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Notícias — Nomes

Celso Bueno de Godoy Júnior

O criminoso que “soltou o cabo da nau” e foi posto em liberdade nove meses antes da chacina do Carandiru

Há pessoas de temperamento violento que vivem no meio da violência e com ela se acostumam. Essas pessoas fazem questão de se impor pela violência. Exemplo clássico é Lameque, aquele bígamo que ameaçava as esposas: “ Ada e Zilá, ouçam-me; mulheres de Lameque, escutem minhas palavras: Eu matei um homem porque me feriu, e um menino, porque me machucou” (Gn 4.23). 

O paulistano Celso Bueno de Godoy Júnior era assim. Uma vez foi insultado por um rapaz homossexual que morava no mesmo prédio que ele, no submundo de Salvador, na Bahia, e não deixou por menos: depois de passar a noite inteira bebendo e se drogando, no dia seguinte, Celso o matou de forma brutal e covarde. Como era fugitivo da Casa de Detenção de São Paulo e procurado pela polícia, Celso foi logo preso outra vez, julgado e condenado a nove anos de reclusão, a serem cumpridos na Penitenciária Lemos de Brito, em Mata Escura, nas proximidades de Salvador. 

O médico Drauzio Varella, que trabalhou algum tempo como voluntário na Casa de Detenção de São Paulo, na época o maior presídio da América Latina, escreveu que “é difícil achar na cadeia um preso criado por pai e mãe” (Folha de São Paulo, 04/09/04). Celso foi criado na Vila Medeiros, na Zona Norte de São Paulo, por pai e mãe, mas relata: “Meu pai sempre bebendo, minha mãe sempre apanhando e nós, filhos, sempre sofrendo”. 

Entre a primeira experiência com a maconha (aos 14 anos) e a primeira experiência com as grades de uma delegacia (aos 17 anos), passaram-se apenas três anos. A erva o levou aos barbitúricos, às anfetaminas, aos antidepressivos, às overdoses, à companhia de prostitutas e marginais, aos pequenos furtos, aos assaltos à mão armada, à violência, ao crime, à despersonalização e às prisões. E também a algumas tentativas de suicídio — se não fosse a intervenção de um colega de cela que acordou subitamente de madrugada e o viu se enforcando com a própria camisa, Celso teria morrido pouco depois do Natal de 1980, aos 21 anos. 

Ao ser levado para o Carandiru, a primeira coisa que lhe causou forte impressão foram as palavras “Caldeirão do Diabo”, escritas com letras muito grandes em um dos corredores que ligavam um pavilhão a outro. Embora processado sete vezes por roubo, tráfico de entorpecentes e homicídio, Celso, depois de algum tempo, conseguiu escapar da justiça e achou por bem mudar-se para a Bahia para livrar-se da polícia paulistana que não o deixava em paz. Levou em sua companhia a prostituta Angélica, com quem teve Juliana, sua primogênita, hoje com 24 anos. 

Celso mudou de cidade mas não mudou de vida. Não demorou muito a ser preso. Na penitenciária ninguém o visitava, senão alguns crentes que vinham evangelizar os presos nos finais de semanas, entre eles uma jovem chamada Zélia. O rapaz de 26 anos conseguiu envolver a moça de tal modo que manteve relações sexuais com ela na primeira visita dela ao presídio. Dessa conduta absolutamente irresponsável da parte de ambos, nasceu Amon, hoje com 19 anos. Faltando quatro meses para Zélia dar à luz o filho gerado na cadeia, Celso deu mais um golpe, talvez mais sujo e sofrido do que o primeiro. Ele havia obtido permissão para casar-se com a moça, simplesmente com o propósito de possibilitar uma fuga, o que de fato aconteceu. Celso a deixou grávida no cartório à sua espera e se mandou para o Rio de Janeiro.
 
No Rio, o calejado criminoso aprendeu a arte de falsificar documentos, conheceu o pessoal do Comando Vermelho e frequentou os morros dominados pelo tráfico, principalmente o morro Dona Marta, em Botafogo. Ganhou muito dinheiro com o crime, mas gastou tudo em orgias, drogas e coisas do gênero. Seis meses depois, foi preso e recambiado de avião para Salvador. Outra vez enganou a direção do presidío e fugiu ao ser levado por dois policiais armados para um colégio no centro de Salvador para um suposto exame vestibular. Depois de passar algum tempo no Rio, Celso, embora já meio cansado desse estilo de vida, voltou para a Bahia na companhia de dois parceiros do Comando Vermelho, com a intenção de cometer outros crimes e procurar o filho Amon. 

Em Feira de Santana a graça de Deus começou a fustigar o coração de Celso. Desiludido com tudo, o rapaz teve vontade de se encontrar com Josias, da mesma igreja de Zélia, que também o visitava na Lemos de Brito. Para tanto, foi ao templo da Igreja Batista Renovada daquela cidade. Ao chegar, os crentes estavam cantando com enorme entusiasmo o hino “Solta o cabo da nau/ Toma os remos nas mãos/ E navega com fé em Jesus/ E, então, tu verás que bonança se faz/ Pois com ele seguro serás”.
 
