Apoie com um cafezinho
Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Colunas — Arte e cultura

A vez dos trouxas

Mark Carpenter

No elevador do prédio onde moro, ouvi uma conversa entre uma senhora e seu filho adolescente. O menino se gabava de ter colado numa prova, e explicou sua artimanha. Fiquei surpreso quando a mãe, em vez de lhe dar uma bela bronca, elogiou a engenhosa malandragem do filho.

O que provocou essa atitude da mãe? Talvez ela fosse da turma do “quem não cola não sai da escola”. Talvez tenha ficado animada ao perceber que seu filhinho poderá se dar bem na vida, já que desde pequeno está aprendendo a burlar o sistema. Afinal, no Brasil, quem é bonzinho demais acaba virando trouxa.

Trouxa. Confesso que não gosto dessa palavra, porque ela zomba da inocência. A mera existência desse vocábulo na língua portuguesa indica que há espaço no imaginário popular para o inocente desprezado por não ter aprendido o jogo dos malandros.

Os tradutores da série Harry Potter traduziram o neologismo muggle como “trouxa”. Uma opção emblemática. Quem sabe reflete até o desprezo nacional pela inocência. Embora muggle seja uma palavra descritiva, originalmente isenta de preconceitos — ainda que passível de ser usada de modo pejorativo —, o vocábulo “trouxa” está carregado de conotações negativas. No Brasil, quem não é malandro é trouxa.

Considere a queda de Antonio Palocci. Num lado do ringue, o todo-poderoso ministro da Fazenda, íntimo da patética mise-en-scène petista e mágico do ilusionismo da ética. Do outro lado, um simples trabalhador que — coitado — só sabia contar a verdade. O malandro contra o trouxa. Sabemos o desfecho: Palocci dançou porque não foi malicioso o suficiente.

Entretanto, não faltou quem desdenhasse o próprio Francenildo. Afinal, este “trouxa” poderia ter ganhado muito dinheiro. A revista Veja noticiou que Palocci estava pronto para entregar um milhão de reais a qualquer funcionário da Caixa que assumisse, isoladamente, a culpa pela quebra do sigilo bancário. Esse dinheiro poderia ter ido para o próprio Francenildo, escarnecem os malandros de plantão.

No fim do episódio, Francenildo disse: “O lado mais fraco não foi o do simples caseiro; foi o da mentira”. Pensando bem, talvez ele não tenha sido tão trouxa assim. Ou, quem sabe, ser trouxa foi justamente sua maior virtude.

No Brasil há muita gente esperta, malandra, ressabiada e cheia de manhas e jeitos, gente desconfiada e suspeitosa. Para muitos, a marca da maturidade é passar a perna no outro sem ser percebido. Em algumas regiões do país, a palavra “malandro” é sinônima de sagaz, astuto, inteligente. A malandragem deixa pouco espaço para os inocentes.

Em Mateus 10.16, Jesus exige que sejamos “prudentes como as serpentes e símplices como as pombas”. Temos sempre a capacidade de imaginar o pior; quem já não planejou, por exemplo, um perfeito roubo a banco? A astúcia do intelecto, porém, deve ser temperada pela inocência no espírito e no comportamento.

Quem sabe se tivéssemos mais inocentes conscientes de sua inocência, mais crédulos irredutíveis na sua credulidade e mais trouxas cientes da importância ideológica de seu “trouxismo”, o Brasil teria uma chance maior de vencer os que labutam dia e noite para afundá-lo ainda mais na perpétua mediocridade.


Mark Carpenter é diretor-presidente da Editora Mundo Cristão e mestre em letras modernas pela USP.
 

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI.

Ultimato quer falar com você.

A cada dia, mais de dez mil usuários navegam pelo Portal Ultimato. Leem e compartilham gratuitamente dezenas de blogs e hotsites, além do acervo digital da revista Ultimato, centenas de estudos bíblicos, devocionais diárias de autores como John Stott, Eugene Peterson, C. S. Lewis, entre outros, além de artigos, notícias e serviços que são atualizados diariamente nas diferentes plataformas e redes sociais.

PARA CONTINUAR, precisamos do seu apoio. Compartilhe conosco um cafezinho.


Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.