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Colunas — Redescobrindo a palavra de Deus

O testemunho de Cristo enriquece a vida

"Pregue sempre o evangelho. Se necessário, use palavras." Essa frase de Francisco de Assis aponta para a necessidade de "vivermos" o evangelho e não fazermos dele um mero produto de nossa falação ou pregação. O evangelho não se presta a ser teoria. Ele só assume força e colorido real quando se transforma em realidade na vida de pessoas, famílias e comunidades. O mesmo Francisco de Assis diz que "não adianta ir a lugar algum para pregar se a nossa vida não for a nossa pregação".

Jesus advertiu seus discípulos sobre o perigo do que chamamos farisaísmo: dizer uma coisa e fazer outra. Quando o evangelho que anunciamos e vivemos, em vez de espelhar a realidade de quem Jesus é, expressa mais nossas ideologias, uma cultura de consumo e a promoção de nossas instituições e sistemas, ele se torna um discurso vazio. Como expressa o poeta George Elliot (1819-1880): “Ideias são meros fantasmas até que se encarnam numa pessoa. Então elas olham com compaixão, tocam com mãos quentes e redentoras e abalam o mundo como uma paixão”.

Já em sua época, Jesus denunciou essa realidade e essa tentação. Seu evangelho nos exorta a estarmos atentos à mesma tendência em nossos dias, tanto na nossa própria vida e nas instituições e organizações que fundamos ou representamos como nas igrejas e organizações cristãs ao nosso redor. Quando nossa vida e nosso anúncio não caminham em uma mesma direção, nos tornamos um antitestemunho do evangelho que pregamos. Uma das mais certeiras e famosas expressões nesse sentido vem de Mahatma Gandhi: “Eu certamente seria um cristão, se os cristãos o fossem 24 horas por dia”.

O evangelho ressalta ainda outra faceta dessa realidade ao afirmar que não adianta querermos fazer dele uma “realidade espiritual”, pois ela não nos aproximará nem de Deus, nem do outro -- especialmente do outro que passa necessidade. Aliás, Jesus diz que a consequência disso é terrível:

Então ele dirá aos que estiverem à sua esquerda: “Malditos, apartem-se de mim para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos. Pois eu tive fome, e vocês não me deram de comer; tive sede, e nada me deram para beber; fui estrangeiro, e vocês não me acolheram; necessitei de roupas, e vocês não me vestiram; estive enfermo e preso, e vocês não me visitaram”.
Mateus 25.41-43

Essa afirmação de Jesus aponta para o perigo da dissociação entre palavra e vida e convida a deixar-nos encontrar pelo evangelho que transforma a nossa vida numa “árvore plantada à beira de águas correntes”, que “dá fruto no tempo certo e suas folhas não murcham”, como diz o Salmo 1.3. Essa árvore floresce em qualquer lugar e se torna frondosa. Pode permanecer pequena por algum tempo ou, noutros lugares e estações, crescer com rapidez; porém, em ambos os casos, é marcada pelo viço e pela beleza. Nela os famintos são alimentados, os sedentos são saciados, os presos são visitados e os abandonados são acolhidos em expressão de amor e obediência a Deus e serviço ao outro.

Um bom testemunho vai longe
Volto a falar da viagem à Albânia, mencionada na edição anterior. Aquele país ficou fechado por muitos anos e a população, sob as mãos de ferro de um ditador frio e inescrupuloso, não tinha liberdade de movimento nem de expressão. Quando as fronteiras se abriram, o que se viu foi uma terra de gente triste, assustada e com alto nível de suspeita, pois a rede de espiões havia penetrado em tudo -- até nas estruturas familiares. A abertura e a mudança de regime trouxeram um novo ar, um novo espaço e uma nova mensagem de alegria. E quando isso aconteceu havia uma brasileira pronta para entrar no país. A história de Najua é fascinante. Quando foi encontrada pelo evangelho, Deus lhe mostrou que ela deveria ir para a Albânia. A jovem procurou no mapa e, como turista, foi espiar a terra. Assim que a cortina opressora caiu, instalou-se ali, pronta para ser mensageira da alegria num país cético e triste. E ela nunca mais saiu da Albânia -- ou, como ela mesma diz, “a Albânia nunca mais saiu de mim”.

No primeiro domingo em Tirana, a capital albanesa, eu e minha esposa fomos almoçar na casa de Najua. Comida boa e abundante, conversa solta e fluente, num barulhento português. Nós comíamos, mas a comida dela esfriava no prato enquanto nos contava sua história. Uma história com um chamado claro, uma santa disposição para a obediência e um grande amor por um povo que, antes de ela conhecer, já estava muito presente no coração de Deus. Foi sem estrutura nem grandes compromissos financeiros que ela partiu. Primeiro Londres, depois Kosovo, até se instalar na Albânia.
Aprendeu a língua, amou o povo e envolveu-se na proclamação do evangelho, acompanhada de um profundo testemunho de vida.

Naquele domingo Silêda e eu, já cativados pela natureza acolhedora das pessoas e daquela linda terra marcada por mar e montanhas, descobrimos um pouco mais da natureza amorosa de Deus e da força vital do seu evangelho. Outros missionários brasileiros foram chegando e ministraram ao nosso coração por meio de vidas consagradas a Deus e voltadas para um povo que, como todos nós, carecia deixar-se encontrar por Jesus, aquele que veio para que tenhamos vida e a tenhamos em abundância (Jo 10.10). Esse é o evangelho de vida, pelo qual vale a pena viver e morrer.

Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a Visão Mundial Internacional e com o Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba, PR. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e Outras Crônicas.




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