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Exclusivo Online — Meio ambiente no Brasil: um círculo vicioso

A questão ambiental no Brasil é o retrato de uma lamentável realidade, sem perspectivas de melhoras, em face da progressiva degradação ocorrente no país. Isso é fruto do descaso generalizado dos governantes, dos mitos, do protecionismo, da corrupção, da incapacidade técnica, da miséria e das injustiças sociais e, por incrível que possa parecer (pasmem!), do modismo. Ainda dá status no Brasil (como dera no mundo nos anos 60) qualquer profissional ou político, diretor ou chefe de qualquer setor técnico se dizer “ambientalista”, ou dizer que trabalha com questões ambientais. A partir daí, eles iniciam uma corrida à organização festiva de palestras, seminários, mesas-redondas, passeios nas matas, campanhas de coletas de latinhas de alumínio etc. Essas e muitas outras ações ambientais, no Brasil têm se tornado um círculo vicioso, sem rumo, sem objetivos, não realizando nada concretamente, ou muito pouco, em prol de um problema por demais complexo.

Os erros cometidos são tantos que se torna impossível enumerá-los nas duas laudas solicitadas para este artigo. Grande parte da comunidade científica no país, que se diz preocupada com a questão ambiental, é formada, eminentemente, por teóricos, os quais promovem discursos acadêmicos, fora da realidade prática e dos princípios elementares norteadores do equacionamento efetivo do problema. Há de ser também considerada a visão errônea sectariada, particularizada, de um problema que é holístico, o discurso retrógrado da intocabilidade dos recursos naturais, o comodismo diante do pernicioso modelo de desenvolvimento industrial do país, os absurdos cometidos em termos de políticas urbanas e, pior, a importação de modelos ultrapassados de gestão ambiental dos países industrializados para implantá-los em nossos vários “Brasis” (Porto Alegre, Piauí, Maranhão, São Paulo etc), ignorando suas especificidades, sua desastrosa inversão de distribuição demográfica e crescente miséria ocorrente nesses territórios.

Costuma-se avaliar a questão ambiental no Brasil pelas lentes de nossas belezas naturais. Esse é um ledo engano. Temos um país rico em belezas naturais, porém não se pode indicar (como no passado recente) pelo menos uma cidade ideal, ambientalmente saudável; lembrando que ter saúde é ter também um completo bem-estar social.

A falta de maturidade política, o déficit social e a falta de estrutura técnica não permitirão que o país reverta seu acelerado processo de degradação ambiental nos próximos cinqüenta anos. Essas conseqüências serão trágicas para grande parte da população.

Os relatórios do Banco Mundial assinalam que, mesmo sendo notória a redução no ritmo de crescimento da população mundial, ela chegará, em 2030, a ter um aumento para 3,7 bilhões de pessoas. Devemos, diante desses dados, atentar para dois fatores básicos: o primeiro é que esse aumento é muito maior do que o registrado na geração anterior e, provavelmente, em toda a história; o segundo é que cerca de 90% desse aumento ocorrerá nos países em desenvolvimento, atingindo, em sua maioria, as áreas urbanas. Isso diz tudo – basta pensar nas medidas preventivas que estão sendo tomadas para o caos instaurado no ambiente em virtude desse crescimento: nenhuma!

O relatório de Desenvolvimento Humano de 2003, divulgado em 07/07/03 pela ONU, mostra que o resultado brasileiro ainda é considerado péssimo, atrás de países como Colômbia, Malásia, Bielorússia e apenas uma posição à frente da Bósnia Herzegovina, um país recém trucidado pela guerra. O Brasil é apontado como “parâmetro de iniqüidade”, ao lado da China, Índia e México, todos conhecidos como economias em crescimento, mas que deixam à margem regiões de intensa pobreza, se equiparando aos países pobres da África, em relação à cobertura em saneamento ambiental. Não há meio ambiente saudável enquanto persistir tamanha desigualdade social.

