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Colunas — Casamento e família

Os meus, os teus e os nossos...

Carlos “Catito” e Dagmar Grzybowski

Dentre os vários fenômenos que a modernidade nos trouxe, os que mais afetam a família são as novas configurações familiares. Com a facilitação dos processos de divórcio e as consequentes novas uniões, temos visto uma sociedade representada por inúmeras famílias reconstituídas. Muitas dessas famílias são compostas por filhos do casamento anterior -- ou, até mesmo, de vários casamentos anteriores -- de um ou de ambos os cônjuges, que agora se veem convivendo debaixo do mesmo teto com os novos cônjuges de seus pais/mães e até com os filhos desta outra pessoa que se uniu a seu progenitor/sua progenitora.
Visando a convivência nessas novas configurações, são necessários muitos acordos e ajustes para o bom funcionamento familiar. A educação dos filhos pequenos e, ou, adolescentes é um dado importante para reflexão.

Em uma família chamada “intacta” (que não passou por divórcio algum), o processo de educação dos filhos passa necessariamente por acordos entre os pais, especialmente no que diz respeito aos valores que julgam importantes a serem passados para as crianças. É preciso conciliar os valores que cada um dos pais recebeu de suas famílias de origem, atualizando-os ao contexto no qual vivem hoje e buscando criatividade para desenvolver modelos novos quando os modelos recebidos se tornam inadequados ou são divergentes entre o casal.

Em famílias provenientes de situações de divórcio, a questão se torna ainda mais complexa, pois muitas vezes são três ou até quatro pessoas adultas com valores diferentes que acreditam que a forma de educar deles é a melhor para as crianças -- sejam estas filhos consanguíneos ou não. Isso pode gerar muita confusão na mente delas, além de abrir brechas para que se façam alianças e os filhos iniciem jogos colocando um adulto contra o outro, com o intuito de levarem vantagens.

Para ultrapassar esses obstáculos, é preciso, primeiramente, o entendimento de que paternidade e maternidade não se definem por vínculos biológicos. A dimensão educacional -- que envolve o ensino de valores, o colocar limites e, enfim, a instrução para a vida em sociedade -- é de fato a mais difícil. E tais tarefas não dependem necessariamente da dimensão biológica.

Logo, é preciso identificar quais são os cuidadores que estão envolvidos de fato com os filhos. Por exemplo: se um pai biológico é do tipo que visita os filhos por algumas horas em vastos intervalos de tempo e que só se importa em dar o dinheiro da pensão para não responder à justiça, o novo esposo da mãe pode tornar-se o verdadeiro cuidador dos filhos desta. O mesmo pode acontecer com a nova esposa do pai quando a mãe fica envolvida com outras atividades e distancia-se dos filhos.

Entretanto, os filhos só irão aceitar os cuidados e sujeitar-se ao comando deste novo cuidador se o pai/mãe “autorizar” este cuidador diante dos filhos. É preciso reunir os filhos e dizer explicitamente a eles que possui um novo vínculo relacional e que autoriza este novo(a) companheiro(a) a cuidar deles de forma integral, o que inclui dar ordens e disciplinar.

Numa sociedade que deseja reduzir as questões relacionais a uma dimensão biológico/fisiológica, as ideias expostas acima devem soar estranhas, mas os cristãos devem lembrar-se de que o primeiro a mudar o conceito de família ligada por vínculos biológicos foi o próprio Senhor Jesus quando afirmou: “Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos? [...] Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe” (Mt 12.48, 50).


• Carlos “Catito” e Dagmar são casados, ambos psicólogos e terapeutas de casais e de família. São autores de Pais Santos, Filhos Nem Tanto.

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