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Colunas — Redescobrindo a Palavra de Deus

Deus fala! O seu nome é revelação

Era tarde da noite quando cheguei em Mumbai, na Índia. Como o lugar para onde eu ia ficava longe, pernoitei ali e segui viagem na manhã seguinte. Numa das muitas curvas da estrada íngreme, o motorista diminuiu a velocidade, aproximou o carro do barranco e atirou umas moedas para um altar que havia ali. 

Na Índia, altares e deuses são muito comuns. Dependendo do “comportamento” dos deuses, eles são acalentados ou aposentados. Assim tratamos os deuses que projetamos segundo as nossas demandas e necessidades. Temos com eles uma relação utilitária e os mantemos a certa distância. Satisfazemos as suas demandas, aplacamos a sua ira e esperamos o seu favor. O mundo da religião é assim, um caminho daqui para lá — lá onde depositamos a divindade. É um mundo de contínua negociação. É um mundo de medo, onde nunca se está absolutamente seguro de ter feito o suficiente para manter a divindade calma ou para vê-la atuar em nosso favor. A fé cristã, porém, não é assim.

Deus vem e fala conosco
A fé cristã é uma fé revelada. Deus vem e, num gesto de amor, cria a nossa própria vida. Relaciona-se conosco e, na busca dessa relação, fala conosco. Com a sua fala, cria vínculos e gera comunicação. Quando Deus vem e nos agracia e assusta com a sua palavra, experimentamos a realidade da sua presença. Pois a Palavra de Deus é presença de Deus. E a presença de Deus se expressa na Palavra de Deus. 

Quando leio em 1 Samuel 3.1 que “naqueles dias a palavra do Senhor era mui rara; as visões não eram freqüentes”, fico assustado. Afinal, o silêncio de Deus é a nossa asfixia. A ausência de Deus é a nossa morte. Quando se fala de um tempo assim, podemos saber que a vida definha, as relações com Deus e com os irmãos estão atrapalhadas e a vida comunitária está submetida à lei da selva. Era o que acontecia nos dias da velhice de Eli, que já não tinha autoridade sobre os seus filhos. Hofni e Finéias ofendiam a Deus e exploravam os outros em seus afazeres sacerdotais. O povo de Deus estava perdendo de vista a vocação e se encolhendo e morrendo na mão dos inimigos. 

Nós precisamos do olhar de Deus como precisamos do sol para viver. Precisamos da presença de Deus como a terra carece da chuva. Precisamos da Palavra de Deus como precisamos do ar que respiramos. Deus é a fonte da nossa vida. É ele que vem a nós, nos revigora e restaura com essa sua vinda tão inteira, tão integral, confortadora e orientadora. É bom saber que não precisamos jogar-lhe nenhuma moeda ao subirmos por diferentes sendas nos caminhos da nossa vida. 

É trágico quando já não queremos ouvir a Deus nem nos damos conta da ausência da sua palavra-presença. Apenas continuamos a tocar a vida. Como no cenário de Eli, as portas do templo continuam abertas, os sacrifícios são religiosamente oferecidos, as festividades cultuais prosseguem e as pessoas vão e vêm na manutenção do aparato religioso. Afirmamos que tudo está bem, mesmo que a alma esteja secando, as relações humanas se complicando, a hipocrisia se instalando e a injustiça corroendo o tecido da sociedade.

Deus não deixa de bater à porta
Em 1 Samuel 3, o texto citado apenas introduz um novo momento na vida de Israel. Cita-se o silêncio de Deus, mas logo ele volta a falar; quer relacionar-se com o seu povo! Ele precisa fazer-se presente, pois a sua natureza amorosa pulsa por relação, por comunhão e pela própria vida. A cena que segue, com Samuel e Eli brincando de “você me chamou; eu não te chamei”, chega a ser tragicômica. Eli havia perdido o costume de ouvir a Deus e Samuel não sabia o que era isso, nem como reagir a essa presença-palavra. Em sua própria casa, a Palavra de Deus não é reconhecida nem discernida! 

Mas é também uma cena bonita, pois mostra que Deus não desiste do seu povo e que, se necessário, começará tudo de novo. Aqui vemos um Deus extremamente paciente no processo pedagógico de se fazer ouvir pelo menino. Até o velho Eli volta a contar com a possibilidade de ouvir a Deus! A história termina com Samuel respondendo a Deus, aprendendo a ouvi-lo, a obedecer-lhe e a ouvi-lo novamente, e isso por longos anos: “Crescia Samuel, e o Senhor era com ele, e nenhuma de todas as suas palavras deixou cair em terra. [...] Continuou o Senhor a aparecer em Siló, enquanto por sua palavra se manifestava ali a Samuel” (1 Sm 3.19, 21). 

É bom e necessário que Deus fale. Os meus últimos artigos têm sido um convite a voltarmos a ser a igreja da Palavra, a igreja que ouve Deus falar a partir da sua própria Palavra. Uma das dimensões que mais trazem esperança ao meu coração e à minha caminhada é que Deus não desiste de nós. Está sempre nos chamando a estar com ele, a viver no seu corpo e a servi-lo no mundo com alegria, integridade e humildade. E isso ele faz através da sua Palavra, que é atualizada junto ao nosso coração pelo Espírito Santo. Não precisamos atirar-lhe moedas como se ele estivesse preso aos altares que produzimos. Muito antes de pensarmos em ir até ele, ele já veio até nós, tomou-nos nos braços, olhou-nos nos olhos e disse que nos amava, convidando-nos a viver com ele e para ele. Aliás, tudo isso já está muito bem expresso nessa Palavra que somos convidados a redescobrir.

Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a Visão Mundial Internacional e com o Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e Outras Crônicas.

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