Apoie com um cafezinho
Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Capa

O Mineiro com Cara de Matuto em Aparecida

O Santuário Nacional de Aparecida foi construído “com o palpite dos ricos, as críticas dos padres e o dinheiro do povo”

A história de Nossa Senhora Aparecida
Alguém jogou nas águas do rio Paraíba do Sul uma pequena imagem de Maria que teria sido feita pelo monge beneditino Agostinho de Jesus, em meados do século 17. Ninguém sabe ao certo quem fez isso. Certamente não foi nenhum evangélico porque naquele tempo não havia protestantes no Brasil, a não ser alguns poucos europeus residentes no país. A queda fez com que a cabeça da imagem se separasse do corpo. Ambos os pedaços foram para o fundo do rio e foram arrastados de um lado para o outro, arranhando, machucando e escurecendo a modesta imagem moldada em terracota. 

Algum tempo depois, em outubro de 1717, quando se comemorava na Europa e na América do Norte o segundo centenário da Reforma Religiosa do século 16, o corpo da imagem se prendeu nas malhas da rede de pesca de um homem chamado José Alves. Ele recolheu a imagem e colocou-a na pequena canoa. Pouco mais à frente, a cabeça da imagem também se enroscou na rede e foi trazida para cima. Por fim, naquele mesmo dia, José Alves e os outros dois pescadores conseguiram encher de muitos peixes o barco e voltaram para casa, impressionados com a “aparecida”, isto é, a imagem da Virgem Maria, e com a pesca maravilhosa. Foi nesse lugar, nessa ocasião e nesse episódio que surgiu mais um nome para a mãe de Jesus — Nossa Senhora Aparecida. Foi exatamente aí que começou a ser construída a gigantesca estrutura em que se apóia o catolicismo popular brasileiro. Depois da construção de um pequeno oratório no Porto de Itaguaçu (1733) e dos milagres que começaram a acontecer, a devoção mariana foi crescendo e adquirindo vulto cada vez maior. 

A primeira igreja dedicada a ela foi inaugurada em 1745. Quase 150 anos depois, o bispo de São Paulo inaugurou uma nova igreja (1888), que se tornou basílica em 1909. Por ser pequena demais para abrigar os romeiros que vinham de todas as partes do país, foi construída uma nova e imensa basílica, consagrada pelo papa João Paulo II em sua visita ao Brasil, em 1980. Paralelamente a isso tudo, outras conquistas começaram a surgir. Em 1900 nascia o jornal Santuário de Aparecida; em 1930, por decreto do papa Pio XI, Nossa Senhora Aparecida tornou-se a padroeira do Brasil e, em 1951, foi fundada a Rádio Aparecida. Entre 1965 e 1968 a imagem de Aparecida gastou 508 dias percorrendo 45 mil quilômetros para visitar 1.300 localidades brasileiras. Em 1984 a Basílica de Aparecida tornou-se Santuário Nacional, em 2005 a TV Aparecida começou a funcionar e, mais recentemente, em maio de 2007, a cidade hospedou o papa Bento XVI e a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho.

Gentilezas aqui e acolá
Cinco dias depois da abertura da Conferência que reuniu 162 bispos de toda a América Latina e Caribe, o Mineiro com Cara de Matuto desceu do ônibus que faz o percurso Viçosa–São Paulo, na Via Dutra (BR 116), na altura de Aparecida, defronte ao posto da polícia rodoviária. Eram cinco horas da manhã. Como não conseguisse um táxi para levá-lo até o seu destino, um dos policiais rodoviários se dispôs a levá-lo até o Hotel Paradise numa das viaturas da polícia. Estando já no centro da cidade e sem saber localizar o hotel, o policial pediu ajuda a um motorista de táxi que o guiou até o lugar desejado. O Mineiro ficou surpreso com tanta delicadeza logo ao chegar e começou a gostar de Aparecida. Depois de redigir oito perguntas que iria fazer ao teólogo colombiano Harold Segura, um dos quatro observadores protestantes presentes à Conferência, o Mineiro precisou de alguém para digitar as questões. (Veja Não ao analfabetismo bíblico.) Uma senhora libanesa que estava na portaria do hotel se prontificou a fazê-lo. Antes, porém, ela perguntou ao estranho hóspede por que ele havia chegado ao hotel num carro da polícia (a cena havia sido filmada pelo sistema de segurança do hotel). A gerente ficou satisfeita com a explicação dada. 

