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Colunas — Redescobrindo a Palavra de Deus

Choro e graça em Ruanda

Valdir Steuernagel
 
Escrever para Ultimato é sempre um desafio para mim. Desta vez, tentei várias “portas de entrada”, mas nada fazia justiça ao que estava no meu coração. Vi-me, então, diante de uma porta horizontal que dava para uma íngreme escada de cimento. Lentamente, desci os degraus e deparei-me com panos azuis e brancos cobrindo uma infinidade de caixões empilhados uns sobre os outros. Muitos caixões. Todos iguais e todos muito simples. 
 
Ao pé da escada abriam-se dois vãos, e em ambas as direções viam-se caixões empilhados como num depósito atacadista. Percebi que alguns não estavam bem fechados e fui tentado a espiá-los, mas fiquei com medo. Medo do que iria encontrar se minha mão curiosa fosse mais longe. Vi uma folha de papel afixada num dos caixões e me aproximei. Era uma lista de nomes. Um após outro, nomes escritos como memória -- a memória de pessoas que estavam “enterradas” ali. 
 
Devagar, entrei em cada um dos vãos. Olhando os caixões, passando a mão num e noutro, sem conseguir chorar. Olhos secos! Coração pesado! Mudo! Lentamente e em silêncio, tornei a subir a escada e o guarda fechou a porta atrás de mim, deixando os mortos em seu silêncio.
 
Voltei por onde tinha vindo. Queria rever a igreja de portas gradeadas onde iniciara aquela jornada. Vi um pouco mais do mesmo: uma igreja vazia e escura ocupada por bancos e, sobre eles, muita roupa velha. Velha e desbotada pelo tempo. Roupa sobre os bancos, como memória. Memória de um e de outro. Memória de muitos. 
 
À direita do templo ficava o “setor das crianças”. Não havia bancos, mas a roupa também era muita e tinha o mesmo colorido desbotado. Roupa como memória -- memória de crianças. Encostei a cabeça num tijolo qualquer, em silêncio amargo. Olhos secos. Coração pesado! Mudo!
 
Calado e com passos lentos, voltei ao carro e sentei-me ao lado do amigo que me levara. Antes de partirmos ele pediu que eu orasse. “Orar!”, me assustei. Em gemido silencioso, engoli minha resistência e balbuciei uma indagação sobre a presença de Deus e clamei por misericórdia. A misericórdia de um Deus presente cuja aparente ausência doía tanto.  
 
Ali naquela igreja 45 mil pessoas foram mortas. Os panos velhos e desbotados são a roupa usada pelas pessoas quando foram executadas. Os ossos foram identificados, recolhidos e enterrados no cemitério da escada íngreme. A parte da igreja que tanto marcou meu coração não era simplesmente o lugar onde as crianças ficavam, mas onde elas foram mortas. Trituradas. Arremessadas contra a parede e jogadas ao chão, quer tivessem morrido ou ainda agonizantes. 
 
A igreja foi transformada em “memorial do genocídio”, como outros memoriais espalhados por todo o país para testemunhar da abominável chacina de 1994, que num período de cem dias matou cerca de 1 dos 8 milhões de pessoas que havia no país. Algumas foram mortas com armas de fogo, outras com granadas, mas muitas foram assassinadas com machados, pedaços de ferro ou o que estivesse à mão, numa matança étnica vivida por um país enraivecido, vingativo, machucado, destruído, violento e violentado chamado Ruanda. Pobre Ruanda, já convivendo com sinais de reconciliação, mas ainda carente de caminhos que expressem a busca da necessária convivência étnica, nestes quase 20 anos pós-chacina! 
 
Não pretendo repetir aqui o trágico capítulo desta terra tão distante, nem acentuar processos de estigmatização deste pequeno e populoso país africano. Mas, ao ver o que aconteceu aqui, eu me assusto com o ser humano e com a capacidade que temos para a maldade que destrói o outro. Mais assustador ainda é pensar que essa matança foi articulada e intencional, visando aniquilar um grupo étnico por outro. Foi genocídio premeditado. Isto, sim, deve ser denunciado. A maldade humana deve ser desmascarada e a discriminação entre raças, contida, para que o mundo celebre a diversidade e seja um lugar onde todos possam florescer e caracterizar-se pela realidade que marcou o jardim do Éden.
 
Ainda mais incrível é que foi vizinho matando vizinho, parente matando parente, no intuito de destruir o diferente e eliminar qualquer vestígio de mistura racial resultante de casamentos entre diferentes etnias. Como se isso não bastasse, Ruanda tem 90% de cristãos, pertencentes às mais diferentes igrejas; e, em muitos casos, o que se viu foi clero matando membros de sua própria igreja e presbíteros matando seu pastor. Foi povo de Deus em levante contra o povo de Deus. E, quando as pessoas corriam a refugiar-se no templo, lá mesmo eram encarceradas e vitimadas por granadas mortais e machadadas vindas de gente sedenta de morte. Para atestar isso, basta voltar ao memorial e contemplar aquelas roupas desbotadas. 
 
Somos chamados a um discipulado que nos transforme e nos leve a andar com Jesus. Esta experiência em Ruanda mostra que tal caminhada só pode ser trilhada sob a graça de Deus, em submissão à sua Palavra e no compromisso mútuo de não permitir que os vínculos de comunhão de fé sejam rompidos, seja por motivos étnicos, políticos ou sociais. O que vi aqui atesta o quanto somos vulneráveis e carentes do Espírito Santo para resistir às tentações e andar com humildade nos passos do amor de Deus e da afirmação do outro. Foram poucos dias aqui, mas parte de mim quer ficar para chorar e andar por um destes difíceis caminhos de reconciliação. Conviver um pouco mais com irmãos e irmãs que me estenderam a mão e me deixaram estar com eles. A eles rendo meu respeito e os abraço na despedida.
 
“Senhor, ajuda-nos a construir memoriais de humanidade e altares de adoração ao Deus da vida, da comunidade e da justiça!”
 
• Valdir Steuernagel é teólogo sênior da Visão Mundial Internacional. Pastor luterano, é um dos coordenadores da Aliança Cristã Evangélica Brasileira e um dos diretores da Aliança Evangélica Mundial e do Movimento de Lausanne.

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