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Colunas — Da linha de frente

Gastei meu verde

Bráulia Ribeiro


Dobrei a esquina da avenida movimentada, pronta para mais um engarrafamento monstruoso e me dei conta de que meu depósito de verde já tinha acabado. Gastei meu verde, não consegui guardá-lo; ele se foi, secou em forma de papel velho, virou fumaça, virou um pó preto sedimentando em meus poros.

No aeroporto o estresse contínuo das vozes chamando para os vôos, os espaços ocupados por corpos ansiosos por chegar ou partir, levaram embora o pouco de paz que tinha ficado dos pássaros que meio distantes ainda me cantavam na mente. Cidades não são pra mim. Por que São Paulo se acha tão moderna, se entende tão sofisticada em sua imensidão de problemas, de conflitos, em tanta sofreguidão desatendida?

Cansei do caos, da dor onipresente, de passar de carro ao lado de pés descalços, de ver mendigos como parte da paisagem. Cansei de estar ombro a ombro com quem não conheço, cansei de partilhar sorrisos que não serão retribuídos.

Cansei de me crer maior do que eu mesma, de me ver sobre-humana em outdoors com rostos e corpos digitalmente perfeitos; cansei de me iludir com uma presunção de grandeza e de um vanguardismo que não existe, e provavelmente jamais existirá. O que existe é a miséria em forma de casas amontoadas e falta de solução. Cansei de me sentir parte do mundo quando minhas partes estão em partes. Cansei de me ver no lixo que beiram as calçadas e pensar em meus netos, bisnetos e trinetos perambulando por um planeta deserto.

Cansei das celebridades, das roupas, do modo como as pessoas se olham. Cansei dos sapatos, dos pés nas calçadas, dos cachorros de madame. Cansei dos shoppings, templos de adoração pós-modernos; cansei de mim, diante deles, mesmerizada, hipnotizada pelos seus encantos. Cansei da Daslu na favela, e da Favela na daslu. Cansei do tom e sobretom, do sobretudo cinza sobre tudo.

Como a Elis ou sei-lá-quem, quero minha casa no campo, meu bangalô na selva, meu momento único, minha vida como uma seqüência eterna, minha união com o todo. Quero voltar pra mata, integrar-me de novo à teia da vida. Deus fez a natureza, sua essência, suas cores. Pensei nos Suruwahá e em como eles sopram sua corneta de envira para chamar a alma de Deus em toda a criação para adorá-lo junto conosco.

Semanas depois já na selva, estou ao telefone:

— Alô, Márcia?

— Alô... Tô aqui no hospital com a Iganani, levando-a para a fisioterapia. Todos os dias a gente vem, ajudando a mãe, para tentar reviver as perninhas mortas dela. Você sabe que a vida na aldeia pra ela será difícil.

— Ah... O sítio é longe, né?

— É longe. Mas foi melhor. Seria muito difícil para eles a cidade, muito barulho, fumaça. Verde faz falta.

— É... E a cirurgia? Nada?

— Nada ainda, parece que só daqui a dez dias. Enquanto isso a gente ajuda a Iganani. Mas pra Sumawani é ruim, e para os pais também. E eles também estão com medo.

— É, eu lembro o que o Naru disse; ninguém os trata com respeito, né?

— É, ninguém... Ontem o Naru falou que não é índio não, ele é gente, ele é Suruwahá. Ele percebeu que índio aqui, não importa se está doente, não importa se precisa de nós... a gente da floresta não vale nada.

Imaginei o desespero deles e quase me cansei da vida, da televisão, da mídia, de ser responsável, de amar os outros, de perdoar os que me ofendem, de não ofender de volta, de ser incapaz, de ter voz fina, de ser minoria, de não ser canalha, de não ter muito dinheiro e de não ter muita força. Quase.

Bráulia Ribeiro é missionária em Porto Velho, RO, e presidente da JOCUM — Jovens com Uma Missão. braulia_ribeiro@yahoo.com

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