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Colunas — História

A renúncia de Bento XVI

Na manhã do dia 11 de fevereiro de 2013, o papa Bento XVI surpreendeu o mundo, e em especial os fiéis católicos, com o anúncio de sua renúncia ao “ministério de bispo de Roma”, a ser efetivada no dia 28 de fevereiro, às 20 horas. Mencionou como motivo dessa decisão o declínio acentuado de sua saúde, o que o incapacitou para desempenhar adequadamente as suas funções. Disse que a partir de agora pretende servir a igreja “com uma vida consagrada à oração”. Bento XVI exerceu o pontificado por quase oito anos, tendo sido eleito pelo colégio de cardeais em 19 de abril de 2005. É o primeiro papa a renunciar ao ofício desde Gregório XII, em 1415, e o primeiro a fazê-lo voluntariamente desde Celestino V, em 1294.
 
As renúncias papais são raras e bem poucas foram de livre vontade. O primeiro bispo de Roma a abdicar foi Ponciano, no terceiro século. Após cinco anos no cargo, ele foi deportado pelo imperador Maximino da Trácia, sendo submetido a trabalhos forçados nas minas da Sardenha. Não querendo que houvesse um vácuo de liderança na igreja romana, abdicou em 28 de setembro de 235, a primeira data precisa da história papal. Morreu menos de um mês depois de renunciar. No sexto século, Silvério, filho do papa Hormisdas, teve experiência semelhante. Em 11 de março de 537, nove meses após ter sido eleito, foi deposto por ordem do imperador Justiniano, embora só tenha abdicado formalmente em 11 de novembro daquele ano, vindo a morrer menos de um mês depois.
 
Um dos pontificados mais confusos da história foi o de Teofilato ou Bento IX, sobrinho dos dois papas anteriores. Eleito em 21 de outubro de 1032, ocupou o trono pontifício em três períodos distintos. Em setembro de 1044, fugiu de Roma durante uma revolta popular. Em março do ano seguinte recuperou o trono papal, porém dois meses mais tarde abdicou em favor de seu padrinho, João Graciano (Gregório VI). Recuperou o ofício de novembro de 1047 a julho de 1048, quando foi destituído pelo imperador germânico Henrique III. No final do século 13, o eremita Pietro del Morrone tornou-se o papa Celestino V, aos 85 anos. Controlado por Carlos II, rei da Sicília e de Nápoles, e sendo um administrador inepto, renunciou após três meses e meio de pontificado (1294), incentivado pelo cardeal Benedetto Caetani, que o sucedeu como Bonifácio VIII.
 
O penúltimo pontífice a renunciar foi Gregório XII (Angelo Correr), eleito em 30 de novembro de 1406, aos 81 anos. Ele foi o quarto e último papa da linha romana durante o Grande Cisma do Ocidente, um período de 40 anos (1378–1417) em que houve papas simultâneos em Roma e Avinhão (e por fim um terceiro em Pisa). Mediante negociação com o Concílio de Constança e desejoso de pôr fim ao cisma, Gregório XII convocou formalmente esse concílio e renunciou ao seu múnus em 4 de julho de 1415. Morreu três semanas antes da eleição de um novo papa para toda a igreja, Martinho V, no final de 1417. Agora, decorridos quase 600 anos, ocorre a renúncia, ou resignação, de Bento XVI.
 
A história recente da instituição papal tem apresentado alguns episódios marcantes. As surpresas começaram com o pontificado de João XXIII e a convocação do Concílio Vaticano II, com suas notáveis propostas liberalizantes. Vieram a seguir dois papas de menor destaque, o sóbrio Paulo VI e o efêmero João Paulo I. Eles foram sucedidos pela figura impressionante do cardeal polonês Karol Jozef Wojtyla, que, como papa João Paulo II, teve um dos pontificados mais longos da história (1978–2005) e deixou marcas profundas no catolicismo. Dotado de imenso carisma e popularidade, reafirmou a autoridade papal, assumiu posturas conservadoras e interferiu fortemente em diferentes áreas da igreja.
 
Nesse contexto, foi compreensível a eleição do cardeal alemão Joseph Aloisius Ratzinger, nascido em 16 de abril de 1927. Ele havia se distinguido inicialmente como um importante teólogo acadêmico e foi um dos arquitetos das reformas do Vaticano II. Posteriormente, modificou suas posições, tornando-se um defensor inflexível da ortodoxia, principalmente como presidente da Comissão Bíblica Pontifícia e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (antigo Santo Ofício), cargos que ocupou por 24 anos. Apesar de aproximar-se ideologicamente do antecessor, as diferenças entre os dois pontificados foram marcantes.
 
Bento XVI não tem o carisma, a simpatia e a personalidade efusiva de João Paulo II. Não teve o mesmo impacto na mídia nem no cenário político internacional. No futuro, será lembrado principalmente como um papa que renunciou ao seu ofício, algo que já vinha sugerindo há algum tempo. Após a efetivação do seu afastamento, seguirá para a residência papal de verão em Castel Gandolfo e depois irá morar no mosteiro Mater Ecclesiae, no Vaticano. Ele não terá o título de cardeal e não poderá ocupar nenhum cargo na Cúria Romana. Poderá ser conhecido como “bispo emérito de Roma” ou “papa emérito”. O novo papa deverá ser eleito pelo conclave de cardeais antes da Páscoa de 2013.
 
Apesar das naturais especulações sobre os motivos do afastamento de Bento XVI, o fato realmente importante para o catolicismo será a eleição do seu sucessor. Sabe-se que há uma intensa disputa entre duas tendências na hierarquia: de um lado, aqueles que desejam a manutenção do “status quo”; do outro, os que almejam a maior abertura da instituição, no espírito do Vaticano II. Há décadas vem ocorrendo intensa reflexão sobre o próprio caráter da liderança eclesiástica no início de um novo milênio, se centralizadora ou colegiada, autoritária ou pastoral. Quem será o novo pontífice e qual será a sua atuação? Em breve saberemos.
 
• Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e “Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil”. asdm@mackenzie.com.br

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