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Colunas — Arte e cultura

Parque da Luz no escuro

É difícil imaginar que a crise de segurança em São Paulo nada tem a ver com o avanço do pós-modernismo, que toma de assalto as instituições, a academia e as redações da imprensa. A erosão do consenso sobre a universalidade das verdades absolutas abala as regras do convívio social. No Brasil, onde, na melhor das hipóteses, a lei se encolhe diante do sincretismo, da tolerância e do “jeito”, o pós-modernismo ameaça as poucas colunas remanescentes que sustentam nossa civilização. 

Em maio Ed René Kivitz e eu conversamos com Francis Fukuyama. Surpreendi-me quando o famoso neoconservador deu sinais de que ele também já capitula: disse que a notória ética protestante do trabalho já não precisa do protestantismo para manter-se como fundamento da democracia norte-americana. Esta ética, disse Fukuyama, já se integrou à cultura. Mas até quando, pergunto, sem o norte moralizador ideológico? Será que o “fim da história” acontece num vácuo? 

Cinco dias depois dos ataques do PCC em São Paulo, levei meu filho ao centro da cidade, à noite. Entre as atividades culturais programadas para a Noite da Virada Cultural — iniciativa da prefeitura que levou mais de um milhão de pessoas às ruas — escolhi um passeio monitorado pelo Parque da Luz à meia-noite. Cada monitor estava preparado para levar um grupo de vinte pessoas pelo parque escurecido. Todos os participantes receberam uma pequena lanterna elétrica. 

Inaugurado em 1825, o Parque da Luz é um dos mais famosos da cidade. Caminhamos lentamente pelas calçadas, parando para ver as ruínas da antiga torre, a lagoa seca, o Ponto Chic que reunia a elite, a estação de bondes e as esculturas modernas espalhadas pelo parque ao longo dos últimos anos. Quando nossa guia indicava a localização de uma escultura, todas as lanterninhas se voltavam para lá. Ao encontrar o objeto, alguém apontava sua lanterna para o centro do objeto, e os outros automaticamente dirigiam seus raios para áreas adjacentes, de modo que em poucos segundos toda a escultura ficava banhada pela luz trêmula e incerta. 

Quando alguém desviava o foco, deixando uma parte mais escura, outro logo substituía sua luz. Durante uns vinte segundos toda a escultura ficava visível, suspensa em nossa claridade. Depois os feixes começavam a se deslocar, uns para a placa de identificação, outros para o contexto maior do jardim ou para os membros do grupo. Logo adiante a cena se repetia, e durante alguns segundos todos contemplavam uma nova escultura que dançava na iluminação minguada e improvisada. 

A guia nos perguntava o que achávamos do que víamos. Uns concordavam entre si, outros discordavam. Alguns permaneciam indiferentes. Mas ninguém negava que tínhamos visto algo real, e que cada escultura no parque escuro de fato existia e que tinha sido colocada ali com algum propósito, alguma intenção. De fato, algo estava ali, e esta coisa existia independente do nosso enfoque e da nossa interpretação, por mais pós-moderna que fosse. Nossas lanterninhas baratas nos asseguravam disto. 

Após o evento, meu filho e eu devolvemos as lanternas e voltamos correndo pela rua deserta até o carro. Afinal, a noite paulistana pode ser amedrontadora.

Mark Carpenter é diretor-presidente da Editora Mundo Cristão e mestre em letras modernas pela USP.

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