À tarde, o Mineiro estava fotografando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida maior do que ele (1,80 metros) na loja Santuário dos Apóstolos, no Centro de Apoio aos Romeiros, e acabou batendo um agradável papo com o proprietário, Renato Chad, dono também do restaurante Santuário dos Apóstolos e do Patrícia Palace Hotel. Outra vez teve uma boa impressão do povo de Aparecida, pois este senhor, quando soube que o Mineiro era pastor, colocou-o em contato telefônico com o pastor Luiz Carlos Mendonça. Renato Chad foi candidato a prefeito nas últimas eleições e é descendente de libaneses, que se fixaram em Aparecida antes mesmo dos padres redentoristas da Baviera (a região mais católica da Alemanha), em outubro de 1894. 

Luiz Carlos é um dos fundadores da Igreja do Evangelho Vida Abundante, que tem 80 igrejas e 62 templos no Vale do Paraíba. A maior delas é a Catedral de Lorena, com 2.500 lugares. Por ser quase sósia de Pelé, bastante empreendedor e cuidadoso quanto aos relacionamentos humanos, o pastor é muito conhecido na região. Ele tem duas emissoras de rádio, uma em Aparecida e outra em Lorena, e acaba de lançar o primeiro número do jornal O Monumental. Tanto as rádios como o jornal são empreendimentos de caráter secular. A ONG CESIEVA (Centro Social da Igreja do Evangelho Vida Abundante) deverá passar a administrar os dois presídios de Potim, nas imediações de Aparecida.

Mais imagens nas lojas do que pães nas padarias
Mais próxima de São Paulo (169 quilômetros) do que do Rio de Janeiro (255 quilômetros), Aparecida é uma cidade de apenas 36 mil habitantes que vive em função da história, do catolicismo e do turismo religioso. Nela deve haver mais lojas do que gente e mais imagens de Nossa Senhora Aparecida à venda nessas lojas e no mercado ambulante do que pães nas padarias. Há pelo menos 52 fábricas de imagens na região. Só a fábrica de Zely Jeha, na vizinha Guaratinguetá, produz cerca de 4 mil peças por mês. Quantidades cada vez maiores de imagens estão sendo fabricadas na China e vendidas no Brasil a preços bem mais acessíveis (a imagem menor, medindo dez centímetros, é vendida por dois reais e a maior, com 1,80 metros de altura, sai por 1.500 reais). 

Em 1888, pouco depois de sancionar a Lei Áurea que aboliu a escravidão negra no Brasil, e ter sido condecorada pelo papa Leão XIII com a Rosa de Ouro, a princesa Isabel, então com 42 anos, levou para Aparecida a famosa coroa de ouro cravejada de diamantes e rubis, como pagamento de uma promessa feita vinte anos antes. Mas a imagem só foi coroada 16 anos mais tarde (1904). 

Com a presença do núncio apostólico e do presidente Getúlio Vargas, Nossa Senhora Aparecida foi aclamada padroeira e rainha do Brasil no dia 31 de maio de 1931, numa reunião realizada na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal.
 
Criada em 1958, a Arquidiocese de Aparecida tem 16 paróquias e um santuário, 24 padres do clero secular, 123 religiosos e 190 religiosas. 

Causou uma agradável surpresa ao Mineiro a grande quantidade de Bíblias encontrada não só nas livrarias da Editora Santuário como nas lojas seculares. Eram pilhas de Bíblias colocadas ao lado de pilhas de imagens de Nossa Senhora Aparecida, como no caso da já citada loja de Renato Chad. Uma funcionária da livraria católica mais próxima da Basílica Velha acredita que são vendidos mais exemplares do livro sagrado do que de imagens. 

