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Capa

Icabode e Ebenézer

A história de um período de declínio e a história de um período de ascensão e suas lições para hoje

Icabode: “Foi banida a glória de Israel” 
Uma criancinha nasceu no auge da crise pela qual passou o povo eleito, no final do período dos juízes, por volta do ano 1100 antes de Cristo. O nome dela não poderia ser mais apropriado nem mais sinistro. Icabode, nome dado pela pobre mãe, pouco antes de morrer de complicações de parto, significa explicitamente “a glória se foi de Israel” (1 Sm 4.21, NVI) ou “não há mais glória” (TEB) ou “foi banida a glória de Israel” (CNBB) ou “dissipou-se a glória de Israel” (EPC). A mãe da criança era uma das vítimas da corrupção generalizada, pois seu marido, o sacerdote Finéias, mantinha relações adúlteras com as mulheres que serviam à entrada da Tenda Sagrada, em Siló, um lugar de adoração, a 35 quilômetros ao nordeste de Jerusalém.

O clero em declínio
O sacerdote deveria ser a última pessoa a se corromper, por ele ser o ministro de Deus a serviço do povo. Embora não tivesse cometido os mesmos erros de seus filhos Hofni e Finéias, o sacerdote Eli praticou alguns equívocos graves. O maior deles foi a loucura de honrar seus filhos mais do que ao Senhor (1 Sm 2.29). O outro, foi dispensar à sofrida Ana uma assistência desprovida de compaixão e sabedoria. Ele viu os lábios cerrados da mulher estéril continuamente humilhada pela rival, mas não enxergou seu semblante cerrado, nem ouviu seu choro. Além disso, Eli tratou Ana como uma “filha de Belial” (RA), que significa “mulher vadia” (NVI), “mulher sem moral” (NTLH), “mulher perdida” (CNBB), “uma decaída” (BP), “uma vagabunda” (TEB) e “mulher embriagada” (BV). O sacerdote repreendeu a pessoa inocente e deixou de acusar as pessoas erradas. 

Quanto aos filhos e substitutos dele, a Bíblia diz coisas pavorosas: os dois rapazes eram “filhos de Belial” de fato, rapazes ímpios, desonestos, desalmados, vagabundos, imprestáveis. Eram assim porque “não se importavam com o Senhor nem cumpriam os deveres de sacerdotes para com o povo”. Os moços valiam-se da posição de liderança civil e religiosa para explorar economicamente os ofertantes, tomando-lhes à força toda a carne dos sacrifícios, e para explorar sexualmente as mulheres com quem se encontravam em Siló (1 Sm 2.12-17).

Os disparates do declínio
Tomar decisões fora da presença do Senhor é uma das coisas mais arriscadas do mundo. Quando isso acontece, não há sabedoria, não há acerto, não há sucesso. Não obstante, “nessa época os israelitas saíram à guerra contra os filisteus” (1 Sm 4.1). O resultado foi a morte de cerca de quatro mil israelitas. 

Para resolver o problema gerado pela guerra inoportuna, a liderança tomou uma medida inoportuna: “Vamos a Siló buscar a arca da aliança do Senhor, para que ele [o Senhor, não ela, a arca] vá conosco e nos salve”. Quando a arca chegou de Siló para o campo de batalha, houve uma euforia inoportuna: “Todos os israelitas gritaram tão alto que o chão estremeceu”. O povo se esqueceu de que o Senhor sem a arca faz proezas, mas a arca sem o Senhor não faz absolutamente nada (1 Sm 4.1-5).

A plenitude do declínio
O resultado amargo da guerra inoportuna, da medida inoportuna e da euforia inoportuna foi a derrota estrondosa de Israel. Naquele dia, o povo da arca lambeu o pó da terra e experimentou uma surpresa enorme (a esperada vitória não aconteceu), uma vergonha enorme (a euforia mostrou-se infantil) e uma humilhação enorme (a arca da Tenda Sagrada foi tomada e levada para dentro do templo de Dagon, deus filisteu, ao lado de sua estátua, uma reedição do que havia acontecido anos atrás com Sansão).
 
Naquele dia houve uma “grande matança” (NTLH), uma “derrota tremenda” (BP) e o “massacre foi muito grande” (NVI) — Israel perdeu trinta mil homens de infantaria (7,5 vezes a mais do que na batalha anterior) e os dois filhos de Eli — Hofni e Finéias — foram mortos (1 Sm 4.10-11). Ao saber do acontecido em Siló, o velho Eli, de 98 anos, caiu da cadeira para trás, quebrou o pescoço e morreu, depois de ter julgado Israel por quarenta anos. 

Quando a notícia da morte do marido e da morte do sogro e, especialmente, do seqüestro da arca chegou à nora de Eli, grávida de nove meses, ela entrou em trabalho de parto e deu à luz um menino, ao qual deu o nome fatídico que recordaria por toda a vida a tragédia daquele dia, o epílogo da soma de todos os pecados de omissão (Eli) e de transgressão (Hofni e Finéias), do clero e do povo. 

Antes de ser nome de uma criança desconhecida (nada mais se sabe sobre ela) e distante no tempo (mais de três milênios atrás) e no espaço (na longínqua terra de Canaã), Icabode é uma confissão corajosa e honesta que, uma vez feita por um número razoável de culpados contritos e arrependidos, pode dar início a uma reviravolta em direção a uma situação diametralmente oposta, que fecha o período de declínio e abre o período de ascensão.

