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Seções — Ação mais que social

Portas e janelas vazadas

Klênia Fassoni

A Primeira Igreja Batista em Bultrins, conhecida como “Igreja sem portas e janelas”, deveria ser chamada “Igreja com portas e janelas vazadas”. O templo tem cerca de 13 metros de largura por 21 de comprimento, pé direito alto, chão de cimento e 22 enormes vãos abertos onde seriam colocadas janelas. 

Bultrins tem toda sorte de problemas — e oportunidades — comuns às comunidades pobres. Em toda a Vila Esperança, no raio próximo da IBB, com aproximadamente 300 famílias, há apenas uma pessoa com curso superior completo. Gravidez aos 12 ou 13 anos é rotina na vida das meninas. Há violência, drogas, álcool, condições precárias de trabalho, falta de infra-estrutura e serviços básicos. O evangelho pode mudar esta realidade? 

Hospedei-me na casa de Luciano e Luciene, irmãos cujas vidas exemplificam o que o evangelho pode fazer quando entendido de forma integral. Casada com Amaro, mãe de Pedro Henrique (um mês de vida), Luciene converteu-se há sete anos. Cursa o último ano de biologia em uma faculdade particular e trabalha em um consultório odontológico. Foi a igreja que despertou o seu sonho de estudar e a encorajou e ajudou financeiramente quando foi necessário. Luciano, 24 anos, com emprego fixo há apenas dois anos, quer estudar história. Quando adolescente, cuidou do pai doente por alguns anos. Foram o encontro e a reconciliação com Jesus, há cinco anos, e a convivência com a igreja que o ajudaram a sair da depressão. Foi ele quem me mostrou as vielas e os becos do “monte” da Vila Esperança. Luciano conhece bem os problemas de sua comunidade e tem o objetivo de servi-la. Contando com os dois irmãos e Amaro (que faz administração), ao todo são oito universitários na Vila Esperança, cinco deles aprovados no vestibular este ano após preparo no cursinho mantido pela igreja. 

A IBB possui um colegiado de oito pastores, a maioria auto-sustentada por sua própria renda. Em certos aspectos é igual às outras: escola bíblica dominical, culto à noite, recolhimento de ofertas, batismo (no mar). Em outros, difere da maioria das igrejas evangélicas, principalmente por sua forte inserção na comunidade, o que não é apenas uma questão de portas e janelas vazadas: mantém uma rádio comunitária, sustenta uma escola para crianças em idade pré-escolar com noventa alunos, organiza o cursinho pré-vestibular e faz da igreja um espaço efetivo de participação da comunidade. 

A família de Luciano foi uma das dezessete que receberam como hóspedes em suas casas os participantes do VI Fórum Popular de Reflexão Teológica, realizado de 15 a 17 de novembro de 2007, com o tema “Igreja, Comunidade e Trabalho”. Foram mais de trezentos participantes vindos da comunidade local, de Recife e Olinda e de outros estados do Nordeste. As refeições eram preparadas por senhoras da igreja e servidas em uma escola. A rua em frente à igreja foi fechada para dar espaço às barracas de comida, roupas e brincadeiras para crianças. Na abertura do fórum, um grupo de meninas apresentou uma bonita coreografia da música “Cio da Terra”, de Milton Nascimento. A programação foi marcada por apresentações da cultura popular: grupos de frevo, hip-hop, forró, música africana, roda de ciranda, cantadores, declamadores, repentistas, música de raízes. 

Ouvimos sobre trabalho escravo, trabalho infantil, discriminação racial e gênero no mercado de trabalho e desigualdade. Na sacola dos participantes havia um folder da prefeitura alertando sobre o perigo de mulheres serem aliciadas por estrangeiros: há muitos casos de exploração sexual e tráfico de órgãos em Recife. A cidade está entre as duas mais violentas do Brasil e tem o pior nível de renda para mulheres negras. Dona Graça e dona Djanira, vendedoras ambulantes de quitutes, testemunharam como têm sustentado suas famílias com este trabalho e como Deus as tem sustentado em sua luta diária. 

Todas as edições do fórum têm sido marcadas pelo esforço em refletir sobre a missão cristã a partir das duas instâncias da vivência do povo de Deus: a igreja e a comunidade. Nada melhor que, enquanto refletimos, vivermos a experiência em “laboratório”, e, ao retornar às nossas casas, voltarmos à pergunta: o que o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo pode fazer para mudar a realidade dos pobres em nosso país?

45 anos de “Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro”
O fórum rememorou os 45 anos da Conferência do Nordeste, a quarta e última conferência promovida pela Confederação Evangélica Brasileira (CEB), em 1962. Fomos lembrados de que a conferência reuniu 167 delegados, dezesseis denominações evangélicas e dezessete estados no Colégio Agnes e no Colégio Batista Americano, em Recife, para um encontro de oito dias entre teologia e realidade social, de evangélicos e intelectuais. A abertura foi feita pelo bispo Almir dos Santos, que pregou sobre o Manifesto de Nazaré, com base em Lucas 4.16-20. Celso Furtado, Paul Singer, Juarez Brandão Lopes e Gilberto Freire eram alguns dos intelectuais presentes. Foi nessa ocasião que Gilberto Freire, comentando a pequena influência do protestantismo na cultura, declarou: “Os protestantes são bons de gramática e ruins de literatura”.


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