Num pequeno jardim interno do Memorial Redentorista havia uma curiosa imagem de Jesus na cruz, mas com os braços soltos e levantados, como se fosse uma cena da ressurreição ou da ascensão. Ali havia também um quadro trazendo um comentário sobre o dízimo: “Para ser justo, antes de definir de quanto vai ser o seu dízimo, é bom você falar com Deus”. Em geral os católicos chamam de dízimo uma contribuição variável, que corresponde a cerca de 1% das entradas mensais. No caso protestante, o dízimo é 10% de toda receita. Esta é a razão pela qual a contribuição média dos protestantes (2,26% da renda) é bem maior que a dos católicos (0,54%), embora a renda média mensal destes (2.023 reais) seja mais alta que a dos protestantes (1.496 reais), de acordo com dados obtidos recentemente em uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas.

Uma cidade acentuadamente religiosa
Cerca de 110 mil romeiros visitam Aparecida a cada final de semana. Chegam geralmente na noite de sexta-feira e deixam a cidade no domingo à tarde. A maior parte pertence à classe média. Além de artigos religiosos, eles compram uma infinidade de outros objetos. Há cerca de 2.500 vendedores ambulantes do lado de fora dos muros da basílica. 

Para abrigar esse pessoal todo, a cidade conta com uma rede hoteleira de pelo menos 98 hotéis. Vários hotéis e casas têm nomes religiosos: Hotel Nossa Senhora de Fátima, Hotel Nossa Senhora das Graças, Hotel Nossa Senhora de Lourdes, Hotel Nossa Senhora Aparecida, Hotel São Benedito, Hotel São Dimas, Hotel São Francisco, Hotel São Gabriel, Hotel São Jorge, Hotel São Luis, Hotel São Matias, Hotel São Paulo, Hotel São Pedro, Hotel São Roque. Na rua Monte Carmelo, o Mineiro encontrou uma loja com um nome curioso: Loja de Todos os Santos, Anjos, Arcanjos, Querubins e Serafins. Um dos restaurantes tem um nome que transgride o terceiro mandamento: chama-se Restaurante Santa Ceia. Outro se chama Maria Maria Restaurante. O destacamento militar responsável pela segurança do papa (cerca de 3 mil homens) recebeu o nome de Operação Arcanjo. E na rua Anchieta, os coletores de lixo têm a forma de sino. Talvez Paulo dissesse a respeito de Aparecida o mesmo que disse a respeito de Atenas: “Vejo que em todos os aspectos vocês são muito religiosos” (At 17.22, NTLH). 

Ao voltar da basílica para o hotel no final de um dia muito cheio, o Mineiro passou por duas freiras mexicanas não muito jovens que pareciam tão exaustas quanto ele. Ele as cumprimentou, apresentou-se como pastor, abriu a bolsa para oferecer-lhes um exemplar da revista Ultimato e verificou que não tinha mais nenhum. Então propôs enviá-lo pelo correio, caso elas quisessem. Imediatamente a irmã Mercedes León deu seu endereço postal e contou que havia trabalhado durante algum tempo num centro de refugiados guatemaltecos dirigido pela Igreja Presbiteriana do México. Por incrível coincidência, encontraram-se novamente no dia seguinte no interior da basílica, em meio a milhares de fiéis, e o Mineiro aproveitou a oportunidade para lhes dar a prometida revista. 

No saguão do Hotel Cathedral, onde a maioria dos bispos estava hospedada, o Mineiro encontrou no estande da Editora Santuário, dos padres redentoristas, dois títulos corajosos: Um Espinho na Carne, do padre e missionário italiano Gino Nasini, publicado em 2001, e Delitos e Crimes na Igreja Católica, do padre e vigário judicial alagoano José Francisco Falcão de Barros, publicado em 2006. O primeiro aborda uma questão delicada: a má conduta e o abuso sexual por parte dos clérigos da Igreja Católica no Brasil (286 páginas), e já foi lido e comentado pelo Mineiro (Ultimato, julho/agosto de 2002). O segundo expõe os mecanismos de correção fraterna dentro da Igreja Católica para enfrentar com sabedoria e caridade os graves escândalos provocados por seus filhos (336 páginas). Na primeira orelha, o autor menciona alguns desses escândalos: pedofilia, revelação do segredo de confissão, homossexualismo, improbidade administrativa, truculência no exercício de autoridade, graves abusos na sagrada liturgia, ensinamentos e difusão de doutrinas condenadas pelo Magistério etc.

