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Colunas — Da linha de frente

Choque de civilizações?

Bráulia Ribeiro

Xagani tinha passado os dois últimos dias assando e cozinhando carne de boi. No começo tinha achado boi uma coisa meio esquisita. Como poderia haver um animal tão grande e tão fácil de caçar? Deveria haver alguma coisa errada com a carne. Mas agora gostava, principalmente das partes gordas.

Durante o dia, no centro missionário, os curiosos passaram de cá pra lá observando a família de índios preparar a carne. Eles a cortavam numa folha de banana no chão, cozinhavam só com água para depois assar num moquém também ao ar livre. Os estudantes americanos, no último dia ali, souberam depois que os índios estavam lhes preparando uma festa de despedida. Já haviam tido choque suficiente durante aquele mês. Estavam no meio da Amazônia, visitando as casas miseráveis dos ribeirinhos, a cidade malcheirosa, o mato sufocante à volta. Não entendiam quando os missionários lhes explicavam que não podiam aplicar as telas contra mosquito nas casas de graça.

“Nós vamos explicar a eles que, se querem telar suas casas, têm de contribuir com cinco reais e ainda ajudar no trabalho.” A quantia soou ridícula aos ouvidos dos jovens, que se conformaram sem entender.

Feito. Trabalharam muito depois de cada acordo, sabendo que as telas significariam menos malária, um pouco mais de conforto para aquelas famílias com uma renda mensal equivalente a uma noitada de sábado na cidade onde moravam. Isso já era como um furacão devastando o mundo interior deles. Apesar de terem ouvido as explicações dos missionários brasileiros de que, para os próprios índios, eles não estavam nus, e que o senso cultural de modéstia deles permitia às mulheres os seios e o traseiro à mostra, e aos homens, tudo, a visão insólita ainda agredia os olhos dos jovens.

Samuel Huntington escreveu um artigo que se tornou um clássico na interpretação da época em que vivemos.[1] Segundo ele, ao mesmo tempo em que a força globalizadora engole impiedosamente culturas e cosmovisões fechadas num vendaval massificante, uma força nacionalizante faz com que sociedades reajam em busca de uma identidade peculiar a elas, seja no passado ou no presente conturbado. Essa nacionalização hostiliza o novo, deixando as sociedades debaixo de um paradoxo cruel, que é o motor das guerras étnicas.

Com o canto de Xagani naquela noite, feliz, adornado em uma vestimenta de anjo, soprando orações para Jaxuwa, o filho do Deus criador, que reencontrou com sua tribo depois de tantos séculos de espera,[2] entendi que podemos ir além de Huntington. Xagani tocava a corneta de envira para demonstrar que, com certeza, algo de bom viria encontrar aqueles estudantes que se despediam dali, que o espírito de Jaxuwa, que corre solto nas matas (e ao que parecia às entranhas iniciantes de Xagani, tateando ainda para conhecer aquele mundo diferente ao seu redor), anda por aqui também entre as casas e os prédios da cidade, que a ele também parece malcheirosa. Os jovens americanos recebiam as orações sopradas com o coração sedento de Jesus e os olhos cheios de lágrimas. Civilizações nos extremos da escala econômica se encontrando, se respeitando, se amando e aprendendo uma da outra com humildade. Huntington deveria estar ali pra ver.

Notas

.The Clash of Civilizations. Samuel P. Huntington. Foreign Affairs, Summer, 1993.

. A maioria das tribos amazônicas conhece o criador, mas não tem acesso a ele, pensando-se abandonados por ele, por causa de alguma desobediência de seus ancestrais ainda no tempo em que os animais falavam.
Bráulia Ribeiro é missionária em Porto Velho, RO, e presidente da JOCUM — Jovens com Uma Missão. braulia_ribeiro@yahoo.com

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