Naquela primeira semana de maio de 1988, Celso e os comparsas do Rio não conseguiram roubar coisa alguma – “nem sequer um doce das mãos de uma criança” – apesar de todas as tentativas. Na noite de domingo, Celso, então com 28 anos, não conseguiu dormir: “ Deitei-me e comecei a relembrar cenas da minha vida. Era como se eu estivesse assistindo a uma fita de vídeo e nela pudesse ver tudo o que eu tinha vivido. Foi incrível. Lembrava-me de cada detalhe, cada período. Coisas que já havia esquecido há muito tempo voltavam à minha memória. Desde a minha infância atribulada, o envolvimento com macumba, as drogas, os crimes, as prisões, as fugas.

Fiquei horas relembrando o meu passado e vendo o quanto havia sofrido até então. A última cena foi a de quinta-feira passada, o cântico ‘Solta o cabo da nau’ [...]. Era como se Deus estivesse falando comigo e me dissesse que eu ainda tinha uma oportunidade de ser feliz. Até então, não sabia o que era ser feliz. Minhas alegrias eram passageiras. Não tinha ninguém na vida que se importasse comigo. Havia deixado tudo para trás. Mas agora Deus estava me mostrando uma luz no fim do túnel. A luz de Jesus se aproximava de mim” (Uma Porta para a Vida, p.88). 

Essa pequena luz no fim do túnel foi suficiente para que, no dia seguinte, Celso Godoy se apresentasse ao delegado de Feira de Santana e lhe dissesse: “Sou foragido da penitenciária de Salvador e tenho vários processos em São Paulo: prenda-me”. 

O sempre bem-sucedido foragido voltou à prisão, desta vez por livre e espontanêa vontade. Poucos dias depois, em 21 de julho de 1988, encorajado por um ex-companheiro de crime, convertido antes dele, Celso Godoy se ajoelhou em sua cela, soltou o cabo da nau, tomou os remos nas mãos e navegou com fé em Jesus... Era o seu “sim” à nova proposta de vida, manifestada “ por causa das ternas misericórdias do nosso Deus” (Lc 1.78). Isso aconteceu há exatamente 18 anos! 

Em menos de três meses, Celso já havia lido a Bíblia toda e dado testemunho de crente a todos os demais encarcerados. Mesmo rodeado de grades e portões de ferro, sentia uma sensação de plena liberdade, o que nunca antes havia experimentado. 

Naquele mesmo ano, uma moça de 21 anos nascida em Salvador, chamada Raineire, até então bem distante de Deus, também se converteu na Igreja Batista Dois de Julho e passou a frequentar a Assembléia de Deus do Vale das Pedrinhas, na periferia de Salvador. Não demorou muito, a jovem começou a acompanhar outros crentes nos trabalhos de evangelização realizados na Penitenciária. Depois de uns poucos sábados e domingos se encontrando, os dois recém-convertidos, Celso e Raineire, deram início a um namoro sério, seguido pelo noivado (22 de maio de 1989) e casamento, três meses depois (25 de agosto). A cerimônia do casamento civil foi original: escoltado com vários policiais, vestido com o uniforme da penitenciária e com as mãos algemadas para trás, o noivo encontrou-se com a noiva no Fórum (cercado pela polícia), respondeu às perguntas de praxe, ouviu a declaração do juiz de que estavam casados perante a lei e retornou para a prisão. Raineire, por sua vez, voltou para a casa paterna. Não houve lua-de-mel. 

Dez dias depois do casamento, Celso foi transferido para São Paulo, onde deveria responder aos processos pendentes naquela cidade. De volta ao “Caldeirão do Diabo”, juntou-se aos crentes que ficavam nas celas do Pavilhão Sete, onde também cultuavam a Deus (em quase todos os pavilhões havia uma igreja da Assembléia de Deus, algumas das quais com coral e banda). Então, Celso começou a fazer o que Paulo fazia nas prisões romanas pelas quais passava — gerar filhos na fé (Fm 10). Além disso, trabalhava no presídio e fazia vários cursos bíblicos por correspondência. Tinha também encontros íntimos com a esposa uma vez por semana e aí surgiu Esther, que completará 16 anos em novembro de 2006. Por fim, em janeiro de 1992, nove meses antes da chacina do Carandiru que tirou a vida de 111 homens (2 de outubro de 1992), Celso foi posto em liberdade. 

Assim, duas vezes livre, o casal se mudou para Salvador e, depois, para a Grande Vitória. Sentindo-se vocacionado para o ministério, Celso estudou no Seminário Teológico Batista do Estado do Espírito Santo, em Vitória, e ordenou-se pastor no dia 9 de novembro de 2000 pela Primeira Igreja Batista de Vitória. Hoje, Celso Bueno de Godoy Júnior é diretor de missões urbanas da Convenção Batista do Estado do Espírito Santo.

Fonte: Uma Porta para a Vida — a comovente história de uma vida restaurada pela graça de Cristo, de Celso Bueno de Godoy Júnior, publicado em 1998 pelo autor. Tem 176 páginas e pode ser adquirido por R$ 15,00 pelo telefone (27) 3032-6361 ou pelo e-mail pastorgodoy@terra.com.br

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