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Colunas — Ponto final

Bens e bênçãos

Rubem Amorese

Procurou-me, recentemente, um jovem irmão inconformado com sua sorte. Crente novo, esforçado e ávido por crescimento espiritual, não conseguia entender a razão por que Deus não o abençoava muito com bens materiais. 

Servidor público, esposa por conta dos filhos pequenos, trabalhando de dia e estudando de noite, ele levava uma vida dura, mas não era exatamente um necessitado. No entanto, achava que, comparativamente a outros irmãos “na mesma faixa”, estava sendo deixado para trás por Deus. 

Perguntei-lhe por que pensava assim. Ele apontou alguns amigos comuns. Um lhe dissera que estava comprando um carro novo, enquanto o seu já estava bem batido; outro dera entrada no apartamento da família, e ele ainda morava de aluguel; outro, ainda, estava chegando de viagem ao exterior, com toda a família, coisa que ele nem podia considerar, por enquanto. Disse que podia citar muitos outros exemplos. 

Fiquei pensando na frustração do irmão. No momento, disse-lhe que não devia se comparar com seus irmãos, pois as circunstâncias de vida eram diferentes. Que confiasse na justiça e no amor do Pai. Mas ele me respondeu: “O que custa a Deus me dar também um pouquinho de seu ouro e de sua prata?” Não pude deixar de notar uma pontinha de inveja e inconformismo. 

Fiquei com a perplexidade do irmão no coração. Então, passei a observar mais de perto os exemplos que ele apresentara, pedindo a Deus que me ajudasse a discernir o cenário. 

Desde então, tenho aprendido que é tarefa elevada demais, tanto para o irmão quanto para mim, buscar uma resposta para essas diferenças. Se Deus dá cinco talentos a um, dois a outro, e um ao terceiro, “segundo a sua própria capacidade” (Mt 25.15), que posso dizer? Isso apaziguou meu coração. Deus sabe! 

No entanto, não foi de todo infrutífera a observação sistemática dos “exemplos de sucesso”. Descobri que aquele que comprara o carro luxuoso tivera ajuda do sogro, que queria ajudar a filha, e não necessariamente o genro. O que financiara um apartamento contraíra uma dívida de 25 anos, no limite de sua capacidade máxima de endividamento, e dera de entrada o carro que a esposa trouxera para o casamento, passando a família a andar de ônibus e metrô. O que viajara à Disney levara crianças pequenas demais para apreciar a viagem e ainda se endividara por doze meses, período este em que “não poderia nem pensar em ofertas à igreja”. 

Esta última observação me pareceu gratuita, a princípio, mas levou-me de volta ao irmão frustrado para perguntar-lhe como entendia a questão de dízimos e ofertas. Ele me disse que isso era “acordo fechado” na vida do casal: “Primeiro o Senhor; depois as despesas”. Surpreso e curioso, voltei aos nossos “abençoados” e descobri que só ofertavam “quando a situação permitia”, ou seja, raramente. Que contraste! 

Mesmo sem respostas finais, já tenho uma pergunta a fazer ao irmãozinho: Será realmente abençoada uma alma incapaz de ofertar ao Senhor? Será que esses bens são, de fato, bênçãos? “Melhor é o pouco, havendo o temor do Senhor, do que grande tesouro onde há inquietação” (Pv 15.16). 


Rubem Amorese é consultor legislativo no Senado Federal e presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. É autor de, entre outros, Louvor, Adoração e Liturgia, Meta-História — a história por trás da história da salvação e Icabode — da mente de Cristo à consciência moderna.
ruben@amorese.com.br

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