Apoie com um cafezinho
Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Reflexão — Robinson Cavalcanti

Os não-pagadores de promessas

Em 1962, o chamado “cinema novo” nos trouxe um prêmio internacional com o filme O Pagador de Promessas. A religiosidade popular ibero-americana, antes da experiência da graça e da relação direta com Deus, tem vivido a prática do “pistolão celestial” com uma troca de favores espirituais: as promessas aos vários santos, como se eles fossem assessores em departamentos especializados do céu. Há uma equivalência disso nos cultos afro-ameríndios, com os orixás, chegando até os protestantes com os “votos”. Na sabedoria popular, quando alguém se refere a um caloteiro, ou não cumpridor da palavra empenhada, se diz: “Esse não paga nem promessa a santo”. Na política, herdamos o mito do sebastianismo: o “encantado” Dom Sebastião — e não a nossa organização, o nosso trabalho, a nossa luta — virá um dia nos redimir. Até porque os movimentos sociais são criminalizados pelas elites, e as mobilizações são consideradas anarquia e baderna: cacete neles, pena de morte, e anticoncepcional para as mulheres pobres! O privilégio da casa-grande e dos sobrados, e as privações das senzalas e dos mocambos, são tidos como da natureza das coisas... 

Em tempos de eleições temos outro tipo de promessa e de voto, bem como de crendice e de credulidade. Não há algo mais demagógico e mais falso, mentiroso, pecaminoso, do que a profusão de promessas de políticos à cata de votos. Seriam a ignorância política, a ambição e a falta de ética do eleitor as causas únicas para que essas falsas promessas se repitam, apostando-se no esquecimento do eleitor e em desculpas esfarrapadas dos eleitos? Ou há algum mecanismo perverso, meio masoquista, que faz com que se alimente a fantasia das promessas? Os políticos e os eleitores cristãos agem de modo diferente? Lamentavelmente, a história parece nos indicar o contrário.
Olhemos para o passado: a população indígena dizimada, a população africana escravizada, os mestiços e os brancos pobres explorados, as mulheres excluídas. 

Riqueza produzida e renda concentrada: a tal “Belíndia”, uma pequena Bélgica cercada por uma grande Índia; os condomínios fechados, os shoppings centers cercados pelas populações ribeirinhas da Amazônia, pelos povoados esquecidos dos sertões nordestinos, pela miséria da periferia dos grandes centros (assentamentos subnormais no jargão dos economistas), por 100 milhões de pobres, por 20 milhões de miseráveis. Uma economia pujante e uma desigualdade perversa, diante da qual nos perguntamos: “Sou eu porventura guardador do meu irmão?” Passaram a ditadura militar, a Nova República, os colloridos, os tucanos, os petistas: propaganda enganosa, estelionato político, promessas e votos, inclusive os nossos votos como cristãos, alguns “inocentes úteis” e outros muito úteis e pouco inocentes... O que nos faltou? Conhecimento, discernimento, oração, ética, obediência, coerência? “Façamos uma tenda aqui em cima!” 

A gente faz de conta que é um Estado soberano; faz de conta que é um povo de decisões soberanas; faz de conta que há programas de governo que vão alterar as estruturas e promover o bem comum. Necessitamos do faz-de-conta porque a verdade dói e incomoda. Não queremos ser incomodados com sentimentos de culpa. E aí se aproxima a nova eleição presidencial, com seus marqueteiros e seus enredos tão autênticos quanto novelas ou lutas livres na TV. Candidatos tão diferentes quanto duas marcas de refrigerantes! Quem está dentro se segura com unhas e dentes, e quem está fora tenta, de todo jeito, entrar. E o povo? Bem... O povo é apenas um detalhe? E o povo de Deus? Dos dois lados (com a forçada e falsa polarização entre o PSDB de macacão e o PT de gravata) há “candidatos oficiais” das igrejas, com o “toma-lá-dá-cá” bem mais concreto que as promessas e os votos. E lá vem a conversa da “cabeça, e não cauda”, do “irmão vota em irmão”... Parece que essa gente é, na verdade, atéia, pois falta o mínimo temor de Deus. 

Porém, há por aí um remanescente fiel, cidadãos cristãos inquietos, desiludidos com os homens (e mulheres), mas confiantes no Deus da Providência. Há gente simples iluminada pelo Espírito Santo, e há gente letrada que sabe que há outras formas de organizar a sociedade e a economia, que se pode ter um projeto nacional autêntico, que somente vamos avançar com tomada de consciência, mobilização, reivindicação, e com oração, mas, também com outras caras e outras vozes. Minorias proféticas, remanescente fiel. Porém, assumir o profetismo pode resultar em perda de privilégios, em riscos de discriminação, cadeia ou túmulo antecipado; e martírio, convenhamos, é um negócio ultrapassado nesses tempos dos louvorzões e das bênçãos da prosperidade... A essa altura da vida e da experiência, posso até “perder” o meu voto, mas não a esperança na Providência, que, tenho profunda convicção, opera além da falsa dicotomia a que estamos sendo forçados no próximo pleito.

Dom Robinson Cavalcanti é bispo da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política – teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo – desafios a uma fé engajada. www.dar.org.br 

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI.

Ultimato quer falar com você.

A cada dia, mais de dez mil usuários navegam pelo Portal Ultimato. Leem e compartilham gratuitamente dezenas de blogs e hotsites, além do acervo digital da revista Ultimato, centenas de estudos bíblicos, devocionais diárias de autores como John Stott, Eugene Peterson, C. S. Lewis, entre outros, além de artigos, notícias e serviços que são atualizados diariamente nas diferentes plataformas e redes sociais.

PARA CONTINUAR, precisamos do seu apoio. Compartilhe conosco um cafezinho.


Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.