Ed René Kivitz
Como conciliar a ideia de construção da história do homem com Deus com a do determinismo, como parece ser o caso descrito no Salmo 139.16?
— Mariana
De fato, os famosos Catecismos de Westminster (1647–1648) afirmam que “os decretos de Deus são o seu eterno propósito, segundo o conselho da sua vontade, pelo qual, para sua própria glória, ele predestinou tudo o que acontece”, e que “as obras da providência de Deus são a sua maneira muito santa, sábia e poderosa de preservar e governar todas as suas criaturas, e todas as ações delas”. Um renomado teólogo norte–americano acredita que Deus determinou cada pequeno detalhe de nosso corpo e deliberadamente escolheu nossa raça, cor de pele, cabelo e todas as outras características, além de decidir o momento e o local exatos do nascimento e da morte de cada pessoa. Porém, essa não é a única interpretação possível para o Salmo 139. A expressão “todos os dias foram escritos” pode significar que “foram conhecidos antecipadamente”, e não necessariamente “determinados”. A Bíblia deixa claro que somos cooperadores de Deus, tanto na construção da nossa história pessoal quanto na história da redenção. As Escrituras compreendem a vontade de Deus, pelo menos, de três maneiras. A primeira é a vontade moral, expressa em seus mandamentos. A segunda é chamada de vontade soberana, cuja realização depende exclusivamente de Deus: “Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido” (Jó 42.2); “agindo eu, quem o impedirá?” (Is 43.13). E a terceira é melhor compreendida como os desejos de Deus, que podem ser resistidos pelos homens, como fizeram os fariseus do tempo de Jesus (Lc 7.31). O paradoxo dessas vontades, excetuando a vontade moral, pode ser visto na palavra de Pedro, o apóstolo, no dia de Pentecostes, ao afirmar que Jesus foi entregue por propósito determinado e pré-conhecimento de Deus, mas também assassinado pelos homens perversos (At 2.23). Portanto, parece razoável que muitas coisas que acontecem no mundo tenham Deus como causa. Contudo, é igualmente plausível que Deus deixe um horizonte de liberdade para a ação humana, que pode se render a ele ou contra ele se rebelar. Como diz o ditado: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
O que é a disciplina eclesiástica? Quem pode aplicá-la e quais os pecados passíveis deste tipo de disciplina?
— Nilton, 28 anos
A disciplina eclesiástica é um processo que tem por finalidade fazer com que as pessoas abandonem a prática do pecado e se submetam à vontade de Deus (Hb 12.4-12). Deve ser aplicada pela comunidade, principalmente pelos seus guias espirituais (Hb 13.7,13). As ações de disciplina são, por exemplo, a admoestação e a advertência (Mt 18.15-18), a exortação e o encorajamento (2Co 2.5-8; Hb 3.12-14; 10.24,25), a repreensão e a correção (1Co 1.11; Gl 2.11-14; 1Tm 5.19,20; 2Tm 3.16,17) e, em casos extremos, o afastamento da comunidade (1Co 5.4-13). Todos os pecados são passíveis de disciplina. Entretanto, para as medidas extremas, como aquela proposta pelo apóstolo Paulo, devem ser observados pelos menos cinco critérios: a pessoa deve estar vivendo na prática (1) continuada e (2) deliberada de um (3) pecado (4) confirmado e (5) mensurável. Deve-se ter em mente que a disciplina é para os cínicos, não para os fracos; que todo mundo é inocente até que se prove o contrário; e somente Deus pode julgar o que é subjetivo.