Ebenézer: “Até aqui o Senhor nos ajudou”
Por ocasião de sua caminhada para a morte, Jesus disse à multidão que se os seus discípulos “se calarem, as pedras clamarão” (Lc 19.4). As pedras que gritam são aquelas que anunciam e comemoram as intervenções de Deus na história. Além das duas pedras guardadas dentro da Arca do Senhor, nas quais estavam escritos os Dez Mandamentos, havia outros monumentos que lembravam, por exemplo, o lugar onde Deus se revelou a Jacó (Gn 28.18, 35.14), o lugar onde Israel atravessou a seco o rio Jordão (Js 4.20-24) e o lugar onde o povo renovou a sua aliança com Deus logo após a posse da terra prometida (Js 24.26-27). Acompanhando esse salutar costume, o profeta Samuel fez questão de erigir uma pedra nas proximidades de Mispá, a doze quilômetros ao norte de Jerusalém, a qual deu o nome de Ebenézer, que significa “a pedra de ajuda”, para marcar o sucesso do retorno do povo a Deus, pouco depois da plenitude do declínio (1 Sm 7.12).

O clero da ascensão
Ana, aquela mulher de lábios e semblante cerrados que o sacerdote Eli destratou, foi acolhida por Deus e se tornou mãe de quatro rapazes e duas moças (1 Sm 2.12). O primeiro deles foi “devolvido” ao Senhor e tornou-se sacerdote e líder de Israel, logo após a morte de Eli, Hofni e Finéias. 

Samuel começou o seu ministério bem cedo, quando era um menino e “o Senhor estava com ele” (1 Sm 3.19), assim como esteve com José (Gn 39.2). Ao contrário de seus antecessores, o rapaz era respeitado em todo o Israel, “Desde Dã até Berseba” (de norte a sul), porque o que ele dizia era válido (1 Sm 3.19-20). Samuel pregava arrependimento e mudança de vida: “Se vocês querem voltar-se para o Senhor de todo o coração, livrem-se então dos deuses estrangeiros e das imagens de Astarote, consagrem-se ao Senhor e prestem culto somente a ele e ele os libertará das mãos dos filisteus” (1 Sm 7.3). Além do mais, o jovem e dedicado sacerdote intercedia pelo povo: “Reúnam todo o Israel em Mispá e eu intercederei ao Senhor em favor de vocês” (1 Sm 7.5, 8-9). Samuel ia de vento em popa e exercia um ministério amplo (decidia questões de Israel em vários lugares) e perseverante (“durante todos os dias de sua vida”). Um ministério assim tem de redundar em muitas bênçãos para o povo.

As redescobertas da ascensão
Na bagagem histórica há enormes tesouros escondidos que precisam ser redescobertos. Eles foram usados com sucesso pelos nossos antepassados e podem ser outra vez usados com o mesmo sucesso por nós e por nossos contemporâneos. É por isso que se fala de reevangelização e reavivamento. 

Sob a liderança de Samuel, o povo eleito redescobriu dramaticamente a santidade do Senhor. A falta de reverência para com a arca do Senhor (os homens de Bete-Semes olharam para dentro dela), provocou a morte de setenta culpados e traumatizou o povo: “Quem pode permanecer na presença do Senhor, esse Deus santo?” (1 Sm 6.20).

O episódio da arca, a visão de Isaías da santidade de Deus (Is 6.1-7) e a transfiguração de Jesus (Mt 17.1-8) mostraram ao povo, ao profeta, aos três apóstolos, a força e o significado da majestade divina. 

Aconteceu também a redescoberta da oração. Depois da “grande matança que o Senhor fizera” em Bete-Semes, “todo o povo de Israel buscava o Senhor com súplicas” (1 Sm 7.2). A oração era o recurso e a solução encontrados por seus antepassados em situações idênticas, principalmente na época de Otoniel (Jz 3.9), Eúde (Jz 3.15), Gideão (Jz 6.6) e Jefté (Jz 10.10). 

O povo recém-humilhado pela derrota infligida pelos filisteus redescobriu ainda a necessidade da confissão. Reunidos em Mispá, os Israelitas disseram a Samuel: “Temos pecado contra o Senhor” (1 Sm 7.6). 

E, por fim, redescobriram a necessidade da conversão. Logo após o apelo de Samuel, eles “se livraram dos baalins e dos postes sagrados e começaram a prestar culto somente ao Senhor” (1 Sm 7.4).

A plenitude da ascensão
Depois, só depois das redescobertas da santidade de Deus, da oração, da confissão e da conversão, os israelitas obtiveram vitória permanente sobre os filisteus (“os filisteus foram dominados e não voltaram a invadir o território israelita”), recuperaram as cidades tomadas por eles e alcançaram um período de paz com outros inimigos (“e houve também paz entre Israel e os amorreus”). Redescobertas provocam reconquistas: o que se perdeu, acha-se, e o que se foi, volta (1 Sm 7.10-17). Se a plenitude do declínio sempre produz vergonha, humilhação, confusão, insegurança, desânimo, medo, perdas e morte, a plenitude da ascensão invariavelmente produz amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio — a penca de frutos do Espírito de Gálatas 5.22. 

Para marcar a mudança entre a plenitude do declínio e a plenitude da ascensão, Samuel ergueu o monumento Ebenézer. 

A partir de então, os dois nomes próprios, Ebenézer, nome de uma pedra-monumento, e Icabode, nome de uma criança órfã de pai e mãe ao nascer, são opostos entre si. O nome dado pela mulher de Finéias e o nome dado pelo filho de Ana eternizam o conflito entre a loucura e a sensatez. Ou Icabode liquida Ebenézer ou Ebenézer liquida Icabode. Ontem e hoje.

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