A basílica foi construída “com o palpite dos ricos, as críticas dos padres e o dinheiro do povo”
A Basílica de Aparecida é algo fantástico, quanto à beleza arquitetônica, quanto ao acabamento, quanto à decoração, quanto às dimensões, quanto à acústica e quanto à multiplicação de imagens do que ocorre no altar central. Ela comporta normalmente 45 mil pessoas, mas pode abrigar até 70 mil. O estacionamento mede 272 mil metros quadrados e tem vagas para 6 mil carros e 4 mil ônibus. O templo tem quatro acessos que coincidem com os quatro pontos cardeais. O piso térreo abriga ainda cinco capelas (a Capela do Santíssimo, a Capela de São José, a Capela das Velas e duas Capelas de Passagem) e a torre quadrada (20 x 20 metros), com 100 metros de altura (onde se encontram a administração, a central de informação, o museu de arte sacra e o mirante). No subsolo encontram-se a sala das promessas, a sala dos romeiros, o salão de conferências, o setor de batizados, o setor das confissões, o ambulatório médico e o berçário, além de cinco grandes sanitários, dois lavatórios e um bazar. No setor externo, encontram-se a sala de segurança patrimonial, a sala dos motoristas, a sala de exposições, o lugar da venda de velas e o amplo Centro de Apoio aos Romeiros (uma espécie de shopping center). Um corredor largo, comprido e coberto liga o santuário à Praça de Alimentação, de onde saem quatro corredores que conduzem os romeiros a 750 lojas, cada uma ocupando um espaço de nove metros quadrados. Num dos lados do Centro de Apoio aos Romeiros encontra-se o Aquário de Aparecida, idealizado e construído pelo oceanógrafo Eduardo Radwanski, que reúne noventa espécies diferentes de peixes, anfíbios e répteis. Próximo dali está sendo construído o Centro de Eventos, um estádio coberto que poderá abrigar 10 mil pessoas assentadas. O complexo todo pertence à Basílica de Aparecida e está sob sua administração. É por essa razão que a basílica é reconhecida como o maior santuário mariano do mundo.
 
O Mineiro não sabe dizer qual a principal fonte de receita da basílica. Há dezenas de gazofilácios, dispostos ao longo dos bancos nas quatro naves, para recolher as ofertas dos fiéis e romeiros. O bispo auxiliar Dom Antônio Ferreira Macedo, que foi encarregado pelo cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota de dirigir a construção da basílica em julho de 1955, dizia que “o novo Santuário foi construído com o palpite dos ricos, as críticas dos padres e o dinheiro do povo”. Todavia, não foi só o povo que levantou a basílica: a estrutura de aço da torre de 17 andares, por exemplo, foi doada pelo governo federal durante a presidência de Juscelino Kubitschek. A construção e o asfaltamento do grande pátio do Santuário também foram feitos com verba federal.

“A Cruz do Nada, onde está Tudo”
Embora conhecido como Santuário Mariano, o conjunto arquitetônico da Basílica de Aparecida conduz os fiéis e os romeiros muito mais a Jesus do que a Maria. O principal responsável pela reforma artística, o artista plástico Cláudio Pastro, 59, um leigo católico profundo conhecedor da arte sacra (em recente entrevista na Folha de São Paulo, ele é chamado de “o Michelangelo brasileiro”), diz que o “o mistério da redenção de Cristo é o centro, o referencial novo da história humana e seu desígnio”. É por isso que, uma semana antes da chegada de Bento XVI, Pastro colocou uma cruz vazada pendente da grande cúpula bem em cima do Altar Central para ser “o eixo em torno do qual orbitamos”. A respeito do altar colocado bem no centro das quatro naves, o artista diz que é dali “que pulsa o sangue de Cristo para a vitalidade da sua igreja”. No seu entender, a entrada principal da basílica, a ala norte, que marca o limiar entre o espaço externo (profano) e o lugar sagrado, “é a porta de entrada, o próprio Cristo, que é o princípio e o fim, Alfa e Ômega”. A cruz dependurada sobre o altar mede sete metros de altura, pesa oitocentos quilos e foi feita de aço vazado. Pastro diz que ela é “a Cruz do Nada, onde está Tudo, sinal da presença do Invisível, o Cristo entre nós”. 

