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Colunas — Da linha de frente

O povo sou eu -- A luta entre a dignidade e a folclorização do ser humano

Bráulia Ribeiro

Um dos vícios irritantes do discurso político atual são as generalizações sobre o povo. As massas, a “zelite”, os pobres, os desfavorecidos, as oligarquias do lucro, e por aí vai. Cada político tem seu jargão e usa a favor de sua ideologia generalizações que idiotizam seu discurso. Quem fez isso com maestria foi o PT. Estamos praticamente viciados nos lugares-comuns que reduzem o povo brasileiro a noções folclorizadas.

A massa, já disse o sociólogo, é manobrada, o povo é uma mera vítima da zelite e os pobres nunca ditam seu destino. A pobreza, segundo o PT, não é uma circunstância econômica, mas uma condição moral. O ser pobre justifica meus atos e me coloca acima do bem e do mal. A cantilena hipnótica dos males do capital, apesar de anacrônica, é ouvida nos morros do Rio, na boca dos traficantes, nos túneis e nas ruas.

Por ser pobre posso tudo. Mato, roubo, torturo e estupro. Não sou eu, é a luta de “crasse”. Vale tudo nessa visão de mundo bolchevique. Porém, o povo só é aliado enquanto ignorante. Quando sabe, quando protesta, quando exige não é mais povo -- é massa de manobra da zelite, porque pobre não pensa. Um caso recente é o do garoto que filmou o desdém do presidente e os acintes do governador Sérgio Cabral quando pediu pra jogar tênis (tênis não pode -- é esporte de burguês) e nadar na piscina pública, sempre fechada ao público. Ele não é mais um pobre-símbolo, virou um “otário”, nas palavras do governador.

Nossa luta contra o infanticídio indígena esbarrou no mesmo problema: a folclorização conceitual do índio. Índio não é gente. Sua nobreza selvagem paira além do bem e do mal. Por ser diferente da minha, sua cultura é impermeável a julgamentos de qualquer espécie. Não há terreno em comum para a moral. Os índios que falam a favor da vida se tornam traidores de si mesmos, não são mais índios. São “evangélicos” e “pastores”...

Não me surpreende ouvir tais clichês na boca de Dilma. Porém, me supreende ver cristãos comprando o mesmo pacote semântico.

A cosmovisão bíblica pede que questionemos o “pobrismo” que hoje no Brasil é senso comum. O milagre da “imago Dei” atribui o mesmo valor a todos. A noção de que seres humanos têm dignidade intrínseca é a maior contribuição do cristianismo à cultura ocidental. Por causa do Criador, as criaturas nascem com valor, não importam a posição social, a capacidade econômica, a perfeição física ou a inteligência. Temos valor por causa dele, não por causa de nós mesmos. A verdadeira noção de igualdade humana tem de necessariamente admitir uma origem e um valor comum para todos.

Foi esse valor cristão que permitiu ao Ocidente construir uma civilização na qual o indivíduo não existe para o Estado, para sua casta ou tribo, mas o Estado, a tribo e a sociedade existem para o indivíduo. O conceito de direitos humanos inerentes e não delegados pelo Estado só poderia vir a existir a partir da ideia do valor intrínseco do ser humano.

Porque tenho valor, tenho direitos e deveres básicos para com outros seres humanos. Porque tenho valor, tenho direito à escolha de vida, de trabalho, de voto. E tenho o dever de preservar a vida do outro, o dever da construção social. A Bíblia nos manda “não seguir a multidão para fazer o mal” e não exime ninguém de sua responsabilidade moral. Pobres e ricos, doentes e sãos, índios e não-índios, todos pisamos o mesmo chão debaixo do mesmo céu. Deus não faz opção preferencial pelo pobre nem nos desculpa por ignorância.

A construção de um grupo social que só tem direitos e não tem deveres, de uma cultura assistencialista de dependência do Estado e que não valoriza o trabalho, pode ser boa para fins eleitoreiros, mas não é boa para o país. Pode nos tornar mais iguais ao Haiti. Mas, como diz Caetano, o Haiti já é aqui...


Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família e está envolvida em projetos internacionais de desenvolvimento na Ásia. É autora de Chamado Radical.
braulia.ribeiro@uol.com.br

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