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Colunas — Da linha de frente

Por um movimento missionário pós-colonial

Bráulia Ribeiro

Nos meados do século 20, a antropologia e a linguística se tornaram as ferramentas mais importantes do missionário. O alvo era entender culturas, transpor barreiras, entrar naquele mundo diferente. Nos movimentos mais recentes cresceu o desejo de se tornar nativo como o povo, o evangelho que se encarna. O controvertido “movimento de dentro”, o “insider movement”, advoga que religião e evangelho são coisas diferentes, e compartilham Cristo no contexto do islamismo, do hinduísmo ou do budismo sem mudar uma vírgula nas tradições ou na visão de mundo do convertido.

Hoje percebo que este movimento missionário ficou no passado. Já escrevi aqui várias vezes que o trabalho entre os indígenas brasileiros alargou as barreiras do que eu acreditava ser o evangelho. Este movimento missionário do século 20, se apoiava em concepções bem reduzidas sobre quem é o mensageiro e sobre o que era a mensagem. O mensageiro, ou missionário, era a encarnação de Cristo, a fonte pela qual a mensagem chegaria. A mensagem era a salvação individual abstrata. Esta é uma das razões por que os irmãos do “insider movement” acreditam que um muçulmano dentro de uma sociedade repressiva deve continuar muçulmano, sendo um perfeito membro de sua comunidade religiosa e social. O evangelho é uma experiência pessoal e abstrata de salvação e comunhão com Cristo.

No meio da terrível repressão religiosa da Argélia, recentemente, ex-muçulmanos convertidos decidiram adorar em público, arriscando as próprias vidas. Muitos deles saíram da fé encoberta que aprenderam dos missionários ocidentais, contra a vontade deles, para tentar viver uma fé pública. E dizem: “Se não pudermos construir igrejas, vamos morrer para que nossos filhos o possam”. A fé destes cristãos não é privada nem abstrata. Eles sabem que o cristianismo verdadeiro sacode fundamentos, transforma a história.

A nova expressão missionária se vale mais da sociopolítica e da economia do que da antropologia. Seu alvo não é entender culturas, mas sim criar pontes entre elas. É não apenas levar uma mensagem única, mas abrir as portas para que as implicações do evangelho possam chegar aos que precisam.

A decepção do mundo ocidental consigo mesmo afetou as missões protestantes. O antropologismo excessivo nasceu da ideia de que o evangelho ocidentalizado era um mal em si mesmo. Até o trabalho de traduzir a Bíblia -- o que dá à população minoritária a capacidade de escrever sua língua, permitindo-lhes preservá-la -- tem a tendência de ser substituído pelos movimentos que preferem usar a tradição oral, e apenas contar histórias do evangelho em vez de ensiná-lo, como se fazia anteriormente no “modelo grego”. Ora, o famigerado “modelo grego” de pensar é o que ajudou muitas populações excluídas a dialogar como o mundo de fora para obter autonomia civil e econômica.

Autores como Lamin Sanneh, Vishal Mangalwadi, Kwame Bediaku, Vinoth Ramachandra, da África, Índia e Sri Lanka, criticam a decepção do ocidente consigo mesmo e propõem uma missiologia pós-colonial, que não separa “eles e nós”, mas que chama os povos à parceria na construção civilizacional proposta pelo cristianismo. Não é por causa dos olhos azuis dos ingleses que a mortalidade infantil é menor na Inglaterra do que no Congo. Foram os mecanismos sociais criados pelos valores cristãos que permitiram ao mundo ocidental um desenvolvimento humano que o mundo animista não alcançou. Joãozinho Trinta ecoa de novo: “Quem gosta de pobre reprimido pelo islamismo radical é missionário. Nós queremos é construir igrejas (Argélia), praças arborizadas (Turquia) e liberdade de expressão (Irã). Vamos encarar?”.

• Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família e está envolvida em projetos de tradução da Bíblia nas ilhas do Pacífico. É autora de Chamado Radical e Tem Alguém Aí em Cima?

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