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Colunas — História

Erasmo Braga: Um Líder Singular no Protestantismo Brasileiro

Alderi Souza de Matos

A história do protestantismo deve os seus maiores feitos à atuação de indivíduos que se destacaram por sua inteligência, energia, visão e capacidade de mobilizar os seus correligionários em torno de grandes causas. Desde o século 16, a Europa, a América do Norte e até mesmo algumas regiões do hemisfério sul têm revelado muitos exemplos notáveis desses grandes líderes. No Brasil, todavia, o movimento protestante tem sido pobre em termos de personalidades cuja atuação tenha exercido uma influência salutar e construtiva sobre as igrejas em geral. O que tem ocorrido no ambiente evangélico parece ser o oposto: líderes que, apesar das suas qualificações e das expectativas que despertam, não têm se mostrado à altura das suas posições e responsabilidades, causando decepção e desalento. Porém, nas primeiras décadas do século 20 viveu um personagem excepcional que hoje é considerado o maior líder do protestantismo brasileiro em toda a sua história.

Experiências iniciais
Erasmo de Carvalho Braga (1877-1932) era filho do Rev. João Ribeiro de Carvalho Braga e de D. Alexandrina Braga. Nasceu em Rio Claro, no interior de São Paulo, uma região que experimentava grande progresso em virtude do cultivo do café. A Igreja Presbiteriana, à qual a família pertencia, era na época a maior denominação evangélica do Brasil, experimentando grande crescimento. Após estudar em Botucatu, para onde os pais haviam se mudado, o menino concluiu os estudos secundários na Escola Americana, em São Paulo, e ingressou no Seminário Presbiteriano. Foi ordenado pastor em 1898, iniciando o seu ministério em Niterói. Três anos depois regressou à capital paulista, tendo sido convidado para lecionar no Mackenzie College, uma grande escola missionária. Também se tornou professor do seminário em que havia se formado, acompanhando essa instituição quando a mesma se transferiu para Campinas em 1907.

Nesse período e nos anos seguintes ele revelou algumas características marcantes. Tinha grande inteligência, memória privilegiada e enorme capacidade de trabalho. Era um leitor insaciável, estando a par de quase tudo o que era publicado no Brasil e no exterior. As pessoas começaram a referir-se a ele como uma “enciclopédia ambulante”. Também possuía qualidades de caráter e temperamento que atraíam prontamente a simpatia dos que o conheciam: integridade, cortesia, altruísmo, generosidade. Além de pastor dedicado e professor competente, destacou-se na área do jornalismo, tendo colaborado com muitos periódicos religiosos e seculares. Tornou-se sócio, com freqüência sócio-fundador, de diversas entidades literárias, científicas e de serviços. Em 1910, começou a escrever a famosa Série Braga, livros de leitura para a escola primária que vieram a ser usados por muitos anos em todo o Brasil. Na mesma época, mediante concurso, conquistou a cadeira de inglês do Ginásio do Estado, em Campinas.

Um ponto de transição

Desde o início do seu ministério, Erasmo Braga vinha observando com interesse alguns movimentos do protestantismo anglo-saxão voltados para missões e cooperação intereclesiástica. Em 1910, quando a Conferência Missionária Mundial se reuniu em Edimburgo, na Escócia, as missões na América Latina não foram contempladas por se entender que esse continente já era cristão. Em reação a isto, foi criado três anos mais tarde o Comitê de Cooperação na América Latina (CCAL), que promoveu em 1916 o célebre Congresso da Obra Cristã na América Latina, na Cidade do Panamá. Essa foi a primeira vez que os protestantes ibero-americanos se reuniram para discutir o seu trabalho. Erasmo Braga participou desse encontro e foi profundamente impactado pelo mesmo.

