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Reflexão — Ricardo Gondim

Não quero desistir

Ando desconfiado. Mas meu pessimismo não é desesperador. Minhas crises não me paralisam. Reconheço que minhas inquietações podem pender para um ceticismo ranheta, por isso luto para manter o bom humor. Sei que não rir me faria ensimesmado na compreensão da justiça; severo e agressivo com meus amigos. Não quero me sentar na roda de niilistas rancorosos, sem conseguir expressar generosidade, doçura ou misericórdia. Quero manter-me teimoso com meus sonhos, sem atrofiar meu coração. Se sou pessimista, meu pessimismo não me leva a querer desistir. 

Não desistirei da vida porque ainda não me cansei existencialmente. Não estou desencantado com o mundo, mesmo constatando tantas idiossincrasias ao meu redor. Admiro a natureza e continuo atraído pela beleza das serras e montanhas majestosas.

Recentemente aprendi a apreciar a imponência das araucárias com seus braços arqueados e troncos enrugados. Não considero um tédio ficar sentado numa varanda e contemplar o pôr-do-sol enrubescido. Não me enfastio com minha rotina semanal. Gosto de minha agenda lotada e de me assustar porque a sexta-feira chega rápido.

Contemplo ruas e cidades afogadas em sangue inocente, mas mesmo assim sou urbano; gosto das megalópoles efervescentes. Não me incomodo com parques ou praias lotados. Sinto-me em casa quando caminho em livrarias entupidas de livros. 

Tudo me fascina numa grande cidade: do silêncio dos museus à agitação acadêmica. Fico engasgado de saudade, uma espécie de nostalgia antecipada, só de pensar no dia em que terei de me despedir deste mundo. 

Não desistirei da vida porque ainda considero o ser humano viável. Concordo com a afirmação do poeta hindu de que toda criança nascida é um recado de que Deus ainda crê na humanidade. Apesar do deboche dos políticos, da inclemência do mercado e da indiferença dos generais militares, admiro a beleza das pessoas. Amigos ainda se abraçam, trocam mensagens de incentivo pela internet, visitam-se em datas especiais e choram em tragédias. Quão admiráveis são os poetas que celebram alegrias e pranteiam dores em versos e prosa. Reverencio a companhia dos profetas que levantam o dedo em riste contra injustiças. Admiro bons samaritanos que se embrenham pelas savanas africanas para aliviar o sofrimento de exilados de guerra.

Emociono-me com pais que adotam filhos em orfanatos. Creio na humanidade por mais que odeie o desdém dos ricos que acumulam fortunas incalculáveis; por mais que rejeite o descaso de religiosos que priorizam suas instituições e resfolegam suas certezas intolerantes em eternas cruzadas; por mais que me revolte com a decisão de um país bombardear outro. O sorriso inocente das crianças e a fragilidade dos anciãos me dão vontade de cantar “Gracias a la vida”, com Violeta Parra. 

Não desistirei da vida porque ainda acredito em ideais. Admito que vivo no meio de uma ressaca utópica. Caíram muros, arriaram-se bandeiras ideológicas, e antigos Dom Quixotes desobrigaram-se de suas heróicas empreitadas. Não sou fatalista. Não creio que a história deslize sobre trilhos inexoráveis e luto para não fugir da arena onde se escreve o futuro. Insisto em não me conformar com a trágica sorte dos miseráveis. Não permitirei que me domestiquem com a pregação de que não há mais História com “H” maiúsculo. Acredito que, mesmo na remota possibilidade do aniquilamento da atual civilização, saberemos nos reinventar e ressurgiremos das cinzas. 

Não desistirei da vida porque aceito a mensagem do Sermão da Montanha. O bem triunfará sobre a maldade. Não antevejo um porvir tenebroso. Partilho do prognóstico de Jesus: prevalecerão os humildes, os mansos e os puros de coração. Pressinto que um dia justiça e paz se beijarão; verdade e misericórdia darão as mãos; e ninguém será marginalizado pela cor de sua pele ou por sua cultura. Acredito que os fracos e esquecidos deste mundo terão o brado de vitória da hora final, pois Deus vingará a sorte deles. 

Contudo, não tento pintar meu mundo com as cores da ilusão. Nutro um pessimismo sem quimeras. Não consinto com frases de efeito nem me deixo ludibriar com promessas irresponsáveis. Repito para mim mesmo: não existem receitas fáceis para nada. Percebo alguns espetáculos musicais, religiosos ou esportivos como meras tentativas de disfarçar a indiferença mundial que mata os filhos de Deus em todos os continentes. 

Não tenho medo de mostrar minhas desilusões, pois conheço o legado de Isaías, Jeremias e Malaquias. Eles amargaram ostracismo por se distanciarem dos falsos profetas que viviam prometendo paz, enquanto o juízo se avizinhava. Só eles sabiam que não se contaminaram de um espírito mórbido; e compreendiam que vaticinavam castigos não por estarem fadigados, mas por almejarem um mundo melhor. Eles intuíam que, muitas vezes, só de escombros poderia surgir algo novo. Seus lamentos não expressavam prostração, mas um convite para que o povo despertasse e admitisse: suas escolhas terminariam em ruína. 

Eu também não estou estafado. Não pretendo desistir. Continuo sonhando com um outro mundo possível, e por ele vou orar e trabalhar até meu último suspiro.
Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim é pastor da Assembléia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, O Que os Evangélicos (não) Falam, lançamento da Editora Ultimato. www.ricardogondim.com.br

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