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Jubileu da Terra — Pobreza

O poder tóxico da desigualdade

A pobreza é um problema para a sociedade e para a natureza em geral. Em vários bolsões do mundo temos prejuízos decorrentes da falta de saneamento ou do recolhimento inadequado do lixo. Logo, parte da postura de preservação do meio ambiente passa, necessariamente, pelo combate à pobreza.

A preocupação com a preservação da natureza é realidade para poucos, o que torna difícil imaginar-se um movimento abrangente, que inclua aqueles que não têm condições mínimas de sobrevivência. Em contextos de miséria, desestruturação familiar e violência, falar de ecologia não passa de um luxo ou devaneio.

Para o diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Klaus Toepfer, “o elemento mais tóxico para o meio ambiente é a pobreza”. Diante dessa constatação, a solução sugerida pelos organismos internacionais seria o combate à pobreza por meio do desenvolvimento, graças ao incremento do comércio entre as nações.

Tudo poderia transcorrer nessa linha de argumentação que, ao mesmo tempo que fica indignada com a pobreza, exige uma postura responsável para com toda a criação de Deus. Porém, se optasse por esse caminho, este não seria um artigo completo e honesto.

O principal elemento tóxico não é a pobreza, mas sim a riqueza e a busca desenfreada pelo maior lucro possível. Eu diria que é exatamente nessa imbricação entre pobreza e riqueza que mais perdemos. A desigualdade, que a cada dia avança no mundo, salienta as diferenças entre os gêneros, as etnias, os ricos e os pobres. O modo de vida que escolhemos, fruto do afastamento do ser humano de Deus, tem por princípio a exclusão do outro e assume na sociedade capitalista a coisificação da natureza e das pessoas. Tudo tem seu preço e é preciso obter sempre o maior lucro.

No livro A Grande Transformação, Karl Polanyi fala sobre o estabelecimento do capitalismo na Europa e gasta um bom número de páginas naquilo que define como “mercadorias fictícias”. Com o advento do regime econômico, que hoje é praticamente o único no mundo — curiosamente numa época em que se defende o pluralismo para tudo, menos para a gestão econômica —, as pessoas e as terras se tornaram elementos que podem gerar riqueza. Porém, com o tempo, os próprios empresários perceberam a fraqueza dessas mercadorias, ora com o esgotamento da terra, ora com a morte dos empregados. Foi nesse terrível contexto social que se desenvolveu a estrutura de bem-estar social, uma resposta à degradação vivida na sociedade do século 19.

Em relação ao ser humano foram criadas uma série de leis de proteção social que regularam o tempo de serviço e garantiram elementos mínimos para que fosse possível a reprodução do trabalho. Em relação às terras também foram criadas leis que passaram a regular o seu uso. Nessas questões tem-se de forma recorrente novas propostas e avanços que visam garantir a preservação dessas duas “mercadorias fictícias”, as quais são alvo da ganância e do desejo de enriquecimento de alguns.

Nessa luta, a questão ecológica é a que mais tem avançado graças à mobilização de vários setores da sociedade e às propostas de regulação que têm sido debatidas em conferências internacionais como a Rio 92 ou a Rio +10. Outro passo importante foi o estabelecimento do Protocolo de Kyoto, que propõe uma série de avanços e que não contou com a adesão dos Estados Unidos. A nação que mais danos traz ao meio ambiente se nega a assinar o acordo.

O artigo “As raízes históricas de nossa crise ecológica”, do historiador Lynn White Júnior, publicado em 1967 pela revista Science, motivou o pensador cristão Francis Schaeffer a escrever o livro Poluição e a Morte do Homem – uma perspectiva cristã da ecologia, lançado em 1970. A discussão proposta parte de uma afirmação do historiador: “A atitude das pessoas para com a ecologia depende do que pensam de si mesmas em relação a tudo que as rodeia. A ecologia humana está profundamente condicionada ao que cremos acerca de nossa natureza e destino, isto é, à religião”.

Nessa linha de raciocínio, o autor argumenta que a “visão ortodoxa” do cristianismo dissemina a compreensão de que o homem deve dominar a natureza, o que cria condições para a destruição humana. O que devemos considerar é que o texto bíblico define a relação do homem com a natureza a partir da lógica do mandato cultural. É nosso dever cuidar da criação dentro da perspectiva da mordomia. Embora possamos identificar certos momentos da história em que o cristianismo tenha contribuído para a degradação do meio ambiente, hoje não cabe uma associação entre ele e a destruição da natureza.

Voltemos ao fato de Lynn White Jr. ter acertado em sua argumentação sobre o papel das crenças e dos valores no dia-a-dia da sociedade. Esse é um elemento central que precisamos considerar em nossas ações e discussões. Nessa direção, percebemos que a questão ecológica tem no capitalismo – e em sua lógica de riqueza a qualquer custo – o seu principal opositor. Os recursos naturais não são suficientes para se manter o nível de consumo vigente entre os mais ricos do mundo. A atual situação só é possível graças à desigualdade social, pois, se todos tivessem o padrão de consumo de combustível, alimentação ou energia elétrica existente em boa parte dos lares americanos, o mundo já teria entrado em colapso.

É preciso esclarecer que, nestes anos de globalização, para que a tão aclamada “América” exista também é preciso que tenhamos o continente africano. Em outro registro, Ipanema não se sustentaria se não existisse a Rocinha. Essa é a dinâmica que sustenta este mundo injusto e cada vez mais desigual. Em meio a essa realidade o meio ambiente padece, seja pela ausência de pobres, seja pelo excesso de ricos.

Entre os pobres, as doenças infecciosas, muitas causadas pela má qualidade da água, matam duas vezes mais do que o câncer. No Brasil apenas 60% do lixo coletado tem tratamento adequado e somente 35% do que é captado pelo sistema de saneamento é tratado. Já entre a minoria rica há uma crescente concentração de bens e capital. Além disso, por exemplo, apesar de os Estados Unidos possuírem menos de 5% da população mundial, lá se consome 26% do petróleo, 35% do carvão mineral e 27% do gás natural mundial. E as conseqüências disso recaem sobre os países pobres, mais vulneráveis às mudanças climáticas que ocorrem no globo devido a fenômenos como o efeito estufa.

Se é certo que a pobreza traz danos ao meio ambiente, também são gritantes os problemas que os excessos dos mais ricos representam para a natureza. Estamos diante de uma iminente crise no abastecimento de água e precisamos de uma postura distinta da lógica capitalista quando se trata dos recursos do planeta. Ao clamarmos pela vinda do reino de Deus, somos chamados a uma postura de mordomia, de misericórdia e de solidariedade para com o próximo e a criação.




Alexandre Brasil Fonseca é sociólogo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Participa da Secretaria Executiva da ABUB e da Coordenação Nacional do FALE — Unindo Vozes pela Justiça.

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