Regressando ao Brasil, ele abraçou de modo crescente as propostas resultantes do Congresso do Panamá: cooperação evangélica, envolvimento social, testemunho cristão na sociedade, educação teológica de alto nível, evangelização das elites. A fim de participar desses projetos, afastou-se gradativamente da maior parte dos seus compromissos denominacionais. Em 1920, assumiu em tempo integral a direção de uma sucursal do CCAL criada no Rio de Janeiro — a Comissão Brasileira de Cooperação (CBC). Nessa função, que exerceu até a sua morte em 1932, Erasmo Braga se tornou o propulsor do maior esforço de aproximação e cooperação das igrejas evangélicas do Brasil empreendido até hoje. Ele não só foi o líder protestante brasileiro mais conhecido do seu tempo, como também representou o Brasil e a América Latina em inúmeros encontros do protestantismo mundial em outros continentes. Nesses encontros, ele patrocinou de modo competente e apaixonado os interesses do trabalho evangélico na América Latina.

Visão missiológica
Nos seus esforços e iniciativas, Erasmo associou a sua formação calvinista a alguns elementos positivos de movimentos como o “evangelho social”, tendo em vista formular um projeto grandioso e ousado para as igrejas evangélicas. Analisando cuidadosamente a história das nações latinas, ele concluiu que elas haviam recebido uma formação inadequada nos aspectos religioso, social e cultural. Por sua vez, as nações protestantes haviam herdado da Reforma do século 16 um cristianismo dinâmico, valores éticos, instituições democráticas, ênfase na educação, progresso econômico e social. Ele concluiu que somente a mensagem e os valores transmitidos pelas igrejas evangélicas poderiam livrar os povos latino-americanos dos profundos problemas que os afligiam: atraso, analfabetismo, ignorância, superstição, ceticismo. Na elaboração dessa proposta, um tema bíblico e teológico se tornou dominante — o “reino de Deus”. O objetivo das igrejas evangélicas seria pregar e viver o evangelho com tal intensidade a ponto de gerar uma profunda transformação da sociedade: a implantação do reino de Deus na terra.

Havia alguns requisitos para que as igrejas pudessem cumprir esse papel. Elas deveriam desfazer-se do seu complexo de inferioridade e atitude de isolamento, irmanando-se umas às outras e criando laços com as igrejas mais antigas do hemisfério norte; elas deveriam dispor-se a ter uma presença forte e envolvente na comunidade; elas precisavam atualizar os seus métodos e falar uma linguagem com que as pessoas pudessem se identificar. Durante alguns anos, os apelos de Erasmo receberam diferentes graus de receptividade nas denominações protestantes históricas: presbiterianos, metodistas, congregacionais, episcopais. Porém, com o passar do tempo a mentalidade paroquial, as diferenças doutrinárias, o temor do envolvimento na sociedade e outros fatores levaram a um certo esfriamento do trabalho cooperativo. Problemas ocorridos nos Estados Unidos também tiveram um impacto negativo: a crise econômica de 1929, a controvérsia modernista-fundamentalista e novas percepções acerca da missão da igreja.

Avaliação e contribuições
Erasmo Braga viveu apenas 55 anos, tendo a sua morte prematura resultado em parte do desgaste sofrido no trabalho cooperativo. O lema de sua vida e ações foi o texto de Romanos 14.7: “Nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si”. Seu caráter nobre e idealista, dedicação a Cristo e espírito conciliador o qualificaram para criar um ambiente mais fraterno e generoso no protestantismo brasileiro da época. Seu desejo intenso de que o evangelho redimisse os indivíduos e a sociedade motivou as igrejas a se envolverem de modo coerente, altruísta e criativo com o seu país e o seu povo. Ele pode ter sido um tanto ingênuo em algumas de suas expectativas, excessivamente otimista em relação a certos problemas, mas ninguém jamais questionou a seriedade, sinceridade e dedicação com que buscou os seus objetivos.

Além do seu testemunho nas muitas entidades de que participou e de suas importantes contribuições como educador, escritor e pensador protestante, Erasmo se envolveu em iniciativas valiosas como o Seminário Unido (Rio de Janeiro), a Federação Universitária Evangélica e a Missão Evangélica Caiuá. Seu trabalho principal resultou na Confederação Evangélica do Brasil, que preservou por muitos anos o ideal da cooperação evangélica. Seus livros e outros escritos continuam relevantes, em especial Pan-americanismo: aspecto religioso e A República do Brasil: uma análise da situação religiosa. Que Deus possa despertar líderes competentes, íntegros e idealistas como Erasmo Braga no conturbado cenário protestante brasileiro.


•Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil.
asdm@mackenzie.com.br

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