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Colunas — Arte e cultura

Gostar do Brasil

Mark Carpenter

Estou no Brasil desde os 3 anos de idade. Todas as vezes que saí — para acompanhar meus pais, para estudar ou para trabalhar — sempre acalentei um único desejo: voltar para cá.

Aos 18 anos, no Paraná, fazia de tudo para camuflar minha nacionalidade norte-americana. Inseguro, não queria ser conhecido como “gringo”. Hoje conheço bem minhas raízes. Sei o que meus antepassados sacrificaram pelas gerações futuras, e não posso desprezar seus atos, suas convicções e sua visão. No entanto, minha ligação com o Brasil começou quando esperneava no colo de minha mãe enquanto ela ouvia música sertaneja. A música brasileira entrou-me há decadas pelos poros da minha pele anglo-saxã e definiu a cor de meu sangue e a ginga de meu DNA.

Meu vínculo com o Brasil começou com o cheiro do café torrado pelas camponesas paranaenses. Entrou por sob minhas unhas quando brincava no quintal com a terra vermelha de Maringá. Manchou minha roupa de verde nas guerras de mamona que travei com os amigos. Encharcou-me o cabelo com as tempestades de verão e com as névoas das Sete Quedas. Encardiu-me as entranhas com os rubores de temperos tropicais. Entortou-me os ouvidos com as gargalhadas abertas, os guinchos das arapongas e o zumbido das cigarras. Moldou-me o coração com o traço do Henfil, o timbre da Elis e o toque do Pelé. Viciou meus neurônios com o compasso de seus poetas e com o passo de seus ritmos. Tingiu-me as retinas com as cores patenteadas e inexistentes fora desta terra.

Agora não tem mais jeito. O Brasil me assumiu como eu assumi o Brasil. Hoje vejo este país do alto, como ele é e como virá a ser. Sou até responsável por ele. Por onde quer que eu vá, o represento.

Paradoxalmente, hoje entendo que esta paixão que me liga ao Brasil é justamente o que mais me identifica como estrangeiro. Sei que muitos brasileiros acreditam que se eu fosse mesmo “do Brasil” não faria tanta questão de ficar por aqui, principalmente tendo a oportunidade de sair e ser bem-sucedido no Primeiro Mundo.

Afinal, virou moda falar mal do Brasil. Ou, melhor, nunca saiu de moda. Não é de agora que os sociólogos inventam teses para explicar a baixa auto-estima nacional. Seja qual for a razão, o fato é que o estrangeiro continua sendo mais valorizado que o nacional. Quem não acreditar que tente comprar uma camiseta de grife com dizeres em português. Ou que tente explicar a popularidade de filmes cáusticos e pessimistas como Cronicamente inviável. Ou que decifre o sucesso de Diogo Mainardi, colunista de Veja cuja marca registrada é pichar o Brasil e os brasileiros. Ou que entenda por que as celebridades que passam tempo demais no Brasil (Naomi Campbell, Chrissie Hynde, Pat Metheny) acabam sendo consideradas “carne de segunda” pela mídia nacional.

Também na igreja evangélica brasileira, essa moda também já pegou. Ela supervaloriza os pregadores estrangeiros, os livros de fora, os modelos importados de crescimento, a administração e organização de igreja, e até o praise music americano e inglês. Posso estar enganado, mas a meu ver a igreja brasileira não precisa aderir a essa moda. Acredito que um projeto de transformação da sociedade brasileira começa com a construção de uma auto-imagem nacional que harmonize com a condição de filhos de um Deus que nos aceita como somos.

Sonho com o dia em que gostar do Brasil não seja privilégio de gringo.


Mark Carpenter é diretor-presidente da Editora Mundo Cristão e mestre em letras modernas pela USP.

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