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Colunas — Da linha de frente

A rotina da infância perdida

Cheguei em casa. Eu tinha 11 anos de idade. Minhas idéias sobre a vida, o futuro, sexo, eram confusas. Como estudante de escola pública via novelas, beijava garotos. Achava que estava abafando. Mas era uma época em que a bordelização cultural não existia e a Kelly Key dificilmente faria sucesso. As vozes que dominavam a MPB eram as de Elis, Betânia e outras, um tanto diferentes dos gritos orgásmicos que hoje fazem sucesso.

Acho que naquela época fomos poupados de experimentar o desespero existencialista que caracteriza o sexo pós-moderno. Desde uma idade muito tenra, as crianças de hoje sabem tudo, erotizadas pelo tsunami sexual que nos invadiu. Os adolescentes não namoram; ficam com dez, quinze, vinte pessoas em cada festa. O romantismo foi substituído pela prática prematura e animal do sexo.

Mas, como ia dizendo, cheguei em casa, para comer o arroz com feijão cozido na panela de ferro de minha mãe. Entrei pelo portão sempre aberto de casa, passei pelo jardim tomado pelo mato —minha mãe, cujo hobby era jardinagem, andava sem tempo.

Eu gostava de pensar na festa de minha irmãzinha me recebendo em casa. Uma carinha de anjo, cabelinho enrolado e sorriso carinhoso. Ela não parecia ter puxado a veia guerreira das mulheres da família. Era suave e tranqüila, brincava sozinha — sina de caçula. Minha mãe gastava mais tempo com ela do que jamais tivera para mim, a mais velha de todos, mas eu não me importava. A beleza da minha irmãzinha era como a de um quadro de Renoir, um brilho plácido que iluminava a vida conturbada de nossa casa.

Ela não veio correndo me encontrar no portão, como eu esperava. Ouvi um choro e a encontrei nos fundos da casa com a vizinha. Mulher simples, lavadeira, a vizinha balbuciava sem coragem a descrição de uma cena ininteligível para mim na época e quase insuportável quando penso nela hoje. Minha irmãzinha tinha sido forçada a fazer sexo oral com um policial que morava na casa do lado. A vizinha viu, quando já era tarde demais. O abusador já tinha violentado também suas três filhas e não perdoava menina alguma que passava por lá, por mais tenra que fosse.

Fiquei em silêncio, e assim ficou minha maninha por muitos dias, semanas, meses, só babando. Minha mãe não entendia o porquê daquela regressão, uma vez que ela era tão esperta, precoce para a idade. Babava, agora eu sei, para se livrar do nojo e da dor da agressão que sofreu. Hoje, adulta, minha irmã não tem o brilho que poderia ter. Sofre de um distúrbio mental que a condena a viver sob o efeito de remédios fortes. Ela perdeu a inocência muito cedo.

Não sei como terminar. Gostaria de ser otimista, mas é melhor dizer que milhares de crianças passam por isso no Brasil de hoje e milhares de agressores continuam impunes. Prefiro lembrar que o papel da igreja é salgar a sociedade crua da qual faz parte, antes que ela apodreça de vez, e de ser luz nas trevas que a cercam, antes que elas se tornem tão densas que nos apaguem. Saibamos que muitos abusos acontecem dentro da igreja. Fiquemos alertas, porque a pedofilia que hoje nos causa horror e revolta provavelmente, dentro de alguns anos, será considerada como mais uma opção sexual limpa e justificada como qualquer outra das práticas que povoam nossa sociedade, nossa mídia e nossas imaginações pansexuais, cruéis e falaciosamente chiques.

Nota
Esta é uma narrativa fictícia, baseada em fatos reais.


Bráulia Ribeiro é missionária em Porto Velho, RO, e presidente da JOCUM — Jovens com Uma Missão. <braulia_ribeiro@yahoo.com>

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