Humano” (1878), “A Gaia Ciência” (1882), “Assim Falou Zaratustra” (1883-1885), “Além do Bem e do Mal” (1886), “A Genealogia da Moral” (1887) e “O Crepúsculo dos Ídolos” (1888). Por mais de um século, seu impacto tem sido inquestionável.

Como um cristão irá se posicionar em relação a esse pensador revolucionário? Será mesmo a sua filosofia tão devastadora para a fé cristã? É de fato o cristianismo uma religião para fracos, promotora de uma mentalidade de escravos, em contraste com os poderosos do mundo, os espíritos livres, os super-humanos? Em primeiro lugar, há que reconhecer a validade do apelo de Nietzsche a uma vida autêntica, sem hipocrisias. Isso vale tanto para os ateus quanto para os cristãos. Assim como ele condenava os indivíduos sem fé que mesmo assim abraçavam a moral cristã, é lícito questionar a conduta dos que se dizem cristãos, porém se comportam de acordo com os valores da sociedade materialista. O pensador alemão ensina a importância de se viver com autenticidade, de maneira plena e radical, e isso se aplica perfeitamente aos seguidores de Cristo.

Todavia, Nietzsche se equivoca ao atribuir os verdadeiros avanços e conquistas da civilização exclusivamente aos fortes, aos voluntariosos e aos agressivos. Existe um elemento perturbador na ideia de que a humanidade só progride mediante a eliminação dos fracos pelos fortes, dos incompetentes pelos competentes, dos tolos pelos astutos. Não foi sem razão que os nazistas se tornaram grandes simpatizantes do seu famoso conterrâneo. Hitler em muitos aspectos se encaixou no perfil do super-homem nietzscheano. A verdade é que os generosos, os magnânimos e os altruístas também têm dado contribuições extraordinárias ao mundo. O próprio Nietzsche, nos seus anos finais de enfermidade, recebeu os cuidados extremosos da mãe e da irmã.

Em sua expressão mais elevada, o cristianismo tem, sim, um elemento de fraqueza, porém, uma fraqueza consciente e deliberada, uma debilidade que não é ingênua nem escapista, mas se traduz em intenso dinamismo espiritual, moral e social, como se vê em Jesus Cristo, no apóstolo Paulo e em tantos outros vultos ao longo da história. “O poder se aperfeiçoa na fraqueza [...] quando sou fraco, então é que sou forte” (2Co 12.9s). O século 20 e o início do 21, os quais Nietzsche não presenciou, têm demonstrado o caráter construtivo, mas muitas vezes devastador, da assertividade, da vontade de poder dos grandes homens. Os cristãos, porém, continuarão a crer na força do amor, da não violência, do serviço generoso, em nome do Rei dos reis e do Senhor dos senhores.

Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e professor no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. É autor de “Erasmo Braga, o Protestantismo e a Sociedade Brasileira”, “A Caminhada Cristã na História e Fundamentos da Teologia Histórica”. Artigos de sua autoria estão disponíveis neste link

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