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Colunas — Ética

A relação dos cristãos com a sociedade: na igreja primitiva e na nossa

A igreja primitiva e a nossa: crescimento e fidelidade
 
Hoje, no Brasil, temos uma igreja evangélica que é caracterizada teologicamente pelo ideal de ser, o mais possível, fiel ao cristianismo original, ou seja, ao cristianismo “primitivo” ou dos primeiros séculos. E é caracterizada sociologicamente – assim como o cristianismo primitivo – pela realidade do crescimento numérico e penetração de novos setores da sociedade. Por isso, é interessante perguntarmos como os primeiros cristãos entendiam a sua relação com a sociedade em geral e com as pessoas ao seu redor, para avaliarmos criticamente até que ponto somos de fato imitadores da igreja dos primeiros tempos.
 
Uma das melhores maneiras de responder a essa pergunta é pelo exame de um dos textos mais belos que foi preservado daquela época: a Carta a Diogneto. Não sabemos exatamente quando foi escrita – provavelmente no segundo século ou no início do terceiro século –, nem quem foi Diogneto – possivelmente um tutor do imperador Marco Aurélio – , nem quem a escreveu. O autor de uma das obras mais impressionantes da antiguidade cristã é desconhecido, ou escolheu se manter no anonimato!
 
 
Os cristãos e a sociedade
 
A carta começa negando quatro maneiras de ver a relação com a sociedade, que eram comuns em outras religiões e que hoje são comuns em vários tipos de cristianismo. “A diferença entre os cristãos e o resto da humanidade não é uma questão de nacionalidade ou linguagem ou costumes. Os cristãos não vivem separados em cidades próprias, nem falam um dialeto peculiar, nem praticam um modo de vida excêntrico.” Tampouco “seguem esta ou aquela escola de pensamento humano”. Ou seja, em primeiro lugar, os cristãos não podem ser definidos pela localização geográfica: estão em todos os países, em todas as cidades, em todos os bairros. Não se isolam das outras pessoas, mas estão dispersos no meio delas. Em segundo lugar, os cristãos tampouco se definem por um vocabulário próprio, que as outras pessoas estranham; não marcam a fronteira de sua comunidade por meio de uma maneira peculiar de falar. Em terceiro lugar, não se definem por costumes ou um modo de vida excêntrico, ou seja, pela ênfase nas dimensões exteriores da religião. E, finalmente, não se identificam, como comunidade cristã, com uma determinada ideologia ou espírito da época.
 
Em seguida, a carta descreve a relação dos cristãos com a sociedade em termos positivos. “Eles seguem os costumes locais no tocante a vestimenta, dieta e outros hábitos. No entanto, a organização de sua comunidade revela algumas características surpreendentes.” Aí vem uma frase belíssima: “Para eles, todo país estrangeiro é como sua pátria, e toda pátria é como um país estrangeiro”. A identidade cristã é extremamente enraizada e localizada (seguem os costumes locais), mas ao mesmo tempo é fortemente desenraizada e globalizada.
 
Hoje, é comum ouvir dos cristãos a afirmação de possuir duas pátrias: a terrena (Brasil ou outro país) e a celestial. Contudo, lemos na carta sobre um terceiro conceito de pátria, com base no que podemos chamar de internacionalismo. Nesse conceito, “todo país estrangeiro é como sua pátria”, o que revela a capacidade de se identificar profundamente com o outro, por mais “estranho” que nos pareça; de se colocar na posição do outro, de tentar ver o mundo a partir da perspectiva do outro. Nada mais longe do nacionalismo doentio que caracteriza alguns cristãos, sobretudo em determinados países. E, ainda, “toda pátria é como um país estrangeiro”, ou seja, tentamos ver até mesmo o nosso próprio país a partir da ótica do outro, sem deixar de amá-lo. Toda identificação local, sem ser negada, é relativizada pelo globalismo cristão.
 
