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Presente e futuro da igreja evangélica no Brasil (parte 1)

Paul Freston

Há quarenta anos os pentecostais eram menos da metade dos evangélicos no Brasil. Estavam crescendo, mas sem a predominância numérica que têm hoje. Aliás, para alguns especialistas da época, parecia que a Umbanda estava crescendo tanto quanto o pentecostalismo. Hoje, ninguém diria isso. Também em 1968 o catolicismo estava se transformando. Foi o ano da famosa reunião dos bispos latino-americanos em Medellín, que introduziu as reformas do Vaticano II na América Latina e consagrou o lema da “opção preferencial pelos pobres”. E logo em seguida surgiu o termo “Teologia da Libertação”. Mas quero colocar as transformações dos últimos 40 anos num contexto maior. Primeiro, no contexto histórico maior, porque estamos falando de transformações que não começaram em 1968, mas vinham de antes (os pentecostais cresciam aceleradamente desde os anos 50). Segundo, no contexto geográfico maior, porque o quadro religioso mudou nestas últimas décadas não só no Brasil, mas na América Latina em geral. E, finalmente, quero abordar as transformações dos últimos 40 anos no contexto do futuro. Vou me arriscar a fazer previsões.

Um especialista da sociologia da religião diz que no Brasil estuda-se basicamente o declínio católico. Evidentemente, um país que nasce como extensão da cristandade européia só poderia experimentar um declínio do catolicismo ao longo dos anos, ainda mais porque a Igreja nunca teve muitos sacerdotes, a prática formal sempre foi baixa e o catolicismo popular, freqüentemente heterodoxo. Mesmo assim, o catolicismo lançou raízes tão profundas que, por muito tempo após a desregulamentação do mercado religioso, poucos abandonaram a Igreja Católica. Mas nestas últimas décadas a Igreja Católica no Brasil e na América Latina passou por uma situação paradoxal. Por um lado, ficou mais importante globalmente. A América Latina tem mais católicos do que qualquer outra região do mundo. Por outro lado, dentro da América Latina o catolicismo está sendo erodido. Hoje, a América do Sul tem mais católicos do que a Europa, mas a Europa tem cinco vezes mais sacerdotes. E na América Latina a proporção de católicos por padre tem piorado.

Hoje, em quase todos os países da América Latina, o pentecostalismo é a “segunda força” religiosa. (Talvez em alguns países a segunda força seja os sem-religião, uma categoria do censo que não significa somente ateus e agnósticos, mas também as pessoas que não querem se declarar adeptas de uma determinada religião institucional.) A maioria das denominações pentecostais foram criadas na América Latina, e o pentecostalismo tem avançado muito entre os povos indígenas. Provavelmente, os evangélicos em geral (históricos e pentecostais) constituam em torno de 12% da população da América Latina. Dois terços desse percentual são pentecostais; o pentecostalismo é o “mainstream” do protestantismo. Porém, alguns estudiosos já falam de uma crise do pentecostalismo. Essa crise seria de estagnação numérica, de falta de prática (um alto índice de pentecostais não-praticantes) e de apostasia (muita gente deixando as igrejas). E a conclusão desses estudiosos é que, num contexto em que mudar de religião se tornou socialmente aceitável, o catolicismo não consegue manter uma alta porcentagem de seguidores não-instruídos, mas o pentecostalismo também não consegue se tornar um verdadeiro fenômeno de massas porque exige muito em termos morais e sociais. Eu acrescentaria outra possível limitação quanto ao crescimento pentecostal: ele perde prestígio devido à sua capacidade limitada de realizar transformações sociais (ao contrário da sua capacidade impressionante de efetuar transformações individuais).

