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Colunas — Entrevista — Thomas Froese

O copo está a metade cheio, não a metade vazio


Jornalista canadense diz que na pós-modernidade não há verdade absoluta e o ceticismo coloca tudo — inclusive a ciência — em pé de igualdade

Nascido na Alemanha e naturalizado canadense, o jornalista Thomas Froese esteve pela primeira vez no Brasil para oferecer seminários sobre jornalismo como missão, por ocasião do Missão 2006, Congresso Missionário Estudantil da Aliança Bíblica Universitária do Brasil, realizado na Universidade Federal de Viçosa, em janeiro de 2006. Depois de passar alguns anos no Iêmen como correspondente do jornal canadense Hamilton Spectator, Froese acaba de transferir-se para Uganda, para escrever sobre questões que envolvem a cultura e a política tanto do país como do continente em geral. Ele quer aproveitar o interesse pela África, que aumentou especialmente desde a série de shows de rock Live 8, promovida em julho de 2005. Sua esposa, a médica Jean Chamberlain Froese, criou o programa Save the Mothers, que busca diminuir ou acabar com a mortalidade de mulheres durante o parto (cerca de 585 mil mulheres morrem a cada ano de complicações do parto que poderiam ser prevenidas). O casal e os dois filhos moram perto de Campala, capital de Uganda.

Ultimato — Para se comunicar com os homens, Deus precisa de pregadores, evangelistas, missionários, profetas, consoladores, pastores, mestres. Você incluiria jornalistas e escritores nessa lista?

Froese — Sim. Vejo os pregadores, evangelistas, missionários e profetas como primos na vocação, e os professores, escritores e jornalistas como da mesma família. As fronteiras entre essas áreas tendem a ser desfeitas. Há apenas uma diferença de meio. Por exemplo, uns usam a voz, enquanto outros trabalham com a palavra impressa. Ou uma diferença de espaço em que se encontra o público alvo: uns estão na sala de aula; outros, na privacidade de suas casas. No final tudo é uma coisa só. Os jornalistas são chamados a ser profetas e, na verdade, freqüentemente jornalistas cristãos percebem-se como abençoados com aquele dom específico da profecia do qual Paulo fala (Ef 4.11). Esse dom não é o de prever o futuro, como muitos pensam. Em vez disso, é o dom de falar a verdade para sua cultura de forma a convencer e levar as pessoas a Cristo.

Ultimato — Em seus seminários no Missão 2006, você disse que “não há sentido mais profundo na vida do que descobrir e viver o chamado”. Como se deu o seu chamado para o jornalismo?

Froese — Quando eu estava na idade de ir para a universidade, não pensava em me tornar jornalista. Na verdade, fui levado ao jornalismo. Eu tinha saído de casa com o desejo de ir para uma escola bíblica. Entretanto, pelas circunstâncias, essa porta se fechou e outra se abriu: a da faculdade de jornalismo. Quanto mais eu estudava, mais percebia que Deus estava me preparando especialmente para essa vocação. Fui bem nos estudos e, enquanto muitos estudantes achavam difícil encontrar trabalho na área deles, Deus novamente abriu portas para mim. Então, credito a descoberta do meu chamado a Deus, que me conhece mais do que eu mesmo me conheço e me ofereceu as oportunidades certas nos momentos certos. Assim, o conselho que dou aos jovens é simplesmente orar como Jesus orou no Getsêmani: “Não seja como eu quero, mas sim como tu queres (Mt 26.39).

Ultimato — O jornalista cristão precisa de formação teológica?

Froese — Acredito que o jornalista cristão que busca preparo teológico é sábio, porém isso não precisa acontecer nos moldes tradicionais, como freqüentar um seminário ou escola bíblica. Ele pode fazer cursos por módulos, cursos por correspondência, por meio de programas de educação a distância em boas escolas, por exemplo. Muito disso depende da sua motivação. E muito depende de ele ter uma experiência de vida suficiente para saber que a educação acontece de diferentes formas. É preciso ser um eterno aprendiz, mas isso não significa apenas a freqüência formal à escola. Ler é muito importante. Além da Escritura em si, os jornalistas cristãos devem seguir uma dieta rigorosa de leituras cristãs que sejam ao mesmo tempo interessantes e instrutivas. O segredo é fazer da leitura um hábito na longa caminhada. Portanto, é um processo de aprendizado para a vida toda.

Ultimato — O jornalista nasce ou é feito?