 
Os cristãos e o próximo
 
A carta afirma também que, “como outras pessoas, os cristãos casam e têm filhos, mas eles não praticam o infanticídio. Todo cristão divide sua mesa com o seu próximo, mas nunca o seu leito conjugal”. Evitam os dois extremos. De um lado, estão envolvidos nos processos de casamento, reprodução sexual e criação de filhos. Nada aqui do ascetismo exagerado que se tornou comum posteriormente entre muitos cristãos, de considerar o celibato superior à vida casada. Por outro lado, “não dividem o leito conjugal”, porque rejeitam tanto a promiscuidade como a desvalorização da mulher envolvida em certas noções errôneas de hospitalidade. Mas praticam, sim, a hospitalidade, um valor central nos próprios Evangelhos e na igreja primitiva, e com certeza uma das principais razões do crescimento da igreja. Outro fator do crescimento da igreja é que não praticavam o infanticídio de recém-nascidos, inclusive de meninas – a versão romana da procriação seletiva hoje praticada largamente na Ásia e que tem levado a uma séria diminuição no número de mulheres na China e em regiões da Índia.


 
Os cristãos e a unidade do mundo

Enfim, a carta diz que “a relação dos cristãos com o mundo é como a relação da alma com o corpo”, ou seja, difusa (“os cristãos estão em todas as cidades do mundo”) e invisível (“os cristãos podem ser reconhecidos no mundo, mas o seu cristianismo em si permanece escondido”). Isto é, a raiz do seu cristianismo não está à mostra. A devoção deve ter uma dimensão recatada, e nem tudo tem de ser publicizado obsessivamente, como acontece muito no evangelicalismo brasileiro. Quando a publicização se sobrepõe às outras dimensões, caímos na censura de Jesus a respeito de ações feitas “para serem vistas pelos homens”.
 
Não que esse recato da igreja primitiva a livrasse de dissabores: “O mundo odeia os cristãos sem provocação. Mesmo assim, amam aqueles que os odeiam. Respondem à calúnia com a bênção, e ao abuso, com a cortesia”. Não respondem à calúnia com processos e ao abuso com mais abuso. Nem muito menos respondem às acusações plausíveis com teorias da conspiração!
 
A carta resume a relação dos cristãos com a sociedade numa frase ousada: “São os cristãos que mantêm a unidade do mundo”. Não creio que o autor tenha escrito essas palavras com um intuito triunfalista, nem muito menos teocrático, tendo em vista a ênfase na “invisibilidade”, e o fato de que à época da carta os cristãos eram minoria discriminada. É uma afirmação cristológica, mais do que lógica. Em Cristo, o Verbo de Deus, o agente da criação, os cristãos participam da manutenção do mundo e, sobretudo, de sua unidade. O papel dos cristãos é contribuir para a unidade do mundo – a unidade da igreja não está em pauta aqui –, não promover a sua desunião por meio de uma postura paroquial, seja nacionalista ou denominacionalista.
 
A base cristológica de tudo isso sobressai em seguida, num trecho de grande beleza. “O mensageiro que Deus enviou ao mundo não foi algum servo seu, nem um dos grandes do mundo, mas foi o próprio artífice e construtor universal em pessoa. E sua vinda não foi, como poderíamos supor, com grande poder e terror. Foi com mansidão e humildade, porque Deus queria nos salvar pela persuasão e não pela compulsão – pois não há compulsão em Deus.” Muitos séculos antes da famosa afirmação islâmica, bastante repetida hoje, de que “não há compulsão na religião”, os cristãos primitivos afirmam a mesma coisa, baseados no dever cristão de imitar o próprio Jesus. “Sua missão não foi de nos perseguir; foi de nos convidar.”
 
A carta termina com um convite à fé, mostrando que a relação social da igreja não se divorcia da evangelização. “Se você também deseja ter esta fé, a primeira lição é o conhecimento do Pai. Deus amou a raça humana. Foi por sua causa que ele fez o mundo. Formou-os à sua própria imagem, enviou-lhes seu único filho.” Daí que, “se você o ama, se tornará imitador da sua bondade”. A fé cristã significa a imitação do caráter de Deus. É o amor a Deus e ao próximo, como no famoso resumo da lei feito por Jesus, o que desemboca numa atitude diferente frente ao poder e ao dinheiro. “A felicidade não se encontra em dominar os nossos semelhantes, ou em querer ter cada vez mais. Mas se alguém carrega o fardo do seu próximo, e supre a necessidade alheia com a sua própria abundância, dividindo as bênçãos que recebeu de Deus, ele se torna um deus para aqueles que recebem da sua generosidade.”
 
• Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá.

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