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Reflexão — Ricardo Gondim

Quero aprender a lamentar

O profeta Ezequiel comeu um livro repleto de lamentos, prantos e “ais”. Depois de encher seu estômago, afirmou: “Eu o comi, e na boca me era doce como mel”(Ez 3.3). Como pode tal livro ser doce na boca de alguém? É muito estranho gostar de lamentos numa sociedade hedonista e obcecada pelo sucesso. Mas, felizes os que pranteiam e aliviam o coração de suas dores; eles conseguem afogar suas coerências em lágrimas; choram sem o patrulhamento da lógica e não se importam com a censura. Alguém já disse que o poeta só é poeta se sofrer, mas também se pode afirmar: o profeta só é profeta quando aprende a lamentar.

Abracei, por anos, uma fé discursiva, triunfalista e racional, que me fez esquecer o valor do lamento. Eu associava o pranto à fraqueza. Achava que a mensagem do evangelho transformaria as pessoas em vencedores imbatíveis e que nada poderia abalar um crente. Até que li o teólogo judeu Abraham Joshua Heschel. Com ele aprendi uma nova dimensão sobre intimidade com Deus. Heschel afirmava que os profetas não foram meros porta-vozes da fala divina, mas pessoas chamadas para comungarem do pathos de Jeová — palavra grega que significa sentimento. Para ele, ser profeta representava o privilégio de partilhar as emoções divinas. Assim, quando Jeremias, por exemplo, chora e lamenta, as lágrimas não são suas, mas do Deus dele. O apóstolo Paulo também pensou nessa identidade profética ao afirmar em Filipenses 1.29: “... a vocês foi dado o privilégio de não apenas crer em Cristo, mas também de sofrer por ele”.

Assim, quero me tornar íntimo de Deus não apenas para celebrar sua presença no que há de bonito e louvável, mas também para aprender a lamentar com ele os horrores de um mundo que não cumpre sua vontade.

Quero conhecer o coração de Deus para lamentar a sorte da África, que vem sendo dizimada pelo avanço da aids. Saberei chorar a morte desnecessária de milhões de crianças que se amontoam em campos de refugiados, expulsas por guerras étnicas. Lamentarei o descaso das nações ricas, tão preocupadas consigo mesmas. Sofrerei por elas se comportarem como Caim, que respondeu ao Senhor: “Sou eu responsável por meu irmão?”

Quero conhecer o coração de Deus para lamentar o drama dos pequenos países latino-americanos sem recursos naturais e sem condições de pagar suas dívidas. Com os olhos marejados lembrarei que toda a América Latina foi roubada, explorada e usada por impérios que levaram daqui ouro, prata, cobre, ferro, madeira e banana. Lamentarei não haver uma justiça retributiva para que esses países sejam ressarcidos e não sofram tanto. Chorarei pela sangria da riqueza latino-americana que gasta tudo o que produz para pagar juros extorsivos.

Quero conhecer o coração de Deus para lamentar o que acontece em minha pátria. Chorarei pelos rios que viraram esgotos, pelas florestas que tombaram pela ganância do mercado e pelas praias que perderam sua virgindade branca e estão inundadas de lixo. Sentirei meu coração apunhalado quando lembrar que o Brasil se tornou uma ameaça para a humanidade — uma Amazônia devastada representará, talvez, o desequilíbrio final e total do sistema ecológico mundial.

Quero conhecer melhor o coração de Deus para chorar pela existência de clínicas clandestinas de aborto, de cortiços onde travestis negociam barato o corpo, de mendigos que dormem com suas famílias sob viadutos, e de favelas imundas que se multiplicam nas margens de córregos fétidos. Desejo compreender o que significou para Jesus afirmar: “Da mesma forma, o Pai de vocês, que está nos céus, não quer que nenhum destes pequeninos se perca” (Mt 18.14).

Quero conhecer melhor o coração de Deus para lamentar a exportação de crianças para servirem ao sórdido mercado da pedofilia. Quero prantear pelo Brasil, que se transformou em rota do turismo sexual. Será que conseguirei expressar minha tristeza por meu país ser conhecido internacionalmente pela sua violência, sensualidade, nudez e irresponsabilidade? Hoje já me sinto constrangido por saber que os cônsules tratam os brasileiros como oportunistas que só desejam emigrar para seus países como subempregados. Envergonho-me quando observo brasileiros chegando a aeroportos, para depois vê-los algemados, porque não foram bem-vindos.

Quero conhecer melhor o coração de Deus para lamentar o fato de muitos setores evangélicos do Ocidente terem se alinhado a uma geopolítica norte-americana desastrada. Chorarei por terem apoiado uma guerra e por inviabilizarem o diálogo com o mundo islâmico. É lamentável que os muçulmanos identifiquem os cristãos como infiéis sanguinários e legitimadores de uma doutrina bélica.

Quero conhecer melhor o coração de Deus para poder lamentar a perda da credibilidade da igreja. Precisam doer em mim os fracassos morais que se sucedem, o clero que espolia o pobre, os sermões que se tornaram irrelevantes e a fé que se transformou em mercadoria. Perto de Deus saberei valorizar o sangue dos mártires e missionários, e o esforço dos teólogos. Direi que a fé não pode se perder num mar de obviedades. Quero indignar-me com os discursos vazios, as promessas irreais e a banalização do milagre!

Almejo ser tão íntimo de Deus como o profeta Isaías o foi. Eu também direi que Deus odeia as festas religiosas e as muitas orações feitas em seu nome sem que se busque a justiça, combata a opressão e defenda o direito da viúva e do órfão.

Sei que há tempo para celebração, mas hoje quero aprender a lamentar.

Soli Deo Gloria.


Ricardo Gondim é pastor da Assembléia de Deus Betesta no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, Orgulho de Ser Evangélico — por que continuar na igreja e Artesãos de Uma Nova História.
www.ricardogondim.com.br




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