Froese — O inato versus o adquirido é uma questão que se aplica a muitos campos, e eu diria que o mesmo princípio funciona para o jornalistas: eles são tanto nascidos como feitos. Assim, uma pessoa pode ter talento, mas precisa trabalhar muito para desenvolvê-lo. Pensemos em atletas famosos, como os melhores jogadores brasileiros de futebol. Eles têm o talento natural, mas treinam também. Acredito que há mais jovens cristãos abençoados por Deus para atuarem na imprensa secular do que os que estão atuando. Talvez eles sejam mais vocacionados para isso do que imaginam, mas não são encorajados pela igreja a entrar no que é considerado um mercado secular.

Ultimato — Você afirma que um cristão na sala de redação irá enfrentar pressão, oposição e tensão. Explique.

Froese — Um cristão na sala de redação vai enfrentar pressão, oposição e tensão vindas de várias direções. Uma fonte de tensão será sempre os secularistas que temem, algumas vezes com legitimidade, que um cristão esteja atrás de nada mais do que conversões. Ou, como é comum, alguns secularistas se sentem ameaçados pelos cristãos porque estes sempre trazem a lembrança de que há um Deus que nos faz responsáveis pelas nossas ações. Em ambos os casos, há meios de aproximação com essas pessoas, e o primeiro passo é perceber que elas são complexas e que muitas estão em algum tipo de jornada espiritual. Elas podem estar mais interessadas no evangelho do que se imagina. Tudo depende de ele ser apresentado de maneira correta e de as ações da pessoa que prega condizerem com o que ela fala. Essa tensão da parte dos não-cristãos é esperada. É importante estabelecer contato, criar amizade tanto quanto possível, com os não-cristãos que Deus coloca em nosso caminho. A outra fonte de tensão serão os cristãos dentro da igreja. E essa tensão é mais difícil de se enfrentar porque geralmente se espera mais de quem se é amigo ou com quem se tem algo em comum. Um problema é que os cristãos não entendem que Deus pode chamar crentes a atuar no jornalismo de massa. Mas pontes podem ser construídas aqui também. Na verdade, construir essas pontes é uma responsabilidade chave dos cristãos que já estão no jornalismo de massa. É importante para eles educarem a igreja sobre o trabalho deles. E é importante também para a igreja construir relacionamentos com jornalistas da imprensa de massa, mesmo com os não-cristãos.

Ultimato — Alguém disse que “a tarefa de um jornalista é confortar os aflitos e afligir os conformados”. É isso que o jornalista Philip Yancey faz?

Froese — Sim. Philip Yancey “conforta os aflitos e aflige os conformados”. Nesse caso, porque seu público é largamente a subcultura cristã, “os conformados” são os cristãos que se tornaram complacentes. Ele tem um jeito de jogar água fria em nosso rosto (da comunidade cristã) de tempos em tempos. É um exemplo de jornalista histórico que coloca grande perspectiva em um conjunto de questões. Eu recomendo seus livros e artigos.

Ultimato — O que aconteceria na sala de redação de um jornal secular (ou profano, como você prefere) se todos se tornassem cristãos evangélicos?

Froese — Por um lado, nada aconteceria. Isso mesmo: nada. Porque a natureza do jornalismo é constante. Bons repórteres, sejam evangélicos ou não, buscam a verdade do que está acontecendo na sociedade e a apresenta ao público. Verdade é verdade. Por exemplo, eu trabalhei mais de uma década em uma sala de redação que tinha uma mistura eclética, incluindo um homossexual. Porém, ele era o indivíduo mais experiente entre nós, aquele que geralmente indicava a porta larga nas questões morais. O que se pode fazer num caso desses? Simplesmente notar que os evangélicos não têm o monopólio do que eu chamo de verdade com “v” minúsculo. Por outro lado, poderia se esperar que, se os evangélicos preenchessem uma sala de redação secular, lá haveria um senso de renovação, porque é isso que o evangelho faz. Ele traz verdade para onde há mentiras (ou declaração tendenciosa), traz união para onde há discórdia, e traz cura para onde há dor. Pela sua simples natureza, os vestígios do evangelho deveriam estar presentes nos cristãos que escrevem sobre as chamadas questões seculares. Esse é o significado da encarnação: Deus penetrando o dia-a-dia e a rotina do nosso mundo. Então, nesse sentido, muito poderia acontecer, tanto na sala de redação, quanto nas notícias (de jornais, revistas, TV, rádios, sites), em termos de credibilidade e profissionalismo.

