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Colunas — Arte e cultura

Meu fado

Segunda-feira, 9 de maio de 2005. Minha esposa atende o telefone, e depois do seu alô costumeiro há uma longa pausa, diferente dos seus outros silêncios. Do quarto ouço a sua primeira palavra, num tom agudo e sussurrado que ela reserva para aquilo que foge de seu controle. Meu pai acabara de sofrer um grave acidente de automóvel em Portugal, onde visitava meu irmão.

Embarquei num avião da naquela mesma tarde. Ao chegar ao apartamento de meu irmão, em Sintra, choramos juntos eu, ele e a sua esposa. Fomos, então, ao hospital. Meu pai perdera quarenta por cento de seu sangue e estava inconsciente devido ao violento traumatismo craniano. Minha querida madrasta chegou dos Estados Unidos, e ao longo das semanas seguintes fizemos diariamente duas longas peregrinações no intenso trânsito de Sintra até o hospital Garcia da Orta, em Almada. Este hospital localiza-se no alto de um penhasco, na margem sul do rio Tejo, de onde se pode contemplar toda a deslumbrante cidade de Lisboa.

Na ante-sala da UTI, os dias se passavam e se fundiam. Fomos nos acostumando com os tons escuros das roupas dos que visitavam outros pacientes, com os olhares que se desviavam da curiosidade alheia e com a familiaridade milenar que o povo português tem com relação à solidão, à morte e à saudade.

Meu pai não conseguia despertar. À medida que ia se recuperando fisicamente, celebrávamos cada movimento seu, cada descerrar dos olhos, cada virada inédita, cada aperto de mão. Falamos com ele, lemos trechos da Bíblia, recontamos suas histórias prediletas. Sua consciência, porém, permanecia profundamente mergulhada, longe da superfície.

Recebemos centenas de mensagens de apoio, de angústia, de preocupação e de esperança. Mensagens de gente que admira meu pai, e que o conhece como um homem de Deus, visionário, carinhoso, missionário, apaixonado pelo Senhor e pelas causas do reino. Um homem de poucas palavras, que irradia amor e carrega uma aljava cheia de sabedoria. Um homem de caráter, que guardava um único temor: permanecer inconsciente ou ficar deficiente como resultado de um derrame ou acidente.

Neste momento, de volta aos Estados Unidos, meu pai continua internado numa clínica de reabilitação, ainda à beira da consciência. Todos nós, parentes e amigos, vamos nos conformando, resignados com esta nova visagem da dor humana: a da paciência supliciada; a da percepção tardia e cruel de que talvez não sejamos tão privilegiados quanto imaginávamos; a da compreensão de que também há rumores de Deus nos cantos mais sombrios da terra.

Em julho visitei uma exposição de arte na Estação Pinacoteca em São Paulo, intitulada Dor, forma e beleza. A mostra reúne obras de artistas brasileiros que retratam a dor. Os objetivos desses artistas foram diversos: protestar contra o sofrimento imposto a vítimas inocentes, investigar os vestígios físicos da dor e registrar momentos angustiantes de auto-flagelação. Todos levam a uma só conclusão: nos propósitos ideais da criação, a dor é sempre deturpação; é estranha, antinatural, errônea.

Na mesma semana ciceroneei Philip e Janet Yancey durante sua visita ao Brasil. Entre vários compromissos, Philip participou do lançamento do seu livro A Dádiva da Dor, escrito com Dr. Paul Brand, especialista em hanseníase. Esse livro defende a idéia de que, no escopo da existência do ser humano, a dor é necessária e, às vezes, até bem-vinda. No caso dos hansenianos, a ausência dos alertas da dor leva ao alastramento de pequenas feridas e infecções, que resultam em lesões incuráveis ou em amputações. À semelhança do que ocorre no âmbito físico, a ausência da dor emocional, da culpa ou da sensibilidade espiritual também pode nos desfigurar.

O novo CD de Mariza, uma jovem e bem-sucedida cantora de fado em Portugal, contém uma frase arrebatadora. Neste mundo, entoa, somos todos sobreviventes, “amantes abraçados contra a morte”. Mariza dá cor e forma àquilo que os portugueses descobriram há séculos: não existe vida natural sem dor.

Para o cristão, o desafio é duplo: conseguir sacrificar no altar do Senhor algo que nos é muito caro — a pergunta “por quê?” — e aceitar, como o conformado Cristo no jardim do Getsêmani, o misterioso e insondável amor de Deus, que atravessa o tempo e a própria razão para expressar-se no íntimo de nosso coração com a língua das lágrimas, e que nos espera ansiosamente na vida que ainda virá.




Mark Carpenter é diretor-presidente da Editora Mundo Cristão e mestre em letras modernas pela USP.

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