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Colunas — Redescobrindo a palavra de Deus

Chamados para expulsar demônios: denúncia de morte, anúncio de vida

Valdir Steuernagel

Era a primeira vez que me aventurava a ir num congresso internacional em inglês -- que, aliás, eu sabia pouco. É claro que não aproveitei muito. Certa noite, projetaram um filme sobre Jesus e fui buscar refúgio em alguma tradução. Porém, houve uma cena que nem precisou de palavras para me falar fundo: o momento em que Jesus, ao descer do monte, encontra-se com um menino que vem subindo a colina. Não sou uma pessoa de detalhes e olhares, mas a cena daquele encontro me marcou profundamente. O olhar de Jesus, a forma como ele tocou a cabeça do menino, tinha tudo a ver com saudação, aceitação, identificação e estabelecimento de relação. Jesus amou o menino e disso não havia dúvida.

É fascinante mergulhar nos Evangelhos e ver como Jesus caminha em meio às pessoas e suas comunidades, construindo com elas uma relação de significado. Logo se estabelece entre eles abertura e confiança, e as pessoas sentem-se à vontade para lhe expor suas vulnerabilidades mais profundas e suas dores mais agudas. Jesus olhava-as com compaixão e via-as como “ovelhas sem pastor” (Mc 6.34). Acolhia-as com abraços, olhares e palavras. As mulheres falavam das doenças que as afligiam por anos, os amigos furavam o teto da casa para baixar o paralítico diante de Jesus, as crianças corriam para os seus braços e eram recebidas com ternura.

Já os demônios... Bem, com eles a história era outra. Diante dele os demônios se sentiam ameaçados e, descontrolados, bradavam: “O que queres conosco, Jesus de Nazaré?”, como aconteceu na sinagoga em Cafarnaum (Mc 1.24). Se com as “ovelhas sem pastor” ele se mostrava terno e receptivo, com os espíritos imundos a conversa era curta e seca. “Cale-se e saia dele!”, disse ele na mesma ocasião (Mc 1.25). O caráter confrontador e libertador dos encontros de Jesus com o maligno é real e suas consequências podem ser imediatamente constatadas.

Um desses encontros, descrito pelos evangelhos sinóticos, acontece na terra dos gerasenos, ocupada predominantemente por gentios, e envolve uma pessoa absurdamente possessa (Mt 8.26-34, Mc 5.1-4, Lc 8.26-39). O encontro não poderia ser mais emblemático e a descrição da realidade desse pobre homem é triste e realista. Não possui nem nome -- só se identifica como “Legião”, pois, “muitos demônios haviam entrado nele” (Lc 8.30). A comunidade não sabe o que fazer com ele; nem as correntes com as quais cidadãos e autoridades locais tentam amarrar, dominar e segurar esse “problema público” resistem à sua força descomunal. Seu perambular público é um escândalo. Quando ele se aproxima, as mães escondem as filhas para poupá-las da vergonhosa cena, enquanto os meninos, em grupos barulhentos, munem-se de paus e pedras para aprofundar o fosso dessa ausência de racionalidade e humanidade. Ora fugindo, ora atacando, o pobre homem busca refúgio no cemitério, pois coisas elementares como casa, família, cama, mesa e banho ele já não tem há muito.

O resultado do encontro de Jesus com esse homem gera comoção na cidade inteira. Findada a “batalha” e amplamente divulgada a notícia, “o povo foi ver o que havia acontecido” (v. 34). Assustados e amedrontados, pedem que Jesus vá embora dali. Uns emudecem, boquiabertos; outros falam sem parar, em claro sinal de nervosismo; mas todos veem o que jamais se poderia imaginar: “O homem de quem haviam saído os demônios estava assentado aos pés de Jesus, vestido e em perfeito juízo” (v. 35). As mães, que ainda ontem escondiam suas filhas à vista do “homem-legião”, agora as conduzem pela mão com assustada tranquilidade. As autoridades, que sempre tinham esse “problema” na pauta das reuniões, agora se entreolham, pasmas. Os meninos, que ontem ajuntavam pedras para atirar naquela “ameaça”, agora ficam cochichando sobre o ocorrido. E “o homem de quem haviam saído os demônios [...], vestido e em perfeito juízo”, assiste a tudo isso com um discreto sorriso nos lábios e sem conseguir tirar os olhos de Jesus. Também, pudera! É difícil descrever uma mudança tão rápida e radical e, -- por que não dizer -- simples. “O problema” de ontem foi transformado não apenas numa pessoa normal, mas também num discípulo de Jesus e testemunha do que ele pode fazer.

É isso que Jesus faz e o que sua presença significa: ele liberta e resgata para a vida. Onde quer que vá, sua presença traz anúncio e denúncia. “Anúncio” de um evangelho que restaura e acolhe a quem quer que cruze o seu caminho, e de forma belíssima, especialmente quem estava acostumado a ser pobre, excluído e desprezado. “Denúncia” de uma realidade de opressão, escravização, desfiguração e morte. Aquele que não tinha nome, passa a ser cidadão. Aquele que espantava, agora acolhe para contar sua história. Quem era problema, passa a ser resposta.

A denúncia de Jesus é também anúncio -- da aurora de uma Nova Esperança a quem até os demônios precisam se submeter. E disso Jesus tem tranquila convicção: “Mas se é pelo dedo de Deus que eu expulso demônios, então chegou a vocês o Reino de Deus” (Lc 11.20). Ainda hoje dizemos: Aleluia!


• Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a Visão Mundial Internacional e com o Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba, PR. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e Outras Crônicas.

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