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Colunas — Redescobrindo a palavra de Deus

No princípio... Deus. A terra era sem forma e vazia... e disse Deus!

A pesar de muitas viagens, algumas a gente não esquece. Certa vez tomei um avião de Buenos Aires para a Nova Zelândia. Como o trajeto era longo, a aeronave pousou para abastecer num minúsculo aeroporto no sul da Argentina, na Terra do Fogo. O tempo era lúgubre, chuvoso e ao redor parecia nada haver. Quando o avião voltou a decolar, descortinou-se diante dos meus olhos uma extensão sem fim de terra seca e árida e eu não consegui afastar a ideia de um urubu pousado num cacto à espera não sei de quê. Assim são os desertos: o dia pode ser bem quente, a noite pode ser muito fria e a vida parece impossível. O brilho ofuscante do sol sobre a areia fere os olhos e o andarilho vive a ilusão das miragens. Quando ouço o poeta bíblico descrevendo, na abertura das Escrituras, um cenário “sem forma e vazio”, lembro-me daquela paisagem desértica da Terra do Fogo.
 
Há certamente outras imaginações e outros autores podem discernir melhor o que autor bíblico chama de “terra sem forma e vazia”, marcada por “trevas que cobriam um abismo”. Como seria um lugar assim? Se as trevas cobrem tudo, nem o abismo se percebe. Se a terra é sem forma, não pode ser discernida, apalpada ou descrita. E, se às trevas e à ausência de forma for acrescida a descrição de vazia, me percebo paralisado! Como é possível visualizar ou desenhar algo assim? Perdoe-me, pois, o leitor pela minha incapacidade de ir além de repetir o que já foi dito: “No princípio Deus criou os céus e a terra. Era a terra sem forma e vazia; trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas” (Gn 1.1-2).
 
Quanto mais convivo com as Escrituras, mais vejo nelas um espelho da vida de ontem e de hoje. Quanto mais mergulho nelas, mais vejo um retrato de mim mesmo e da realidade do mundo em que vivemos. Assim, vejo o poeta descrevendo não só o passado, mas também os dias atuais. Nossos abismos encobertos por nossas trevas. Nossa ausência de sentido e vivência do vazio, seja do adolescente que se sente incompreendido e busca nas drogas um escape para o caos familiar, em que o pai bebe e a mãe grita, numa clara demonstração de abismo relacional, seja do administrador público que desvia o dinheiro que deveria ser investido no hospital e o deixa “sem forma e vazio”, ou até mesmo o desmatamento irresponsável de uma Amazônia que ameaça se transformar num grande vazio, ou melhor, num grande deserto. São trevas a cobrir os nossos abismos e a testemunhar uma vida que parece tão sem forma e vazia.
 
Porém, logo o texto bíblico abre outro cenário e nos faz vislumbrar o Espírito de Deus movendo-se sobre a face das águas. A ausência de forma, o vazio e as trevas não são a última palavra no mundo em que vivemos. Estes serão marcados e transformados pela presença de Deus e pelo toque do Espírito. Deus chega de forma tranquila como só ele sabe fazer. Chega pairando sobre as águas. Não derruba nada nem violenta ninguém, mas ocupa todo o espaço e a tudo dá forma, sentido e valor.
 
O vazio, as trevas e a ausência de forma, agora acrescidos das águas, passam a ser marcados pela presença pairante do Espírito de Deus e vai surgindo uma nova realidade, que nasce a partir deste espírito-palavra de Deus: “E disse Deus”. A presença-palavra divina irrompe em meio à realidade do caos, da ausência de forma, da existência do vazio e do império das trevas. Agora a forma, o valor e o sentido começam a se desenhar.
 
É assim sempre que a presença de Deus toca nossa existência. Sua presença é sutil e sensível, pois é a presença do Espírito. Sua palavra é a luz que dissipa as trevas, a forma que substitui o informe e preenche o que está vazio. Sua presença-palavra gera vida. Deus não se afasta das trevas nem se deixa afugentar pelo vazio, seja este o cheiro azedo das nossas ressacas, a nulidade dos nossos planos existenciais ou o caos dos nossos ambientes e meio ambiente desertificados em tantos e diferentes sentidos. Deus está presente e adentra cada um desses caóticos universos, gerando vida, comunidade e celebração. É disso que o poeta fala a seguir e, uma vez mais, somos convidados a nos encantar com o jeito como Deus chega e com a exuberância do que faz. Aliás, em dados momentos ele mesmo contempla a sua obra e conclui que “ficou bom!”.
 
Na Visão Mundial Internacional, cujo foco são as crianças, às vezes as convidamos a descrever o presente e sonhar o amanhã. Ao desenharem sua realidade, sempre se percebe o quanto elas sentem as brigas familiares, os conflitos sociais, o abandono e o medo. A criança palestina dificilmente deixa de desenhar o medo da bomba explodindo na praça ou o soldado agarrando o pai e levando-o para onde ela nãopode vê-lo. Mas quando se pede que desenhem o amanhã, então aparecem a casa bonita, a escola arrumada e a praça cheia de crianças brincando. As crianças sorriem, os pais se entendem e a comunidade está pacificada. A criança discerne o que o poeta bíblico quer nos dizer: somos vocacionados a viver em comunidade, cuidar do mundo no qual vivemos e celebrar a presença de Deus, que faz possível tudo isso. Isso se torna realidade quando nos deixamos abraçar pelo Espírito de Deus, que sopra em nossos ouvidos a palavra que Jesus falou aos seus ouvintes: “[...] eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10.10).
 
• Valdir Steuernagel é teólogo sênior da Visão Mundial Internacional. Pastor luterano, é um dos coordenadores da Aliança Cristã Evangélica Brasileira e um dos diretores da Aliança Evangélica Mundial e do Movimento de Lausanne.

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