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Colunas — Casamento e família

A vergonha de estar nu

Carlos “Catito” Grzybowski e Dagmar Fuchs Grzybowski
 
Após o relato da criação, nos dois primeiros capítulos de Gênesis, a Bíblia não descreve muito como era a vida e o relacionamento do primeiro casal no Paraíso. Apenas um versículo indica algo deste relacionamento -- o verso 25 do capítulo 2. Ele afirma: “O homem e sua mulher viviam nus, e não sentiam vergonha”.
 
Todavia há uma verdade especial contida nas poucas palavras deste versículo. Em primeiro lugar, a ideia de estar nu, neste contexto, não indica somente o não estar usando roupas, mas sim que havia um total conhecimento um do outro -- um desnudar-se de alma! Homem e mulher não tinham absolutamente nada a esconder um do outro. Conheciam e eram conhecidos por seus pares na mais profunda intimidade da alma.
 
Na busca pela intimidade relacional, o casal precisa dar-se a conhecer um ao outro, o que não é um processo fácil. Em primeiro lugar porque tememos a rejeição. Temo que o outro me abandone se descobrir quem realmente sou no mais íntimo de meu ser -- todo o meu egocentrismo escondido e minha vida de aparências. Só eu me conheço e sei o quão vil e pecador posso ser algumas vezes -- ainda que só em pensamentos -- e procuro esconder isso dos demais, incluindo meu cônjuge.
 
Em segundo lugar porque temos vergonha. Após a entrada do pecado no mundo, a primeira atitude do ser humano foi cobrir-se com folhas e esconder-se de Deus, pois tinha vergonha! Vergonha de ser visto como falho e fraco. O homem havia desobedecido à única ordem do Criador. Havia falhado no mais simples que lhe fora proposto e mostrara-se fraco diante da tentação da serpente, cedendo ao seu apelo. Fraqueza e imperfeição são atributos que procuramos sempre esconder dos demais, de nosso cônjuge e, fantasiosamente, até de Deus.
 
Entretanto se quisermos experimentar toda a profundidade da intimidade relacional e desfrutar de uma vida conjugal verdadeiramente prazerosa, precisamos nos arriscar a uma maior abertura e transparência.
 
Isso exige do casal uma boa comunicação. É preciso investir tempo para contar ao outro quem sou, o que penso, como ajo e o que sinto, bem como para ouvir o mesmo dele, em uma escuta desarmada e sem críticas. Certamente este nível de intimidade não se consegue no tempo de namoro ou na noite de núpcias. É uma conquista diária e precisa ser recíproca.
 
Exige um diálogo no qual os olhares se encontrem e se interpenetrem a ponto de podermos enxergar a alma um do outro. Jovens apaixonados têm facilidade de dialogarem olhando nos olhos, pois se sentem profundamente amados pelo outro e têm pouco receio de serem rejeitados. Contudo, à medida que vão convivendo e cometendo pequenas falhas, passam a ter cada vez mais medo de expor-se, pois não querem se mostrar fracos e sofrer rejeição por não atenderem as expectativas do outro. Assim, quanto mais tempo convivem, menos se permitem ser penetrados pelo olhar do outro e se distanciam na intimidade. É necessário um resgate do olhar nos olhos durante o diálogo conjugal, pois isso traz proximidade e cria vínculo.
 
O grande desafio para os casais é o de ficarem “nus” um diante do outro e não se sentirem envergonhados; uma transparência de alma, sem nada a esconder, para nos descobrirmos amados e aceitos pelo que somos -- mesmo com nossas falhas e fraquezas -- e não pelo que representamos ser.
 
Viver desta forma é experimentar um pouquinho do jardim do Éden em nossas vidas!
 
Carlos “Catito” e Dagmar são casados, ambos psicólogos e terapeutas de casais e de família. Catito é autor de Como se Livrar de um Mau Casamento e Macho e Fêmea os Criou, entre outros.

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