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Exclusivo Online — Temos ciúmes de Karavõvõ

Temos ciúmes de karavõvõ

Matapi Waiãpi é mais brasileiro que o presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele é chefe indígena. Fala a língua waiãpi, um dialeto do amapari. Karavõvõ é uma área indígena situada no alto do rio Aroã, tributário de um tributário do rio Jasi, no Amapá, não muito longe da Serra do Navio.

Este texto foi gravado pela lingüista Cheryl Jensen por volta de 1988 e parcialmente publicado no relatório da Sociedade Internacional de Lingüística (SIL) de 1996. Ultimato publica o texto completo, com permissão do autor e com o objetivo de esclarecer por que o índio precisa de mais terra, além daquela que é diretamente aproveitada pelo homem.

Temos ciúmes de nossa terra. Não quero que os garimpeiros cheguem a invadi-la.

Temos ciúmes da caça, especialmente da anta. Sempre, desde os tempos antigos, comemos anta. Se os garimpeiros começarem a morar aqui, as antas vão acabar. O que meus netos farão então?—pergunto. Não fomos criados comendo carne de boi e de porco doméstico. Nós não criamos estes animais domésticos, nem sabemos criá-los. Comemos só animais da selva, tais como cuamba, caititu e jabuti. Por esta razão não quero que os garimpeiros invadam a região que chamamos de Karavõvõ. Temos ciúmes da caça, das antas, dos jabutis.

Existe muita terra longe daqui. Se quiserem morar e trabalhar lá, tudo bem, mas não aqui na minha terra. Nossa terra estende-se até o rio Jarí, e inclui a região de Karavõvõ. É nesta região que moravam nossos avós e não vamos perdê-la. No futuro meus netos irão daqui para Karavõvõ para caçar. Se os não-índios passarem a morar no nosso meio no futuro, meus netos não terão nada para comer. Então me perguntarão:

—Por que não tem mais caça?

As plantas de mamão nascem sob a cobertura da floresta. Sem essa cobertura, o mamão não nascerá, nem a banana, nem a batata-doce, por causa do calor do sol—me ensinaram meus avós. “A terra quente, sem seiva, vai se estender longe”—dizia vovô.

Temos ciúmes do timbó, que usamos para matar peixe. Por isso não quero que os não-índios venham aqui à minha terra e acabem com ele. Também temos ciúmes do bacurizeiro, cacaueiro e da tamanqueira.

Esta não é a terra dos não-índios. É a nossa terra. Sempre fazemos viagens para Karavõvõ para caçar. Também há muito açaí lá, e sempre vamos lá para comê-lo.

Também não quero que os não-índios acabem com o cipó, sem o qual eu não poderia amarrar a estrutura de minha casa. Preciso também das acariquaras para fazer a casa, e tenho ciúmes delas.

A fronteira de nossa terra é longe. Não está perto, não.

Outras árvores da nossa terra são o arqueiro e o biribazeiro. Se derrubarem as árvores, a terra vai ficar quente e o algodão não vai mais nascer. Se isto acontecer, meus netos me perguntarão:

—Vovô, por que o senhor não mandou os garimpeiros embora? Agora o senhor só fica falando das frutas que existiam antigamente! O senhor é cacique, não é? Então por que o senhor não falou com força para eles?

Nós não somos cachorros. Cachorros não sabem pensar, mas nós conhecemos as conseqüências de nossas ações. Muito tempo atrás meu avô dizia:

—Os Waiãpi são poucos, mas suas palavras têm força. Fale com firmeza.

Por isso agora estou falando. Se eu não proteger a nossa terra, no futuro meus netos vão me dizer:

—Por que o senhor deixou que os garimpeiros acabassem com a bacaba e o açaí? Agora queremos comê-los, mas não encontramos mais.

Não queremos deixar nossos netos sofrerem assim. Por isso estamos com ciúmes da selva. E de tudo que nela há. Por exemplo, o angelim-rajado. Fazemos roças ao redor dele, pois este é um lugar bom para plantar banana ou cunambi. Outros exemplos são o acapu, a maçaranduba e a carapanaúba, que usamos para fazer cabos de machado. Se acabarem estas árvores, meus netos não terão como fazer cabos no futuro.

Também precisamos da areia. Os não-índios não podem vir tirá-la, porque sem a areia, não vai nascer milho, só cerrado. Não podemos fazer roças no cerrado. Sem a cinza das árvores queimadas, a mandioca não vai crescer. Se os não-índios acabarem com as árvores que estão na minha terra, não vai ter mandioca nenhuma.

Também temos ciúmes do timbó e da castanheira. Precisamos de miraúba para fazer pontas de flechas. O apuí atrai os tucanos, então fazemos tocaias nele para matá-los. Temos ciúmes dos tucanos, pois comemos a sua carne e usamos as penas para fazer cocares. Lá tem louro e a planta que chamamos pajawaru’y (Guarea gomma), que produzem comida para os animais de caça. Também há pau-d’arco lá. Por isso os não-índios não podem cortar as árvores por lá. Não quero que os não-índios fiquem derrubando os açaizeiros.

A fruta do cedro-canela serve de comida para os animais (tais como caititu, veado, mutum e jacamim). Temos ciúmes dele. Todos os animais o conhecem como um lugar para comer durante o inverno, e a Envira, durante o verão. Então sempre fazemos tocaias neles para caçar na época certa. Por isso fazemos tocaias na árvore que chamamos de asiwa para matar cutias.

Também há muito cipó lá do tipo que chamamos de tameju’ysiri. Sua fruta é comida para o jacamim, o urucorcovado, o mutum e o inambu. Outra planta que fornece comida em março para a anta e o jabuti é a jaracati. Outra planta cuja fruta o mutum come é a biribarana. A fruta da árvore que chamamos de yuyky também está madura em março. O muriti também produz frutas. Estamos com ciúmes de todas elas.

No futuro pretendo mandara meus netos para lá, e direi para eles:

—Tinha fruta por lá no passado. Vão lá para morar.

Então meus netos irão lá para comer. Outros irão para morar por causa da abundância de peixe. Por aqui (no rio Onça) não tem peixe, porque os não-índios se estabeleceram no rio abaixo e acabaram com os peixes de lá.

Não moramos na terra dos não-índios. Moramos na nossa terra. Moramos num lugar que tem muito pau-d’arco. Temos ciúmes da nossa terra, por causa do pau-d’arco. Se deixarmos os não-índios invadirem Karavõvõ, meus netos me perguntarão no futuro:

—O que aconteceu com o pau-d’arco? Por que o senhor deixou os garimpeiros acabarem com o pau-d’arco, vovô? Como é pau-d’arco? Com que podemos flechar agora? Queríamos ter arcos.

No futuro meus netos serão muitos. Não vão demorar a crescer. Seremos muitos, assim como os não-índios são. Os não-índios pensam que somos poucos, mas nossos avós nos disseram para nos multiplicarmos. Por isso agora tenho tantos netos. Por isso eu digo às crianças:

—No futuro, vocês precisam is morar em Karavõvõ. Depois voltem e tragam pau-d’arco para cá.

Seremos muitos por lá. Já temos planos para morar lá de novo. Por isso tenho ciúmes de nossa terra. Temos ciúmes dos ingazeiros, que são muito por lá. Por isso não quero que os não-índios tirem nossa terra de nós.

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