Entretanto, contra a tese de uma crise no crescimento pentecostal, a evidência sugere que na América Latina em geral (e especialmente no Brasil) o pentecostalismo continua crescendo muito. E embora, de fato, haja muitos pentecostais não-praticantes no Chile, no Brasil a situação é outra (86% dos pentecostais afirmam ir semanalmente à igreja). Além disso, a apostasia muitas vezes é uma fase de vida, especialmente para jovens do sexo masculino, que depois voltam para a igreja. Outro dado importante é que diariamente surgem formas social e moralmente menos exigentes de pentecostalismo. Ou seja, o pentecostalismo se adapta cada vez mais e com isso mantém seu crescimento (mas às custas de sua especificidade!).

O Brasil é a capital mundial do pentecostalismo. No censo de 2000, os católicos eram 73% da população (em termos de adesão nominal, pelo menos), os evangélicos eram 15,5% (os pentecostais eram 10,4%) e os sem-religião eram 7%. Dados mais recentes sugerem que os evangélicos hoje estão em torno de 18% da população e que o catolicismo continua perdendo anualmente mais ou menos 1% da população. Os pentecostais estão desproporcionalmente entre as pessoas mais pobres, urbanas, menos instruídas, do sexo feminino e não-brancas. Os católicos são o contrário: desproporcionalmente ricos, rurais, mais instruídos, do sexo masculino e brancos. O pentecostalismo cresce sobretudo nas zonas de mudança populacional, ou seja, nas periferias das grandes cidades e nas fronteiras agrícolas. Por exemplo, nos bairros prósperos de São Paulo os pentecostais não passam de 5%, mas em algumas periferias chegam a 30%.

Em conseqüência dessa face do pentecostalismo, a própria natureza do catolicismo também tem mudado. Antigamente, ser católico era uma identidade cultural (se é brasileiro, é católico). Hoje, ser católico é uma identidade que tem de ser escolhida e assumida (daí os adesivos de carro com os dizeres: “Sou católico, graças a Deus”). Desde o início dos anos 90, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) discute como reagir a essa erosão numérica, propondo inclusive a imitação seletiva de métodos pentecostais. O problema é que a estrutura e a mentalidade católicas não ajudam. É difícil para uma igreja que já foi nacional admitir que concorre com as outras. Depende-se cada vez mais da Renovação Carismática Católica (RCC) para deter o avanço pentecostal, mas isso parece funcionar mais com a classe média. No entanto, em 2006 uma pesquisa mostrou que 30% dos brasileiros urbanos se identificam com a RCC. Este dado é surpreendente; sabia-se que há muita gente nessa ala da igreja, mas não 30% da população! Muitas pessoas se simpatizam com a RCC, talvez por causa do sucesso dos padres-cantores, e então escolhem essa identidade, mas sem se tornarem praticantes.

E a relação entre o pentecostalismo e os sem-religião? Alguns estudiosos acham que o crescimento pentecostal vai dar lugar à secularização, ou seja, a trajetória das pessoas será de catolicismo para pentecostalismo e depois para sem-religião. De fato, os sem-religião vêm crescendo no mesmo ritmo dos pentecostais e justamente nas mesmas periferias e fronteiras, entre pessoas mais jovens e não-brancas. Mas há uma diferença fundamental: os sem-religião são sobretudo homens, e os pentecostais são sobretudo mulheres. Talvez, então, sem-religião seja o substituto do pentecostalismo para rapazes subempregados e ainda sem responsabilidades familiares. Em outras palavras, seria um luxo temporário, a ser substituído na próxima fase de vida pela domesticidade pentecostal. Ainda não podemos ter certeza a respeito disso. Mas a tese do pentecostalismo como um estágio no processo da secularização também não parece ainda bem fundamentada. Aliás, os poucos dados disponíveis sugerem justamente o contrário: há três vezes mais pessoas indo da categoria dos sem-religião para o pentecostalismo do que o contrário.

Na próxima edição, falaremos do futuro da religião no Brasil e as implicações para as igrejas evangélicas.


Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é doutor em sociologia pela UNICAMP. É professor na Universidade Federal de São Carlos e autor de, entre outros, Religião e Política, Sim; Igreja e Estado, Não, da Editora Ultimato.

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