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Colunas — Ética

O Pai-Nosso e as bem-aventuranças para hoje: o verdadeiro “dando é que se recebe”

Na edição de maio/junho de 2011, falamos dos sermões de Gregório de Nissa (c. 380 d.C.) a respeito do Pai-Nosso e das bem-aventuranças. Mais uma vez relacionamos esses dois discursos de Jesus e enfocamos as exortações de “perdoar os devedores” e “ser misericordioso”. Novamente este autor patrístico nos surpreende com a ousadia e a atualidade com que aborda esses dois textos centrais da mensagem evangélica.
Mateus 6.12 -- “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores”.

Gregório afirma que este pedido, no contexto do Pai-Nosso, nos leva ao cume da virtude, pois ensina que tipo de pessoa devemos ser se quisermos nos aproximar de Deus. Com sua costumeira ousadia, ele diz não só que devemos ser semelhantes a Deus, mas também que devemos ser “deuses”, pois perdoar as dívidas é prerrogativa especial de Deus. “Se um homem imita as características divinas, ele se torna, de alguma forma, aquilo que imita... Ele se torna, por assim dizer, um deus pelo seu próprio estilo de vida” e na esperança da imortalidade. Assim, Cristo transforma a natureza humana em divina!

Com base nisso, Gregório diz que devemos dar a nós mesmos a sentença de absolvição, pois o juízo que fazemos do nosso próximo provocará a mesma sentença sobre nós. De nada adiantará pedir perdão, se nossa consciência não nos disser que é bom mostrar misericórdia e se nossas ações não corresponderem a isso. Não há base para a famosa frase atribuída ao poeta alemão Heinrich Heine, logo antes de sua morte: “Claro que Deus me perdoará; é o ofício dele!”.

Espantado, Gregório exclama: “O que está sendo dito aqui? Em outros lugares da Bíblia, recomenda-se a imitação de Deus. Mas aqui, ele deseja que a sua disposição seja um bom exemplo para Deus! A ordem está invertida; ele nos dá a ousadia de esperar que Deus também nos imite”.

Porém, a linguagem ousada não leva Gregório a se enganar quanto à realidade humana. “O homem se separou do seu Criador e desertou ao inimigo... Que mal pode ser maior do que não olhar a beleza do Criador, e desfigurar a imagem e destruir a marca divina em nós? Portanto, nunca devemos falar com demasiada ousadia diante de Deus, como se tivéssemos uma consciência pura. Ninguém vive um dia sequer sem mancha.”

Mateus 5.7 -- “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”.
A conexão dessa bem-aventurança com o Pai-Nosso é que “Jesus efetivamente deifica” quem a pratica. Pois, se o termo “misericordioso” é apropriado para Deus, Cristo “te convida a te tornares Deus... porque alcançou aquilo que caracteriza a natureza divina”.

Definindo a misericórdia como “uma aflição voluntária que se une aos sofrimentos dos outros” e “uma disposição intensamente amorosa, combinada com a tristeza, com a vontade de participar nos infortúnios do outro”, Gregório frisa que a misericórdia não tem a ver somente com o uso das coisas materiais, senão poderia ser exercitada apenas por quem tem os meios necessários. Antes, a misericórdia tem a ver com “a escolha da vontade”. Ele pinta, liricamente, o quadro de um mundo caracterizado pela misericórdia:

Não existiria mais nem o excesso nem a privação. Todas as coisas seriam comuns a todos, e a vida de cada um como cidadão seria caracterizada pela completa igualdade perante a lei, e as pessoas responsáveis pelo governo se colocariam, de livre espontânea vontade, no mesmo nível de todos. Não haveria razão para a inimizade. A inveja seria fútil e o ódio desapareceria, junto com a mentira, a fraude e a guerra, todas as quais procedem da cobiça. Não teríamos mais que confiar em grades e fechaduras para garantir a nossa segurança, pois estaríamos seguros no cuidado uns dos outros. Que maior segurança poderíamos imaginar para as nossas vidas do que isso?

O mundo antigo, em que vivia Gregório, estava muito longe disso. O nosso mundo também não conseguiu abolir os contrastes de excesso e privação, nem as guerras e uma política de segurança baseada em “grades e fechaduras”. Avançamos, sim, desde a antiguidade, em direção a uma cidadania caracterizada pela igualdade perante a lei e pela transparência dos governantes (mesmo que ainda falte muito que fazer). Entretanto, Gregório provavelmente se lamentaria de que os cristãos nem sempre apoiaram, e ainda hoje nem sempre apoiam, esses avanços.

Contra as heresias da sua época (e da nossa), Gregório afirma que Deus, que fez o homem à sua própria imagem, o constituiu com “todos os princípios da bondade”. Portanto, “está em nós o poder de produzir o bem de dentro da nossa própria natureza”. O contrário é igualmente válido: a inclinação ao mal também aparece sem compulsão externa. O mal passa a existir sempre que nós o escolhemos. Porém, não tem uma substância própria; fora da nossa escolha proposital, o mal não existe em lugar algum.

O juízo divino segue a escolha que fizemos, e distribui a cada um aquilo que preparou para si mesmo, assim como os espelhos refletem os rostos do jeito que estão. Não se pode culpar o espelho pela depressão no rosto, se o original mostra depressão. Da mesma forma, o justo juízo de Deus se adapta às nossas próprias disposições. Aquele que desperdiçou a vida e não mostrou misericórdia se separou da misericórdia. O que um homem semear, colherá.
Para terminar, Gregório acrescenta que a ideia de misericórdia também se aplica a nós mesmos, ou seja, devemos afligir-nos por termos caído da nossa dignidade original.

É só pensar em como a nossa vida caiu sob a servidão de vários grandes tiranos, em vez de levarmos uma vida livre e independente. Por exemplo, a ira é um déspota cruel, e a inveja também. O ódio e o orgulho são tiranos violentos. As paixões e as impurezas nos aprisionam. Mas o pior de todos os tiranos é a ganância, porque nunca se sacia. Portanto, se alguém verdadeiramente se conhece, nunca vai deixar de sentir piedade de si mesmo; e isso será seguido pela piedade divina.

A abordagem de Gregório sobre esses trechos do Pai-Nosso e das bem-aventuranças nos desafia. Até que ponto minha vida é caracterizada pela consciência de que sou chamado a ser um “deus” para o meu próximo, mostrando o perdão e a misericórdia? Ao mesmo tempo, quanto a mim mesmo, sou chamado ao realismo, à percepção da imagem divina desfigurada em mim e da tragédia de não enxergar mais a beleza do Criador. Gregório une a visão de um mundo transformado com a necessidade de transformação pessoal; será que minha vida caminha em direção a essa combinação de idealismo social com amor intenso, aflito e ativo?

A visão de Gregório também enfatiza a liberdade humana, em contraposição às ideias dualistas de uma luta cósmica entre o bem e o mal em que o ser humano é reduzido à vítima indefesa. Na roupagem de “guerra espiritual”, tais ideias permeiam o mundo evangélico de hoje, contribuindo para o enfraquecimento ético e a ausência de cultivo das virtudes. Até que ponto percebo a aplicação na minha vida do princípio da semeadura e da colheita, sobretudo com relação aos “tiranos” que me oprimem? Perguntas que valem a pena, já que a recompensa é alcançar, da parte de Deus, o perdão e a misericórdia.

Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá.

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