Ultimato — Por que Nicolas Bentley diz que “a ausência de notícias é uma boa notícia; a ausência de jornalistas é ainda melhor”?

Froese — Acho que Nicolas Bentley estava fazendo uma piada a partir da conhecida frase “Não ter notícias é uma boa notícia”. Muitas pessoas não gostariam que faltassem jornalistas, literalmente. Mas a idéia de Bentley é boa: a percepção que o público tem da imprensa nem sempre é positiva. Na verdade, em épocas pós-modernas, pelo menos na Europa e na América do Norte o público é muito cético quanto à maioria das instituições da sociedade. Isso inclui o governo, o clero e a mídia. É importante que os jornalistas, especialmente aqueles que são cristãos, entendam esse profundo ceticismo e desconfiança; assim eles comunicarão com o público no nível apropriado.

Ultimato — Você cita Walter Lippman e diz que “mais jornalistas têm sido arruinados por arrogância do que por bebida”. Existe mesmo esse perigo no jornalismo?

Froese — Autovalorização é, na minha opinião, uma das maiores armadilhas que qualquer jornalista, incluindo o jornalista cristão, enfrenta. É simplesmente da natureza humana usar mal o poder e a autoridade. Mesmo os melhores personagens bíblicos caíram nessa tentação. Davi abusou do seu poder com Bate-Seba, por exemplo. O jovem José abalou a delicada dinâmica de sua família quando falou aos seus irmãos sobre o sonho em que os feixes de trigo deles se curvavam ao seu feixe. E esses eram homens segundo o coração de Deus. No mínimo, os jornalistas têm o poder de formar opinião. No máximo, eles têm o poder de destruir a vida das pessoas. Isso é poder de verdade. Há ainda a questão do poder da exposição. Quando se vê sempre o nome ou a foto de alguém em evidência (como muitos jornalistas ficam) em detrimento de milhares de pessoas, é fácil pensar que ela é mais importante e poderosa do que realmente é. Pode-se até desenvolver um orgulho destrutivo pelo que se faz. Então, há muitas razões para os jornalistas cristãos, como Miquéias, praticarem a justiça, amarem a justiça e a misericórdia, mas andarem humildemente com Deus.

Ultimato — Por que você prefere usar a palavra “profano” em vez de “secular” quando faz oposição ao sagrado?

Froese — [...] Pessoalmente não gosto da palavra “secular”, porque a tendência é usá-la para descrever o aspecto da vida que não está associado com a Igreja ou com a visão que ela tem, às vezes mal direcionada, de espiritualidade. “Secular” é usado especialmente para descrever aquele aspecto da cultura que não é parte da subcultura da Igreja, e isso não está certo, pois foge da sacralidade do cotidiano. Cristo desceu à terra de forma muito humana. Ele amarrou suas sandálias todos os dias e realizou todas as tarefas diárias como qualquer um de nós realizamos. Teve fome. Cansou-se. Ele não fez todos os milagres que poderia ter feito ou que nós esperávamos que ele fizesse. Ele viveu de forma comum, mundana, normal. Com esse exemplo, somos lembrados que há algo santo nos aspectos diários da vida. Jesus gastava mais tempo fora da sinagoga, assim como nós gastamos mais tempo fora da igreja. E tudo isso era sagrado, não secular. Então, o problema não é a chamada vida secular, mas a vida que nega a presença de Cristo nas tarefas diárias da vida. Isso é o que eu chamo de profano. É o nome apropriado para um viver de negação da presença santa de Deus em cada canto do mundo. Estou convencido de que, a partir do momento em que a Igreja viver mais desse modo, seremos mais aptos a uma ligação mais efetiva com aquelas pessoas que estão fora da igreja e procurando Cristo.

Ultimato — O que você chama de verdade com “v” minúsculo e Verdade com “V” maiúsculo?

Froese — Verdade com “v” minúsculo é a verdade comum, que faz do jornalismo um trabalho que lida com a narração de fatos de maneira acurada e com espírito de profissionalismo. Verdade com “V” maiúsculo é a verdade de Cristo, como ele disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14.6). Para o jornalista cristão, as duas complementam uma à outra. Os cristãos, no entanto, tendem a desvalorizar a verdade com “v” minúsculo, o que é um erro. Toda verdade é verdade de Deus, e acredito que Deus sorri quando sabe que jornalistas estão fazendo seu trabalho com integridade.