Maria está presente em algumas esculturas e painéis. Mas não é a única mulher que decora a basílica. Num painel colocado acima das portas de entrada da nave norte, tanto à direita como à esquerda da figura de Jesus, os artistas colocaram três ou quatro mulheres de cada século que seguiram o Senhor, desde Maria Madalena até Teresa D’Ávila, Joana D’Arc, Madre Tereza de Calcutá, Irmã Dulce e a Irmã Dorothy (missionária americana assassinada no Brasil).

A Passarela da Fé
Em uma das suas andanças pelo Santuário, o Mineiro encontrou-se com um homem negro de 57 anos, usando colarinho episcopal. Certo de que se tratava de um padre, dirigiu-se a ele chamando-o de padre. O homem, extremamente cortês, explicou que era bispo da Diocese de Bagé, no Rio Grande do Sul. Perguntado se recebia a revista Ultimato, Dom Gílio Felício respondeu que sim, mas quando era bispo auxiliar na Bahia. Dos 434 bispos existentes no país, apenas 11 são afro-descendentes (2,5% do episcopado), e Dom Gílio é um deles. 

No dia seguinte, naquele mesmo lugar, apesar do movimento e do barulho intenso, o Mineiro conseguiu ouvir com atenção a belíssima “Ave Maria”, do compositor francês Charles Gounod (1818-1893), que só não se ordenou padre por causa de sua vocação artística. Ali, em um palco improvisado, quem estava cantando era Walquíria Mariotto, “a cantora oficial do Santuário”. 

Como o teleférico que liga a rua Anchieta à Basílica Velha já havia fechado, o Mineiro subiu a pé a rua Monte Carmelo para chegar até lá. Logo no início dessa rua havia uma casa que Eugênio Fachini, presbiteriano residente em São Paulo, comprou e mobiliou no ano de 1921 para abrigar a pequena congregação presbiteriana organizada naquele mesmo ano pelo pastor André Jensen, nascido na Dinamarca e então pastor da Igreja Presbiteriana de Copacabana, no Rio de Janeiro, RJ. Jensen ia de trem uma vez por mês a Aparecida para cuidar do trabalho. Chegou a fundar o jornal Aparecida Evangélica, mas tanto a congregação como o modesto jornal tiveram vida curta. A presença calvinista incomodava os quatorze padres da cidade, especialmente o padre Otto Maria, cujos restos mortais estão numa gaveta do Memorial Redentorista. André Jensen correu risco de vida e teve de pedir garantia ao governador do Estado (Os Bandeirantes da Reforma, 2007, p. 104-111). 

Além da basílica nova, o Mineiro visitou também a Basílica Velha, erguida no ponto mais alto de Aparecida (Morro dos Coqueiros) e construída ao longo de 44 anos (de 1844 a 1888), o Memorial Redentorista, a Livraria Santuário, a Tenda dos Mártires e o Porto do Iguaçu. Fez questão de percorrer os quatrocentos metros da Passarela da Fé, que liga uma basílica a outra. Custeada pelo então presidente Emílio Médici, a obra, que se apóia sobre onze pilares e cuja altura varia de 18 a 35 metros, foi inaugurada em 1971. Como nos últimos seis anos quatro pessoas se suicidaram pulando da passarela, a concessionária que administra a via Dutra aumentou, agora em 2007, a altura da grade protetora de 1,3 metro para 3,3 metros. Quase no final da caminhada, o Mineiro viu uma senhora fazendo o mesmo trajeto de joelhos. Entabulou uma conversa com o marido dela e ficou sabendo que o casal era de Juiz de Fora, MG. Pedro Severino é um pedreiro aposentado e há mais de vinte anos organiza excursões a Aparecida. A esposa Ana, de 50 anos, estava pagando uma promessa porque Deus, por intermédio da santa, havia curado a neta de sete meses, que nasceu com “coração grande”.