Se você é um leigo, mas se preocupa honestamente com as causas ambientais do Brasil, vou lhe demonstrar a seguir, por meio de um simples exercício, como o descaso e o discurso barato, principalmente para votos, ainda não nos deixam enxergar a magnitude do problema no nosso país.

Imagine uma cidade de médio porte no país que, na década de 50, acomodava, por “quarteirão” (de 10.000 metros quadrados), 40 famílias (média de 200 pessoas) e, hoje, acomoda 650 famílias, ou seja, uma média de 3.000 habitantes. Esse quarteirão impõe uma demanda mensal de 126.000 quilos de alimentos, 60.000 quilowatts/hora de energia, 22.500 metros cúbicos de água, além de produzir 18.000 metros cúbicos de esgoto e 90.000 quilos de lixo por mês (exatamente a quantidade de lixo que a cidade de Coimbra, na Zona da Mata mineira, produz). Supondo que dessa população apenas 10% possua carro (na realidade é muito mais) e, somando a área exigida para estacionar esses carros, seriam necessários mais quatro quarteirões (térreos). Não podemos deixar de considerar, a julgar pelos dados estatísticos do país, que para cada 3.000 habitantes, aqui considerados, outros 1.950, em média, moram nas áreas carentes dessas cidades. São populações marginalizadas pelo próprio sistema, habitantes de áreas carentes que circundam os grandes centros. Entretanto, essas áreas são incorporadas ao espaço urbano e, igualmente, irão demandar água, energia, alimento, escola, atendimento médico e, também, produzirão lixo, esgoto etc. A água virá de onde cada habitante puder conseguir: clandestinamente, de córregos poluídos ou nascentes que deveriam ser preservados. Dificilmente seus filhos irão à escola (e isso se configura como um sério problema social). Seus esgotos e lixo gerados serão lançados nos córregos, nos lixões ou descerão morro abaixo, levando à proliferação de vetores (moscas, baratas, ratos, mosquitos) que espalham doenças, causando enchentes, poluição, desmoronamento de encostas, soterramento de casas etc. São essas pessoas sofridas que alongam as filas dos postos de saúde e hospitais públicos, com doenças provocadas pela falta de saneamento ambiental, podendo se transformar em surtos epidêmicos, afetando todo o país. Imagine agora uma cidade com vários desses quarteirões e várias áreas periféricas ocupados pelos excluídos que crescem a cada ano. Pensando assim, teremos uma idéia de quão complexa é a questão ambiental e quão baratos e sem propósitos têm sido os discursos.

Paradoxalmente, somos a décima segunda economia do mundo. Estudiosos assinalam que a nossa produção industrial entrará em plena expansão, podendo duplicar nos próximos cinqüenta anos, o que significa maior pressão no ambiente para extração de recursos naturais e energia, a fim de que sejam produzidos bens de consumo, acarretando maior degradação e poluição ambiental. Entretanto, os atuais problemas ambientais não resolvidos estão sendo adiados, e tantos outros problemas crescem progressivamente e estão se superpondo a esses. O próprio desmantelamento da máquina pública, gerado pelos governos passados, fez com que os atuais governantes se preocupassem em corrigir outros déficits, como emprego, saúde, escola e habitação, para garantir mais dignidade às populações. No entanto, caso essas políticas não possuam a “visão do todo”, não tenham uma estratégia holística, o homem poderá ter emprego, casa, hospitais, porém o seu ambiente, a água que irá beber, o ar que ele respira e seus alimentos estarão contaminados, resultando em um país bastante comprometido pela degradação ambiental, provocada por um processo equivocado e maquiado de gestão, ao qual assistimos.




João Tinôco é doutor em Engenharia Sanitária e Ambiental pela Universidade de Leeds, U.K. É professor titular da UFV e coordenador do Laboratório de Engenharia Sanitária e Ambiental do DEC/UFV.

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