Ultimato — Que tipo de cristãos você chama de “evangélicos adormecidos”?

Froese — Evangélicos adormecidos são pessoas que cresceram na tradição evangélica ou foram salvos quando jovens, mas por alguma razão não permaneceram em uma igreja saudável. Eles se relacionam ou não com outros crentes, lêem a Bíblia ou não, oram ou não. Eles conheceram a Verdade, mas perderam a comunhão com Deus. Precisam ser reavivados.

Ultimato — Como você descreve o pós-modernismo, em poucas palavras?

Froese — Estudiosos dizem que o pós-modernimo é a época desde 1989 até hoje em dia, já que o modernismo foi de 1789 (início da Revolução Francesa) até 1989. Enquanto na era moderna a verdade era valorizada, no pós-modernismo há uma visão geral de que a verdade é apenas uma construção daqueles que querem ter ou manter o poder na sociedade. Não há uma verdade absoluta. Há ceticismo sobre tudo, não apenas sobre a fé. Apesar de esse ceticismo não ajudar diretamente a fé, em si, ele coloca tudo (incluindo a ciência) em pé de igualdade. Nesse sentido, é uma tremenda oportunidade para a Igreja. O copo está a metade cheio, não a metade vazio. Alguns líderes eclesiais dizem que as pessoas agora estão mais abertas a ouvir e conhecer o evangelho do que estiveram por centenas de anos. Como se diz, “dê voz à verdade e veja o que acontece”. O desafio, especialmente para os jornalistas, é lutar para manter a discussão aberta, e não esperar que as Escrituras se divulguem, mas lutar em termos que são usados no mercado e na praça pública, como foi o caso de Paulo, por exemplo, quando foi a Atenas.

Ultimato — No que diz respeito à religião, quem está em pior situação: o Ocidente ou o resto do mundo?

Froese — [...] Muitas partes do Ocidente estão como as igrejas de Corinto. Têm conhecimento da verdade, mas negam o seu poder. Esse é o caso especialmente da Europa. Nos Estados Unidos, geralmente é difícil separar a cultura geral, a subcultura cristã, o evangelho real. Jesus está americanizado. Pergunto-me se a situação não é parecida no Brasil. A igreja é uma grande subcultura, na qual se pode facilmente viver a vida inteira dentro dela e continuar irrelevante para a sociedade em geral. Boa parte do resto do mundo — África e América Latina, por exemplo — é realmente muito cristã agora. O que é “pior”: conhecer o evangelho e não vivê-lo, ou viver em regiões do mundo não-alcançadas pelo evangelho? Não sei. Mas suponho que Deus julgará as pessoas que sabem mais com um padrão mais alto do que o que usará para aqueles que nunca ouviram falar das boas novas, em regiões do mundo onde o acesso ao evangelho é restrito.

Ultimato — Parece que você faz diferença entre cristandade e cristianismo. Qual é essa diferença?

Froese — Cristianismo é a parte real. É o evangelho, o Espírito de Deus vivendo e se movendo na história, no passado, no presente e no futuro. Não precisamos nos preocupar com o fim desse poder. Já cristandade é o poder estrutural da igreja. Pode ser visto na estrutura política, por exemplo. Constantino fez do cristianismo a religião oficial do Estado de Roma no quarto século. Nos mais de 14 séculos depois, a cristandade teve maravilhosos momentos ao sol; no entanto, agora está enfraquecendo em muitas regiões do mundo, em parte por causa de ataques externos, mas principalmente por conflitos internos. É em essência uma civilização em queda, o que não deveria nos assustar. Sabemos que a história é construída sobre as ruínas do passado. Nunca houve um império, nem mesmo entre os bons, que durasse para sempre. O importante é lembrar que de uma cristandade em ruínas pode surgir um cristianismo reavivado. O poder de Deus e do Espírito podem trabalhar mais quando alguns obstáculos, incluindo parte da Igreja, são removidos.

Ultimato — Você acaba de dizer que nunca houve império que durasse para sempre. Há algo que os Estados Unidos, a nação mais poderosa do mundo desde a Segunda Grande Guerra, possa fazer para adiar essa queda?

Froese — Nós simplesmente não sabemos o que Deus tem preparado para os Estados Unidos, o que ele pode vir a fazer com esse país que ele tem abençoado e usado historicamente. Certamente, se o povo de Deus ora, Deus cura a terra, seja americana ou não.

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