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Colunas — Da linha de frente

O impeachment de mim mesma

Pela primeira vez, pediram na Câmara dos Deputados a cassação do presidente Lula. Sinto-me como quem carrega um caixão na avenida, olhando para os viúvos e as viúvas ao meu lado chorando. Acompanho meu próprio enterro, apesar de estar do lado de fora, segurando uma das alças. Também me vejo pelo vidro deitada lá dentro; a cara de cera, os lábios sem expressão.

Meu presidente operário era o Brasil no palácio. Os gestos de povo, a fala errada, a franqueza, a dona Marisa, as festas juninas. Brasileiro e brasileira com erros e acertos, com nossa estupidez encantadora no exterior estampada de verde e amarelo, nosso sofá das Casas Bahia, nossa cachacinha às vezes demasiada, nossa crendice ora evangélica, ora mariólatra, mas sempre presente.

Fé evangélica, mente marxista, prática de vida animista — denunciou um amigo meu, especialista em tendências, depois de fazer uma pesquisa com crentes de várias denominações evangélicas. Fiquei chocada. Imaginava que nossa cosmovisão não era exatamente bíblica, mas não esperava isto. Eu deveria ter observado os frutos — o que estamos produzindo de transformação social — para chegar à mesma conclusão: nossa mente não é cristã, ainda que nossa fé o seja.

O povo evangélico e o Governo são irmãos por parte de mente. Não é de admirar que pensemos assim, uma vez que nosso sistema educacional, do ensino fundamental à faculdade, repousa nas costas de elefantes ideológicos derivados toscamente do que sobrou do marxismo.

– A responsabilidade pelo que me acontece é sempre dos outros: do diabo, das elites, do presidente, das classes dominantes...

– Ninguém pode mudar seu próprio destino ou o de seu país; isso cabe ao Estado, às instituições ou à luta de classes.

– Pobreza não tem nada a ver com moralidade ou com esforço próprio. Quem é rico é intrinsecamente culpado por ter, mas o pobre é sempre uma vítima do sistema.

– Não há maneiras honestas de se enfrentar o sistema, já que a honestidade é mera ilusão. No meio político só se lida com ele corrompendo-o, torcendo-o, manipulando-o. No meio religioso, animisticamente, esperamos que algum ritual de oração, alguma novena, algum dízimo milagroso, algum óleo mágico, ou a vontade inexorável de Deus, produzam metafisicamente os resultados que esperamos.

A ética calvinista do trabalho, responsável pela transformação social de muitos países protestantes, afetou pouco nossa mente, que separa o secular do sagrado como se fossem territórios inimigos. Trabalho secular para quê? Temos nossa responsabilidade cristã restrita às coisas sagradas, ao que é de Deus, da igreja... Se eu cumprir minhas obrigações religiosas com diligência, não importa muito como eu vivo. O que me faz um bom cristão é o quão religioso sou (se sei orar e pregar) e não se sou justo, trabalhador ou honrado. Para a igreja vale tudo: roubar no trabalho, fazer leis que beneficiem apenas os cristãos e não a sociedade como um todo, usar dinheiro público para construir templos. Afinal é o crescimento do reino que estamos promovendo. Meu sim pode ser não e meu não, sim; depende de quanto vou levar.

Minha esperança para o futuro não está em Deus nem em mim mesma, mas em algum herói fictício que espero surgir no horizonte. Lá vem o super-pastor (ou o super-presidente), com seu terno cheio de bugingangas poderosas, a Bíblia mágica que queima meus pecados e suas conseqüências na minha vida, a oração de raios que faz aparecer benefícios milagrosos do nada ou uma medida provisória que transforma 500 anos de tradição cultural em segundos.

A derrocada do presidente é minha. Quando o enterrarem verei meus olhos em seu rosto desapontado. A pergunta dele será a minha: “Por que, se eu estava fazendo tudo certo no papel de super-herói?”.

No entanto, se esse dia fatídico não chegar — afinal, minha ética não é confiável, e as leis são feitas para que eu as molde às minhas necessidades —, quero me adiantar e declarar a todos: “Nós, povo brasileiro, estamos impedidos de nos governar!”.


Bráulia Ribeiro é missionária em Porto Velho, RO, e presidente da JOCUM – Jovens com Uma Missão. braulia_ribeiro@yahoo.com

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