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Especial — A virgem americana

A virgem americana

Em junho de 1969, o conhecido evangelista norte-americano Billy Graham, então com 50 anos, pregou dez noites seguidas no Madison Square Garden, em Nova York. Três desses sermões foram transmitidos ao vivo em mais de trezentas emissoras por todos os Estados Unidos e em mais de 60 emissoras no estrangeiro. O evangelista procurou sacudir a consciência religiosa dos americanos. Mostrou-lhes a diferença entre ser religioso e ser cristão. Oitenta por cento dos adultos eram membros de alguma igreja ou sinagoga, mas não praticavam sua religião. O verdadeiro cristão, o discípulo de Jesus, dizia Graham, “precisa viver debaixo da soberania de Cristo, precisa nascer de novo, precisa arrepender-se do pecado, precisa converter-se, precisa entrar numa relação pessoal com Cristo”. 

Para mostrar a incoerência religiosa da época, Graham lembrou a violência praticada em Nova York (mais de 200 mil janelas de escolas quebradas e mais de 300 mil cabinas telefônicas danificadas na cidade no ano anterior), a pornografia generalizada, a quantidade enorme de crianças nascidas fora do casamento e de doenças venéreas (“mais do que em qualquer outra época da nossa história”). Em uma das conferências, Billy Graham contou que em certa prisão americana 65% dos reclusos eram batistas, de acordo com o governador daquele Estado. Em outra, citou o seguinte pronunciamento da então jovem e popular romancista Susan Sontag (morta em 2004, aos 71 anos): “Os Estados Unidos são um país condenado. Só peço a Deus que quando eles caírem, não arrastem o resto do planeta”. 

O livro O Escândalo do Comportamento Evangélico, do americano Ronald J. Sider, publicado nos Estados Unidos em 2005 e no Brasil no ano seguinte (Editora Ultimato), mostra que, 38 anos depois dos desafiadores sermões de Billy Graham, a igreja americana, à semelhança da igreja coríntia e da igreja do século 16, continua longe de ser uma virgem intacta. Basta ler algumas denúncias de Sider, professor de teologia e ministério holístico, mais enfáticas e assustadoras que as de Graham em 1969:

“Nosso estilo de vida como evangélicos tem demonstrado uma negação prática do milagre [da transformação] em nossa vida” (p. 30). 

“O que está na moda atualmente é o evangelho da satisfação pessoal” (p. 86). 

“O mundanismo radical que permeia a sociedade tem se espalhado pelas igrejas na forma de racismo, promiscuidade sexual, materialismo e facilidades para o divórcio” (p. 107). 

“Nenhuma passagem bíblica retrata com tanta clareza a situação da igreja norte-americana como a mensagem à igreja de Laodicéia. Assim como a igreja norte-americana, a igreja de Laodicéia era rica, auto-suficiente e morna” (p. 123). 

“Temos enlameado o santo nome [do Senhor] com nosso estilo de vida imoral. Sim, nós cremos que ele é Salvador. Afinal, somos cristãos, não somos pagãos. Mas as nossas crenças não são fortes o suficiente para produzir estilos de vida corretos. Queremos Jesus e Mamon. A menos que nos arrependamos, o Senhor nos vomitará de sua boca” (p. 124).

Sider diz que “nos Estados Unidos, o divórcio é mais comum entre cristãos ‘nascidos de novo’ que entre a população em geral” (p. 13). Conta que, em 2004, pesquisadores das Universidades de Columbia e Yale constataram que as taxas de doenças sexualmente transmissíveis foram quase idênticas entre os adolescentes evangélicos que tinham feito o compromisso de esperar o casamento para se iniciarem sexualmente e os que não o fizeram. E cita o pronunciamento de Michael Horton: “Os cristãos evangélicos estão aderindo a estilos de vida hedonistas, materialistas, egoístas e sexualmente imorais com a mesma propensão que o mundo em geral” (p. 17). 

O autor americano Bill McKibben escreve que “os Estados Unidos são o país que mais se declara cristão e menos age como cristão” (Folha de São Paulo, 31/05/07, p. 2).

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