O profeta não fica quieto
Na Tenda dos Mártires, armada nas proximidades da basílica, o Mineiro conversou com Elaine Chaves e Donaldo Araújo, ambos da Pastoral Operária Nacional. Na madrugada daquele domingo, a Tenda havia recebido seis mil romeiros vindos da vizinha cidade de Roseira, onde haviam participado de uma vigília e depois foram caminhando até Aparecida (cerca de dez quilômetros). Integravam o grupo representantes de diversas pastorais e movimentos da Igreja Católica (Pastoral Operária, Pastoral Carcerária, Pastoral da Mulher Marginalizada, Pastoral da Moradia, Comunidades Eclesiais de Base, Serviço Pastoral dos Migrantes, Fórum de Luta dos Trabalhadores e Trabalhadoras Desempregados, Conselho Nacional do Laicato, Irmãs Paulinas etc.). Traziam uma carta aberta aos participantes da V Conferência do Episcopado Latino-americano e Caribenho, desejando chamar a atenção dos bispos para a opção pelos pobres, “proclamada em Medellín [onde se reuniu a II Conferência] e reafirmada em Puebla [onde se reuniu a III Conferência] e Santo Domingo [onde se reuniu a IV Conferência], e um mandamento do Senhor, que está na base de toda ação evangelizadora” (Lc 4.16-21, Mt 11.2-6). 

Em um pequeno boletim que o Mineiro trouxe da Tenda dos Mártires estava escrito: 

“Povo em romaria é povo em marcha. Povo que se move em massa faz mover a história. Multidões nas ruas ou nos campos, multidões a caminho, constituem um motor de transformação. Com os pés e os joelhos no chão e os olhos no horizonte, os peregrinos interrogam a sociedade, com suas múltiplas instituições. Denunciam injustiças e as desigualdades sociais. Ao mesmo tempo, consciente ou inconscientemente, anunciam uma nova ordem socioeconômica e político-cultural. Além de mover-se a si mesmo e à história, um povo em marcha move também a própria Igreja. A romaria, por si só, é símbolo de uma utopia a caminho” (texto escrito pelo padre Alfredo J. Gonçalves). 

Na página seguinte havia a seguinte explicação: “A mística do profeta não agrada, não acalma. Ela é violenta e desinstala! O profeta não fica quieto, mas critica e sugere as ações concretas possíveis”. 

Naquele grande barracão havia um cartaz com a seguinte inscrição: “O mundo é nossa pátria”. O Mineiro lembrou-se da famosa frase de John Wesley, o fundador do metodismo: “O mundo é a minha paróquia”. E também daquele pronunciamento de Sócrates que ele leu na estação da Cidade Universitária do metrô de Lisboa: “Não sou ateniense nem grego, mas, sim, cidadão do mundo”. 

Na avenida Itaguaçu, logo após a Tenda dos Mártires, o Mineiro viu um outdoor no qual estava escrito: “Vote Cristo”. O entusiasmo desapareceu logo, quando ele percebeu que não se tratava de um convite para receber Jesus como Salvador e Senhor, mas para eleger o Cristo Redentor de concreto armado, no alto do Corcovado, como uma das novas Sete Maravilhas do Mundo. E, para encerrar sua estada de dois dias e meio em Aparecida, o Mineiro fez um passeio de balsa no rio Paraíba do Sul, até o lugar onde, 290 anos atrás, João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Martins pescaram o corpo e a cabeça da imagem de Nossa Senhora Aparecida.

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI.

Ultimato quer falar com você.

A cada dia, mais de dez mil usuários navegam pelo Portal Ultimato. Leem e compartilham gratuitamente dezenas de blogs e hotsites, além do acervo digital da revista Ultimato, centenas de estudos bíblicos, devocionais diárias de autores como John Stott, Eugene Peterson, C. S. Lewis, entre outros, além de artigos, notícias e serviços que são atualizados diariamente nas diferentes plataformas e redes sociais.

PARA CONTINUAR, precisamos do seu apoio. Compartilhe conosco um cafezinho.


Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.