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Reflexão — Robinson Cavalcanti

Episcopado: honra ou martírio?

Agostinho de Hipona afirmou que “o episcopado é constituído por pouca honra e muito martírio”. Antes que a Reforma Protestante também tivesse setores que optassem pelas formas presbiteriana ou congregacional, a forma episcopal de governo da Igreja, com sua evolução, é a mais antiga e disseminada no cristianismo. Romanos, bizantinos, pré-calcedônios e nestorianos eram, então, dirigidos por bispos. Hoje, 90% da cristandade continua a ter um episcopado, histórico ou não, com sucessão apostólica ou não, usando ou não explicitamente o título de bispo para os seus dirigentes.

No final do século passado registrou-se uma opção crescente pelo episcopado em denominações pentecostais e neopentecostais, seja pelo convencimento do seu valor, seja para legitimar lideranças pessoais autocráticas e narcisistas. O episcopado, como superintendência ou supervisão, como necessidade de ordem, é, de fato, adotado pelas denominações não-episcopais sob o risco de ineficiência e desagregação.

O episcopado não pode ser percebido apenas como algo jurídico-administrativo, pois, além disso, pressupõe uma teologia de continuidade do ministério apostólico. O anglicanismo o tem adotado ao longo da sua existência como uma de suas marcas, juntamente com as Escrituras, os sacramentos e os credos, em seu “Quadrilátero de Lambeth”. É nesse espaço que se movem pensadores como Stott, Packer e Alister McGrath (apesar de alguns editores omitirem a identidade denominacional deste último).

Como fui, a maior parte da minha vida, escritor, evangelista e pregador leigo (ordenado já aos 40 anos de idade), foi com surpresa — e muito temor — que vi o meu nome ser indicado e, posteriormente, eleito e homologado para ser o bispo da Diocese Anglicana do Recife, em 1997, com jurisdição sobre todo o Nordeste. Nunca aspirei ao episcopado, embora o apóstolo Paulo o considere positivo (talvez, pelo fato de ele nunca ter sido bispo). Com temor e tremor, mas com profunda convicção de chamado e de dever, assumi esse ministério com uma mudança radical em meu estilo de vida. Encontrei uma diocese jovem, carente de organização administrativa e financeira, de um conhecimento bíblico e doutrinário mais profundo e de uma identidade anglicana, e com poucos ministros ordenados, em geral marcados pelo personalismo e pelo paroquialismo. Além disso, apesar de toda a paciência e diálogo, alguns acabaram por nos deixar, nem sempre usando a requerida ética para explicar os seus gestos.

Procurei, com humildade e determinação, dar o melhor de mim, de certa maneira envelhecendo com e pelo cargo. Estimulamos as vocações, ampliando e reformando os seminários, e 64 pastores foram ordenados em oito anos. Incentivando o estudo bíblico e doutrinário, a reforma e a atualização das nossas normas, a intercessão, o serviço, o profetismo e, particularmente, o evangelismo, crescemos de dez para mais de cinqüenta congregações e dobramos o número de membros. Para tanto, contamos com uma nova geração de líderes, que vestiram a camisa, acreditando na contribuição que o anglicanismo, com sua história, teologia, liturgia e maneira moderada de ser, teria a dar aos cristãos do Brasil. Ao olhar para trás, constato, apesar de tudo e de todos, que, verdadeiramente, “até aqui nos ajudou o Senhor”, mas também que a responsabilidade, as dificuldades e os obstáculos, pessoais e institucionais, dão razão a Agostinho, pela escassez de honra e pela profusão de martírio.

Aprouve à Providência que eu vivenciasse esse ministério no momento de crise da civilização e da cristandade, marcadas pela pós-modernidade, com seu individualismo, subjetivismo, relativismo e negação de toda a verdade e absolutos, inclusive quanto à doutrina e à ética. As Sagradas Escrituras são esvaziadas de sua autoridade, a Igreja é esvaziada como agência do reino de Deus e povo da Nova Aliança, e o próprio Jesus Cristo é negado como o único Senhor e Salvador. A afirmação da licitude das relações homoeróticas, a ordenação ao ministério dos seus praticantes ou a bênção de suas uniões são decorrências dessa crise profunda.

O anglicanismo, que se deslocou para a África e Ásia, é ortodoxo e missionário em sua absoluta maioria, como atestaram as votações da última Conferência de Lambeth, de 1998. Países do Primeiro Mundo secularizado, a partir dos Estados Unidos, são liderados, porém, por uma minoria liberal e revisionista. O anglicanismo no Brasil, de passado evangélico, situa-se hoje nesse campo minoritário, reforçado pela migração de oriundos de outras denominações, desertores de suas antigas convicções. A Diocese do Recife, de maioria evangélica, constitui-se em honrosa exceção, sempre se posicionando em defesa da fé apostólica. As tensões no Recife e na igreja nacional, sofrendo atos de intervenção, a deposição do seu bispo e a ameaça de deposição do seu clero somente podem ser entendidas no contexto desse conflito mundial, de conseqüências imprevisíveis, apesar de versões distorcidas.

A Diocese do Recife, com o apoio da maioria das Dioceses da Comunhão Anglicana, em uma situação de excepcionalidade, no exercício da sua autonomia canônica e como sociedade civil, continua unida, me reconhecendo como o seu bispo (atitude tomada por lideranças de outras denominações), na busca de uma solução institucional. Este é, para mim, um momento de dor, de sofrimento, mas, também, de esperança no Senhor da história e da Igreja.




Dom Robinson Cavalcanti é bispo da Diocese Anglicana do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política – teoria política e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo – desafios de uma fé engajada. www.dar.org.br

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