Ed René Kivitz

Arrependimento
Como entender os momentos em que a Bíblia fala que Deus mudou de ideia sobre alguma situação? -- Mariana, 28 anos
Esse é um tema muito debatido na teologia. A polêmica surge com o pensamento dos gregos, que sugere que Deus não pode mudar, pois se muda para pior, deixa de ser perfeito, se para melhor, mostra que não era perfeito. Contudo, o pensamento judaico sugere outra possibilidade de interpretação para as “mudanças de Deus”. Primeiramente, é importante saber que a expressão arrependimento não tem o mesmo significado quando se refere a Deus e aos homens. Os homens se arrependem do pecado e da maldade, o que não é o caso de Deus (Nm 23.19; 1Sm 15.29). Quando a Bíblia fala que Deus se arrependeu, quer dizer que ele mudou seu comportamento ou intenção diante de uma nova situação. Por exemplo, Deus diz ao profeta: “Se em algum momento eu decretar que uma nação ou um reino seja arrancado, despedaçado e arruinado, e se essa nação que eu adverti converter-se da sua perversidade, então eu me arrependerei e não trarei sobre ela a desgraça que eu tinha planejado” (Jr 18.7-10). Foi isso que Deus fez em relação a Nínive, que acolheu o chamado do profeta Jonas ao arrependimento. Foi essa a promessa de Deus a Israel, quando da inauguração do Templo de Salomão, conforme 2 Crônicas 7.14. Isso significa que diferentemente do “deus dos gregos”, que se conforma a uma força ou energia impessoal, estável e imutável, o Deus de Israel é relacional. E não somente conhece o que fazemos, como também é afetado pelo que realizamos. Embora sempre detenha a prerrogativa da palavra final, Deus nos convida a escrever a história em cooperação com ele.
Missão integral
Alguns pensadores da missão integral defendem que com a volta de Cristo o reino de Deus será estabelecido na terra de forma definitiva. Isso não difere do ponto de vista que anuncia a destruição deste mundo e defende a subida do povo de Deus para o céu? -- Rogério
Na verdade, o que os teólogos da missão integral ensinam segue a abordagem da escatologia inaugurada, que compreende que o reino de Deus está presente na história, mas não se consuma na história. Jesus disse: “O meu reino não é deste mundo” (Jo 18.36), isto é, não se confunde com justiça social, pois aponta para outra dimensão qualitativa de vida. O reino de Deus, que será consumado no futuro escatológico, já está inaugurado na pessoa e obra de Jesus Cristo (Lc 11.20). Jesus é o portador do reino de Deus e, em Cristo, todos já podemos experimentar os primeiros frutos da ação soberana de Deus na história e no universo (Mc 1.14,15; Mt 12.28; Lc 4.19-21). Isso significa que vivemos a tensão entre o “já” e o “ainda não”. Por exemplo, já somos filhos de Deus, mas ainda não fomos plenamente transformados à imagem de Cristo (1Jo 3.2); o diabo já está vencido, mas ainda não está impedido de atuar no mundo (Mt 12.29); já recebemos a vida abundante que há em Jesus, mas ainda não fomos completamente redimidos das vulnerabilidades de nosso corpo mortal (Jo 5.24; 10.10; Rm 8.18-23; 1Jo 5.11,12; 1Cr 15.42-49).